A Metafísica das Sombras: Parte II

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A Metafísica das Sombras

Ausências, buracos, escuridão e outras formas de não-ser

por Lauro Edison



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O que são sombras?

 

Se queremos saber se sombras existem, primeiro precisamos saber o que elas são, isto é, precisamos saber do que estamos falando. Era isso o que os gregos e medievais queriam dizer com ‘a essência precede a existência’. Há algo paradoxal nisso, é verdade, pois pareceria que, se sombras não existem, a resposta para ‘o que são sombras?’ só pode ser que sombras não são nada: não são pedras, como é de esperar, mas tampouco são projeções escuras ou ausências de luz; pois se sombras fossem isso, elas seriam alguma coisa. E nada é nada. Tal paradoxo, que pode parecer tanto espúrio quanto insolúvel, está por trás de debates fundamentais da filosofia, tão acirrados hoje quanto há 2 mil anos. A investigação sobre as sombras, penso, é justamente uma forma ideal de atacar o problema. Pois bem, o que elas são? Sorensen nos informa pomposamente que “em 1767 Claude-Nicholas Lecat declarou que sombras são buracos na luz”(188), e esse é seu ponto de partida. Isso nos leva imediatamente à questão de o que são buracos…

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Buracos

‘Um buraco?’, o Comedor de Rochas resmungou.
‘Não, não um buraco’, disse o Fogo-Fátuo desesperadamente.
‘Um buraco ainda é alguma coisa, afinal.
Ali não há nada… completamente nada.’
Michael Ende, A História Sem Fim, 1974

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Buracos são estranhas lagoas: compostas de nada, ou ao menos de espaço vazio, e cercadas por matéria, ou espaço preenchido. Essa, pelo menos, é a forma mais natural e direta de concebê-los. Sobre buracos, Sorensen consulta os filósofos Roberto Casati e Achille Varzi, autores do livro Holes and Other Superficialities (“Buracos e Outras Superficialidades”, também sem tradução) e da entrada Buracos na Stanford Encyclopedia of Philosophy (SEP):

Casati e Varzi dizem que buracos são constituídos por espaço do mesmo modo que a Estátua de Davi, de Michelangelo, é constituída por matéria (no caso, mármore). (…) Buracos ‘não são abstrações, mas indivíduos, embora não sejam feitos de nada a não ser espaço. Eles não são parte do objeto material no qual são localizados [hosted in]…; em vez disso, eles são corpos imateriais, localizados na superfície de seus portadores [hosts] (1994, 6) (…) ‘Espaço é, em certo sentido, a matéria dos buracos – ou, se você preferir, espaço é para os buracos o que a matéria é para os objetos materiais’ (1994, 32) . (88-89)

Muito bom, mas há uma rebarba aí: quando o queijo-suíço se move, seus buracos se movem junto; e, no entanto, o espaço que os buracos antes ocupavam permanece onde estava. O espaço não se move. Como Casati e Varzi reconhecem, “buracos são localizados em — mas não idênticos a — regiões do espaço”(2009: 5). Então o que exatamente significa dizer que eles são constituídos por espaço? Sorensen descreve as coisas assim: “Buracos podem mudar de posição. Uma bolha subindo pela água é um buraco que é constituído por sucessivas regiões do espaço”(88). O filósofo Erdinç Sayan, segundo Sorensen, prefere dizer que ‘o espaço é o meio de um buraco. Buracos são espécies de ondas’. Isso parece soar melhor. Ou não… Seja lá qual for a exata relação dos buracos com o espaço, o importante é o seguinte: buracos são ausência de matéria que é cercada por matéria.

E esse é o centro de toda a questão: ausências existem?

Antes, é bom dizer algo mais sobre a natureza dos buracos e acertar a terminologia: buracos são imateriais mas também são concretos. É claro que ‘concreto’ e ‘material’, nesse contexto filosófico, não são sinônimos. Matéria é aquilo de que os corpos físicos são feitos. Concreto é o que está localizado no espaço-tempo, participando de relações causais, e se opõe a abstrato: Sorensen afirma que “um grão de areia, um camelo e um oásis são, cada um, entidades concretas. Eles são parte da ordem causal. Entidades abstratas (como números, conjuntos, mundos possíveis) não causam coisa alguma” e que “buracos são ausências concretas; eles têm posição no espaço e tempo”(2012: 8). Além disso, “buracos não são objetos abstratos como números (…). [Casati e Varzi] caracterizam buracos como ‘seres imateriais’ (189). Por fim, “todas as coisas materiais são concretas, mas algumas coisas concretas podem ser imateriais. Sombras e buracos têm localização e duração, mas não são feitos de nada material”(2012: 8). Tudo isso se pode resumir assim: um buraco é concreto porque, como uma pedra e ao contrário de um número, faz parte do universo espaço-temporal e entra em relações causais; e é imaterial porque, ao contrário de uma pedra, não é composto de matéria.

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Ausências

 

Ausências são as ovelhas negras da ontologia.
Lamentamos seu mau comportamento, mas é difícil renegá-las.
Roy Sorensen, A Reply from the Dark Side (211), 2011

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Roy Sorensen é, acima de tudo, um filósofo interessado em ausências. Entre seus trabalhos você encontra nada menos do que a entrada Nada [Nothingness], da SEP, bem como um artigo sobre citações vazias (2008b), onde a frase “.‘ ’ não possui caracteres.” conta como significativa e, mais, verdadeira. Em outro artigo, sobre circularidade lógica (1999), ele defende que existem argumentos sem premissa, ou com ‘premissa vazia’, como o seguinte:

(Premissa)           _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _
(Conclusão)        Portanto, há argumentos sem premissas.

A ideia geral por trás de tudo isso, e de muito o que ele defende em Seeing Dark Things, é que há uma diferença crucial entre a representação de ausências e a ausência de representações. Todo o meu entusiasmo para essa proposta! Por isso ele afirma que enxergamos na total escuridão, e que isso é diferente de (como um cego) não enxergar; que ouvimos o silêncio, e que isso é diferente de (como um surdo) não ouvir; que percebemos ausências, e que isso é diferente de (como um distraído) não perceber. Como exemplo, pense num professor que, chegando numa classe onde dois alunos faltaram, percebe a ausência de um e, ao mesmo tempo, não percebe a ausência de outro.

Mas tudo isso implica que ausências podem ser representadas, percebidas, ouvidas, vistas. O Demônio do Absurdo, é claro, já se põe ameaçadoramente à espreita. Como Sorensen sintetiza, “parece paradoxal dizer que ausências existem — mas nada melhor dizer que ausências não existem”(19). E os buracos, sendo ausências de matéria, também “não ficam nada mais confortáveis do lado do ser que do lado do não-ser”(16). Ausências, buracos, sombras… Se existem, estamos literalmente falando de entidades negativas. Sorensen confessa: “sou um apóstolo relutante da metafísica negativa”(16).

Se tais entidades fazem sentido, parece que uma peculiaridade delas será que elas dependem, para existir, das entidades positivas. Assim os buracos “presisam existir em objetos. Eles são parasitas metafísicos”(202); ou, como disse o jornalista Kurt Tucholsky em 1930, “não há tal coisa como um buraco por si mesmo(Casati & Varzi 2009: 5). Confesso que essa noção de dependência metafísica foi o que me convenceu, num lampejo, de que entidades negativas são perfeitamente plausíveis: existe o objeto perfurado e, nele, o buraco; existe a chuva de fótons em parte bloqueada e, nela, a sombra. E é bom que seja assim, pois o fato óbvio é que há buracos e sombras lá fora!

Ou não há?

O de sempre: há filósofos para tudo. Como Casati e Varzi reconhecem, “pode-se argumentar que referência a buracos é apenas uma façon de parler [um modo de falar], que buracos são meras entia representationis, entidades ‘como-se’, ficções”(2009: 1). De fato, é tentador dizer coisas como: não existem buracos, apenas objetos esburacados — mas então como vamos distinguir entre objetos com um, dois ou mais buracos? Pois nessa teoria não há buracos para serem contados, só os objetos esburacados! Outros afirmam que os buracos são, na verdade, as superfícies materiais que abrigam os buracos — circularidade que me faz lembrar a afirmação de Vani, em Os Normais, de que “a parte exterior da bunda é a própria bunda”. Deixarei essas controvérsias de lado — você pode seguir o caminho para essas teses rivais, e os problemas que elas enfrentam, nas já mencionadas entradas da SEP, Buracos e Nada.

Aqui eu continuarei seguindo a (a meu ver correta) abordagem de senso-comum de Sorensen, para quem os buracos são “ausências concretas” e para quem “a mais poderosa razão para acreditar que há sombras é que elas estão plenamente à vista na vida diária”(84).

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Materialismo

 

Um materialista pode acreditar que há buracos em seu queijo suíço?
Os buracos estão onde a matéria não está. Assim, admitir a existência
de buracos é admitir a existência de objetos imateriais!
Roy Sorensen, SEP | Nothingness (23), 2012
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A luz pensa que viaja mais rápido do que qualquer coisa, mas está errada.
Não importa quão rapidamente a luz viaje, ela depara sempre com
a escuridão tendo chegado ali primeiro e à sua espera.[1]
Terry Pratchett, Reaper Man, 1991: 321

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As sombras existem e são imateriais. Se isto está certo, segue-se que o materialismo — a visão de que tudo o que existe é material — é falso. Mais ainda, a própria física deveria estudar coisas imateriais: “Física, especialmente uma física que leva o vácuo a sério, deve cobrir todas as coisas que se movem, não apenas o movimento das coisas materiais”(104). Talvez você ache que uma física não-materialista é algum tipo de distopia científica e filosófica, e deseje acreditar que as sombras existem mas são materiais. Contudo, o argumento de por que elas não podem ser materiais é tão devastador quanto surpreendente: sombras podem se mover mais rapidamente que a luz. “Suponha que eu balance meu polegar diante de uma lanterna que pode transmitir luz através de vastas distâncias. Eu acendo a lanterna, enviando a sombra do meu polegar num vôo através dos céus. A taxa na qual a sombra projetada se move (lateralmente) cresce geometricamente com a distância. A uma distância grande o suficiente, a sombra do meu polegar se move mais rapidamente que a velocidade da luz”(41)[2]. E, como sabemos da relatividade, nada material pode fazê-lo. De modo que só temos duas opções aqui: ou sombras existem e são imateriais, ou não existem.

O materialista está condenado a negar a existência de sombras.

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Ser ausente ou não-ser?

 

Dito isso, creio que o materialista está a salvo pelo menos dessa ameaça. Sombras não existem. Estou voltando atrás? Ao contrário, estou avançando uma sutileza que julgo fundamental, mas para a qual Sorensen parece distraído. As sombras estão lá, objetivamente, exatamente como nos parece. Mas elas são justamente a inexistência (em vez da ‘ausência existente’) de luz em certa região do espaço. De fato, por isso mesmo eu aceito a locução ‘há sombras na sala’ e até mesmo ‘sombras estão presentes na sala’, mas não a locução ‘existem sombras na sala’: como espero deixar claro, as duas primeiras não implicam em existência. Por que preferir essa maneira de enquadrar a situação? Por ser a única maneira coerente. Não é à toa que Sorensen se preocupa com o aspecto paradoxal das ‘ausências existentes’: ausência não é algo que existe, mas a inexistência de algo (se universal ou local). E ele inadvertidamente mistura as duas concepções na passagem a seguir:

Quem tornou os seres humanos os árbitros do não-ser? Quando um urso segue você caverna adentro, ele vê a mesma escuridão que você. Essa escuridão existia muito antes que qualquer um a visse e teria existido mesmo se nenhuma criatura jamais a tivesse contemplado.

O não-ser é tão objetivo quando o ser. (248)

A escuridão da caverna, contudo, é a ausência de luz da caverna e, como ele disse, tal ausência “existia muito antes que qualquer um a visse” — mas então ele sugere que tal ausência é um tipo (objetivo) de não-ser. Se a escuridão existe, porém, faz parte do ser. Sorensen, mais do que qualquer um, deveria ser sensível à diferença entre existência negativa e inexistência: a primeira é uma forma de existência, a segunda não. De fato, penso que Sorensen acerta ao sugerir que a escuridão (ausência de luz) pertence ao não-ser e é tão objetiva quanto o ser. Essa é a essência da solução correta. O que ele deveria ter dito antes, portanto, é que a escuridão estava presente, ou que havia escuridão, “muito antes que qualquer um a visse”. Ele não deveria ter dito que a escuridão existia. A maior parte do tempo, contudo, ele parece mesmo defender que ausências existem. Ou, pelo menos, oscila incoerentemente entre as duas formas de enquadramento, como se fossem equivalentes.

Tal tensão conceitual entre a inexistência e a existência de nadas é antiga, e você pode senti-la nos ossos na seguinte passagem:

Desde o tempo de Melissus tem havido argumentos contra a possibilidade de um vazio existir à maneira que um objeto existe: ‘Nem há qualquer vazio, pois vazio é nada, e o nada não pode ser.’(Guthrie 1965: 104) Se você diz que há um vácuo no frasco, então você está afirmando a existência de algo no frasco — o vácuo. Mas uma vez que ‘vácuo’ significa uma ausência de algo, você também está negando que há algo no frasco. Portanto, ‘Há um vácuo no frasco’ é uma contradição. (Sorensen 2012: 22)

Obviamente tem que haver um erro em algum lugar. Se o que venho dizendo está certo, o erro ocorre na sentença “se você diz que um vácuo no frasco, então você está afirmando a existência de algo no frasco”. Sendo o vácuo um tipo de ausência, ele se faz presente justamente por ser a inexistência de ar. Ser uma inexistência (no caso, de ar) é uma forma de não existir — não é uma forma de existir.

O filósofo que melhor compreendeu esse tipo de quebra-cabeça conceitual, penso eu, foi Alexius Meinong (1853-1920), “um filósofo austríaco cuja notoriedade se deve, em grande parte, à formulação de uma teoria de objetos não-existentes, duramente atacada por Bertrand Russell”. “A teoria é baseada em torno da suposta observação empírica de que é possível pensar em alguma coisa, como uma montanha de ouro, mesmo que este objeto não exista”(Wikipedia). Infelizmente, dada a influência de Russell na comunidade filosófica, a fama de Meinong foi a pior possível século adentro. Numa das raras ocasiões em que Sorensen o cita (com seu texto sempre inspirado!), é para ecoar justamente esse fato: “metafísicos tradicionais zombam das incursões de Meinong na vida noturna ontológica”(1992: 49). Culpa de Russell, um dos donos da festa. Mas isso começou a mudar a partir dos anos 70 e, pra resumir a história, muitos agora pensam que Meinong basicamente tinha razão. Tão tarde quanto 1992, porém, Sorensen ainda explicava a ideia meinongiana de forma tipicamente imprecisa:

Se há apenas coisas existentes, como nós conseguimos nos referir ao Papai Noel? Dado que nós de fato nos referimos ao Papai Noel e dado que ele não existe, Papai Noel precisa ter outra forma de ser: subsistência. (1992: 49)

Como muitos já sabiam então, essa estranha noção de ‘subsistência’ — interpretada como um tipo de ‘semi-existência’ — é de Russell, não de Meinong. Vale mencionar a passagem do magnífico texto The Russell-Meinong Debate, de 1985, da filósofa Janet Farrell Smith:

Há uma persistente confusão sobre a teoria dos objetos de Meinong (…). [Ele] distinguia entre (i) objetos existentes [significados pelo verbo ‘Existieren’], e. g., objetos concretos no espaço-tempo, (ii) objetos subsistentes, e. g., objetos abstratos tais como relações ou objetivos [os quais não existem mas possuem o tipo de ‘ser’ que Meinong chamava ‘Bestehen’], e (iii) objetos não-existentes, não-subsistentes, os quais não possuíam ser de nenhum tipo, mas estavam ‘além do ser e do não-ser.’ Provavelmente por causa de sua [i. e., de Russell] doutrina que todo objeto que é pensável ou pode ser mencionado tem ‘ser’, Russell tendia a assimilar os objetos de Meinong na categoria (iii) à categoria (ii). Assim, quando Russell atribuía ‘ser’ aos objetos não-existentes e não-subsistentes de Meinong (quadrados redondos, montanhas douradas), (…) ele estava perdendo uma distinção crucial [e] também (…) um princípio crucial de Meinong, a Independência entre Sosein e Sein (Independência entre ser-assim e ser), a qual permite predicações significativas e valores verdadeiros (ou falsos) atribuíveis a essas predicações ‘se o objeto possui ser ou não’. (307)

Sorensen, assim, estava apenas repetindo uma confusão do início do século, começada por Russell, quem insistia que “o que não existe precisa ser alguma coisa, ou seria sem sentido negar sua existência; e portanto nós precisamos do conceito de ser como aquele o qual pertence mesmo ao não-existente(1903: 405) [ênfase de Smith (308)]. Anos depois Russell faz pior ainda, creditando essa estranha ideia a Meinong:

É alegado, e. g. por Meinong, que podemos falar sobre ‘a montanha dourada’, ‘o quadrado redondo’ e assim por diante; podemos fazer afirmações verdadeiras nas quais esses são os objetos referidos; por isso eles precisam ter algum tipo de ser lógico [ênfase minha], pois de outro modo as proposições nas quais eles ocorrem não teriam sentido. Em tais teorias, me parece, há uma falha daquele sentido de realidade que deve ser preservado até mesmo nos estudos mais abstratos. (1919: 169)

Como aponta o lógico Graham Priest sobre essa passagem, em sua excelente defesa do meinongianismo, Towards Non-Being (“Rumo ao Não-Ser”, sem tradução para o português), de 2005, “note que Russell entendeu Meinong errado. Meinong não afirma que os objetos em questão possuem qualquer forma de ser. O que Russell está criticando é sua própria teoria antiga!”(2005: 107). Assim, o fato é que, para Meinong, Papai Noel não precisa ter nenhuma ‘outra forma de ser’. Ele não existe, ponto final — em nenhum sentido de ‘existir’. Mas pode ser referido mesmo assim, isto é, podemos pensar e falar sobre ele. ‘Ele quem?’, você desejará perguntar. Ele mesmo, o inexistente velhinho da barba branca e roupa vermelha no qual as crianças acreditam. Isso é meinongianismo — ou, na versão moderna de Priest, noneísmo. Sim, o aparente paradoxo de podermos falar sobre o que não existe gera perplexidade há muito, muito tempo. Sorensen nos conta: “Parmênides [530 a.C. — 460 a.C.] defendia que é autodestrutivo dizer que algo não existe. A versão linguística dessa intuição é o problema das existenciais negativas: ‘Atlantis não existe’ é sobre Atlantis. Uma afirmação só pode ser sobre algo se este algo existe”(2012: 25). Não: é justamente esse princípio que Meinong, com razão, recusava. Deixemos ele mesmo falar um pouco:

Se alguém julga que uma máquina de movimento perpétuo não existe, então está claro que o objeto cuja existência ele está negando precisa ter certas propriedades (…). De outro modo, o julgamento de que o objeto não existe não teria nem sentido e nem justificação. (1910: 79)

Afinal, se uma máquina de moto perpétuo não pode existir, é precisamente porque ela tem propriedades que violam as leis da física.

Mas então há mesmo coisas que não existem?

Se você já estava incomodado com a ideia de entidades negativas, com suas estranhas formas de ‘existência dependente’, certamente a ideia de aceitar entidades inexistentes parecerá pior ainda. Acredito que essa impressão é enganosa — de fato, enganou a mim mesmo por muito tempo! Mas se a sombra não existe, você dirá, como pode ‘estar lá’ (digamos, sob a árvore)? Simples: pode estar lá literalmente, bastando pra isso que a luz não esteja. Tal ausência da luz já é a própria sombra. A ausência da luz, assim, é suficiente para a presença (mas não para a existência) da sombra. Sombras não são o tipo de coisa que pode existir. Dito de modo literal, a presença da sombra é a presença — o ocorrer ali — da ausência de luz. Vale repetir isso sem interrupção: a presença da sombra é a presença da ausência de luz. Pois é (sob a árvore) que a luz está ausente, não? Pois bem, é que a ausência da luz está presente (o que é apenas dizer o mesmo). A ausência é da luz, a presença é da ausência de luz (i. e., da sombra). Não há contradição. E mais: a presença de uma ausência não implica que tal ausência exista — apenas implica que ela ocorre no local; no caso, sob a árvore. Bem entendida, essa é a forma menos problemática, mais elegante e coerente de delinear a situação.

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Objeção: se sombras não existem, buracos também não existem. Isso significaria que não existem buracos na colher, o que é obviamente verdadeiro, mas também significaria que não existem buracos na escumadeira, o que — basta olhar! — é obviamente falso:

Resposta: de fato, buracos são formas de ausência, isto é, formas de não-existência. Gosto da expressão coerente e seca de Richard Routley (talvez o maior dos noneístas): “Não-existência não existe” [Non-existence does not exist, título de um artigo de 1970]. Segue-se que buracos não existem. Em particular, não existem buracos na escumadeira. ‘Como não?!’, você dirá, ‘Posso ver os buracos lá!’. Mas é claro que pode: eles estão lá; estão lá objetivamente. Dito de outro modo, buracos na escumadeira. Ocorre apenas que buracos não são o tipo de coisa que existe: ao contrário, eles são justamente a inexistência de matéria em certos trechos da escumadeira. Ver a inexistência de matéria nesses trechos já é ver os próprios buracos.

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Há ou existe?

 

O que falta, nesse ponto, é aparar uma aresta linguística: ‘há’ e ‘existe’, na linguagem cotidiana, são muitas vezes sinônimos. Isso não é um erro e nem é problema nenhum aqui. As pessoas não estão preocupadas com sutilezas metafísicas quando dizem que ‘existem’ buracos na escumadeira. O importante é que, mesmo para a pessoa comum, a distinção filosófica aqui levantada é bastante genuína: ninguém realmente pensa que buracos existem no mesmo sentido em que pedras existem. E a distinção é que é prioritária, não as palavras.

Contudo, palavras importam. Um noneísta como Priest prefere manter ‘há’ [there is] e ‘existe’ como sinônimos, e traçar a divisão em outro lugar. Assim ele dirá que não (i. e. não existe) nenhum objeto inexistente, contudo alguns objetos são inexistentes: Papai Noel, Pégasus, etc. É uma opção. Mas Priest, ao contrário de Sorensen, não está pensando em ausências objetivas no mundo, como buracos e sombras. Uma vez que se pensa nesses casos, me parece, se torna demasiado antinatural usar a terminologia de Priest: é surreal não poder dizer que ‘há buracos na escumadeira’ e ter que se limitar a dizer que ‘alguns buracos estão na escumadeira’ (embora não haja buracos nela!). Além disso, penso que o significado natural das palavras se presta bem melhor à estratégia de traçar a distinção entre ‘há’ e ‘existe’ — de fato, eu acredito que tal distinção no fundo já está traçada na linguagem natural. Pois embora a sinonímia entre os termos seja um fato da língua, é tão ou mais comum que o termo ‘haver’ seja, de certo modo, mais fraco que o termo ‘existir’. Por exemplo,

vale a pena notar que [Friederike Moltmann, no artigo The semantics of existence], afirma que ‘existe’ funciona de modo totalmente diferente de ‘há’, em que este último pode ser usado para quantificar sobre entidades passadas, meramente possíveis ou intensionais, ao passo que o primeiro não pode. (Savitt 2013: 12)

E o dicionário Houaiss (v3.0) atesta essa diferença (ênfases minhas):

existir
1. ter existência real (…) ser
3. haver

haver
4.
ter existência (material ou abstrata); existir
——
Ex.: haverá deuses, enquanto alguém neles acreditar

De algum modo, os termos ‘existir’ e — também — ‘ser’ merecem a definição enfática ‘ter existência real’. Já o termo ‘haver’ não apenas não merece essa ênfase, como merece a ressalva de que a existência pode ser apenas ‘abstrata’. Abstrata em que sentido? O exemplo usado não deixa dúvidas de que o sentido é esse:

abstrato
8. realidade existente somente no âmbito da imaginação,
—– sem existência material ou concreta.

Parece-me claro que essa é a maneira — filosoficamente desajeitada, mas certamente discernível — de o dicionário registrar a distinção intuitiva entre existir e haver: às vezes há certas coisas — coisas que podem ser referidas e pensadas (‘imaginadas’!) — que não existem realmente, isto é, não existem e ponto. Daí que ‘haverá deuses (abstratamente, isto é, de forma irreal), enquanto alguém neles acreditar’. Pra usar a terminologia do dicionário: pedras têm ‘existência real’ — existem; buracos têm apenas ‘existência abstrata (i. e., irreal)’ — não existem. Mas não que buracos sejam imaginários como os deuses; ao contrário, são perfeitamente objetivos. Ser imaginário é apenas uma das formas de algo não existir (de fato, uma forma subjetiva). Outra é ser um tipo de inexistência. E é isso o que buracos são: inexistências (locais) de matéria.

Ergo, há buracos — exatamente como parece. E eles não existem.[3]

‘Não estou convencido: dizer que algo não existe é dizer que ele está totalmente ausente da realidade — em todos os sentidos’. Creio que isso é insistir em usar a palavra ‘existir’ em seu sentido fraco de ‘haver’. Mas talvez eu esteja errado, afinal. Pois eis como funciona a filosofia: se não está convencido, como você tentaria dar coerência a todo o problema metafísico, conceitual e semântico levantado até aqui? Despertar tal reflexão é certamente o plano B de qualquer texto filosófico: se minha solução é incorreta, então outra solução precisa ser encontrada!

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Metafísica

 

Foi um caminho longo e vertiginoso até aqui: buracos e sombras não existem. Ainda estamos dentro das fronteiras da metafísica? Num tema relacionado (o da total inexistência, o Nada), Sorensen nota essa espécie de desarmonia: “Dado que metafísica é o estudo do que existe, pode-se esperar que os metafísicos tenham pouco a dizer sobre o caso limite no qual nada existe”(2012: 1). Se metafísica é sobre o que existe, e se ausências não existem, então falar delas não é mais a ‘metafísica negativa’ que Sorensen supõe estar fazendo; em vez disso, seria um tipo de ‘transmetafísica’. Como pôs Russell, numa resenha da Teoria dos Objetos de Meinong, esta “não é idêntica à metafísica, mas mais ampla em seu escopo; pois a metafísica lida apenas com o real, ao passo que a teoria dos objetos não possui tais limitações.”(1905: 78) No entanto eu prefiro, como o próprio Meinong, afirmar que ‘metafísica’ sim abrange o não-ser: “sobre objetos imaginários e ficcionais”, nos diz a professora Smith, “Meinong enfatizou, da Teoria dos Objetos em diante, que apenas um ‘preconceito em favor do real’ restringe a metafísica à realidade”(1985: 334).

Quando Aristóteles fundou a disciplina, oscilou entre duas caracterizações dela: metafísica como a ciência do ser enquanto ser, voltada explicitamente para a existência; e metafísica como filosofia primeira, concernente a questões que são — nas palavras do especialista em Aristóteles, S. Marc Cohen — “em algum sentido as mais fundamentais ou pertencentes ao mais alto nível de generalidade”(2012: 2). Desde então têm havido perplexidade sobre a exata relação dessas duas concepções. A ideia mais comum, implícita já em Aristóteles, é que elas de algum modo coincidem: as questões mais fundamentais e gerais seriam, justamente, as questões sobre a natureza do ser. Talvez. Mas e se Meinong estiver certo? Pois o que a metafísica das sombras nos sugere é, justamente, que a compreensão do ser depende da adequada compreensão do não-ser — que então seria ainda mais fundamental. A nobre disciplina faria melhor em se manter neutra e não pré-julgar essa questão crucial. Que a Metafísica seja definida, portanto, como a filosofia primeira, seja qual for, e não como a filosofia da existência. De fato é o que já acontece na prática: discussões sobre o nada, sobre objetos inexistentes e sobre ausências são naturalmente percebidas como discussões metafísicas. Nesse ponto um comentário de Sorensen, sobre como nossa percepção de objetos (ser) evoluiu a partir de nossa percepção de sombras (não-ser), é altamente sugestivo: “nós trabalhamos em direção ao ser a partir das margens do não-ser”(84). Não seria a primeira vez que a evolução chega antes de nós à resposta certa.

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►Parte III: Sombras Estranhas

 

 

 

Referências

Casati, R. & Varzi, A. 1994: Holes and other superficialities, Cambridge, Mass.: MIT Press.

Casati, R. & Varzi, A. 2009: ‘Holes’, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Spring 2009 Edition), Edward N. Zalta (ed.)

Cohen, S. M. 2012: ‘Aristotle’s Metaphysics’, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Fall 2015 Edition), Edward N. Zalta (ed.)

Guthrie, W. K. C., 1965: A History of Greek Philosophy (Volume 2), Cambridge University Press.

Meinong, A. 1910: Über Annahmen, Second Edition, Barth, Leipzig.

Priest, G. 2005: Towards Non-Being: the Logic and Metaphysics of Intentionality. Oxford: Clarendon Press.

Russell, B. 1903: The Principles of Mathematics, London: Cambridge University Press. (Segunda Edição com nova Introdução, London: Allen & Unwin, 1937)

Russell, B. 1919: Introduction to Mathematical Philosophy, London: Allen & Unwin.

Savitt, S. 2013: ‘Being and Becoming in Modern Physics’, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Summer 2014 Edition), Edward N. Zalta (ed.)

Smith, J. F. 1985: ‘The Russell-Meinong Debate’, Philosophy and Phenomenological Research 45: 305-350.

Sorensen, R. 1992: Thought experiments, Oxford, England: Oxford University Press.

Sorensen, R. 1999: ‘An empathic theory of circularity’, Australasian Journal of Philosophy 77: 498-509

Sorensen, R. 2008: Seeing Dark Things: The Philosophy of Shadows, Oxford: Oxford University Press

Sorensen, R. 2008b: ‘Empty quotation’, Analysis 68/297, 57-61

Sorensen, R. 2011: ‘Silhouettes: A Reply from the Dark Side’, Acta Analytica 26 (2): 199-211

Sorensen, R. 2012: ‘Nothingness’, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Summer 2015 Edition), Edward N. Zalta (ed.)

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Capa

Recorte de Hole, Scott Robinson 2007

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Notas

[1] Original: “Light thinks it travels faster than anything but it is wrong. No matter how fast light travels it finds the darkness has always got there first, and is waiting for it.”

[2] Você pode ver uma ilustração do fato aqui:
—–https://youtu.be/JTvcpdfGUtQ (a partir de 40s, até 1:30).

[3] Em inglês a distinção parece ainda mais clara: temos shadows exist, que é simplesmente “sombras existem”; e temos there are shadows, que é corretamente traduzido como “há sombras”, mas também poderia ser traduzido literalmente – de uma forma errada mas reveladora – como “lá estão sombras”. Isso é pra ser lido assim: (naquele local) estão (estão presentes) sombras. Tal locução não tem compromisso com a existência do que está lá, só com sua presença. Isso pode mesmo ser um tipo de insight difícil de o anglo-falante discernir, pois estou traduzindo are como “estava” (verbo estar; estado) e não “era” (verbo ser; existência), me aproveitando de uma distinção verbal que não existe em inglês: pra eles, ambos os sentidos são capturados pelo verbo to be. É claro que isso não os impede de discernir ambos os sentidos, tanto quanto nós, mas num tema tão elusivo quanto o da “existência negativa vs. inexistência”, isso pode bem estar atrapalhando a clareza conceitual. Nós temos o semanticamente opaco “há”, eles têm o composto e revelador there are; mas nós temos os verbos “ser” e “estar”, e eles só têm o to be. Ou considere a expressão “Is there any nothingness?” [Há algum nada?], como Sorensen entitula a seção 10 de seu livro. Se há algum nada, então o nada não existe: em vez disso, o nada apenas está lá [is there].

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