A Metafísica das Sombras: Parte IV

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A Metafísica das Sombras

Ausências, buracos, escuridão e outras formas de não-ser

por Lauro Edison



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Vendo Coisas Escuras

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Eu olho pela janela / Eu vejo só escuridão
Eu tô debaixo da terra / Será que é tudo ilusão?
Rogério Skylab, Metrô

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Eis um princípio, enunciado pelo filósofo Thomas Reid já em 1814, que parece uma indisputável verdade científica moderna: “Nós não vemos nenhum objeto, a menos que raios de luz venham dele até os olhos”(238). Em seu Perceiving: A Philosophical Study, de 1957, à página 144, Roderick Chisholm inclui, como condição necessária para que um objeto x seja visto, que “luz transmitida a partir de x estimule um receptor visual de S”, onde ‘S’ é o sujeito que observa a cena. Tão rigoroso. Mas está estritamente errado: insistir que o objeto visto deva refletir luz em nossos olhos, como nota Sorensen, “implica que nós não vemos sombras, corvos e as letras pretas da página”(239) — pois tanto sombras, que são ausências de luz, quanto objetos pretos, que absorvem toda a luz, não refletem luz alguma. Ainda assim, são perfeitamente visíveis. E a razão de serem visíveis é que formam contrastes com seus arredores iluminados: são visíveis justamente porque não refletem luz. Como veremos a seguir, ver a ausência de luz é apenas uma das formas como nós, literalmente, interagimos com ausências.

Ver o escuro quando este é rodeado por luz pode não ser tão estranho. Mas e quando a escuridão é total, não havendo quaisquer contrastes? “Nós somos naturalmente inclinados a negar que nós vemos qualquer coisa na completa escuridão. Para ver, nós precisamos de luz. No escuro, não há luz; portanto, nós não vemos”(238). Mas quem disse que, para ver, precisamos de luz? Segundo Sorensen, nem isso é certo: nós de fato vemos algo no escuro — a própria escuridão!

A coisa que nós vemos, quando vemos no escuro, é o escuro. Escuridão é uma ‘coisa’ intrigante. Graças à investigação óptica de Isaac Newton, sabemos que escuridão é mera ausência de luz. A natureza negativa [privational] da escuridão aprofunda a relutância em dizer que vemos no escuro, pois se nós estamos vendo escuridão total, nós estamos vendo uma ausência. Muitos filósofos dizem que nós vemos um estado de coisas positivo e então inferimos uma ausência. Poucos pensam que nós percebemos ausências diretamente. Mas eu penso que nós percebemos diretamente a escuridão, do mesmo modo que percebemos as sombras diretamente. Sombras são de algum modo menos intrigantes, porque tipicamente há uma combinação de luz e escuro. Mas eu argumento que a escuridão completa é meramente sombra não limitada pela luz.(239)

De fato: ver a total escuridão é diferente de, como um cego, não ver. Mas é importante entender isso com cuidado: as duas experiências subjetivas, a do cego e a da pessoa no escuro, podem bem ser idênticas. Elas são? Às vezes, se acordamos no total escuro, desconfiamos por um momento de que estamos cegos. Como explica Sorensen, “pessoas com visão tendem a conceber a cegueira como uma experiência constante de escuridão”. Surpreendentemente, contudo, “pessoas cegas negam ver escuridão” (On Blindness(1995: 11), de Magee e Millingan, é a fonte citada por Sorensen). Ele então conclui que “cegueira é uma ausência de experiência em vez de uma experiência de ausência. É como a ‘experiência’ que você tem atrás de sua cabeça onde você não possui olhos”(245).

Duas coisas!

Primeira, a última sugestão me atinge ao mesmo tempo como iluminadora e enigmática: por um lado, se cegos não vêem mesmo nada, sequer um borrão preto, essa é de longe a melhor maneira de explicar, para alguém que vê, como é ser cego; no entanto, não é como se entendêssemos bem a sugestão — pois o fato é que, em nosso próprio caso, a ausência de experiência visual que ‘temos’ atrás da cabeça é de certo modo incompreensível: tente apenas entender o estranho fato de que seu campo visual não é de 360 graus e, ainda assim, não tem borda! E, aliás, como você poderia ter a experiência de tal borda, se ela é a fronteira entre a própria experiência e a ausência de experiência?!.[1]

Segunda, e mais importante aqui, ainda que haja cegos sem experiência visual alguma, conforme sugere Sorensen, isso é uma distração para o ponto central sobre perceber ausências: pois certamente há outros cegos cuja experiência é de total escuridão, e nem por isso eles vêem escuridão; ao contrário da pessoa com visão que está no total escuro, e que o escuro, tais cegos também não vêem: embora seu tipo de cegueira não seja uma ausência de experiência visual, pois eles experienciam preto, ainda assim é uma ausência de visão, pois o preto que eles experienciam não tem qualquer relação com o mundo externo nem com ausência de luz no ambiente. Já a pessoa com visão está em posição de ser afetada pela ausência de luz em certo ambiente: ela literalmente a escuridão objetiva do local. E como Sorensen diz:

Quando uma mulher com visão está na completa escuridão, ela experiencia apenas a escuridão à frente de seu rosto. Ela não experiencia escuridão atrás de sua cabeça. Para verificar se está escuro atrás de sua cabeça, ela precisa virá-la e dar uma olhada.(246)

O cego, é claro, não pode fazer o mesmo: sua experiência visual de preto não é um tipo de percepção do ambiente; não é visão.

Mas como podemos, literalmente, perceber ausências? Se seguirmos Sorensen em adotar a teoria causal da percepção, segue-se que as ausências precisam causar a nossa percepção. Como isso é possível? Uma árvore causa a nossa visão dela ao refletir luz em nossos olhos; objetos pretos, silhuetas e sombras causam a nossa visão deles por formarem contrastes com a luz que o resto do ambiente envia a nossos olhos. Mas como puras ausências, como a total escuridão, podem causar nossa percepção, ou causar seja o que for? Talvez apenas possam. Os exemplos de Sorensen são convincentes: “mineiros presos são mortos pela ausência de oxigênio”(13); “o espaço vazio é mortal. Mas não por causa do que ele faz. O espaço vazio é letal por causa do que ele deixa de fazer”, pois ele “deixa de exercer a pressão necessária para evitar que seu sangue ferva”(190). Além disso, “as diferenças entre ausências são objetivas. Membros da Expedição Antártica Nacional Britânica foram mortos em 1912 pelo frio [ausência de calor]. Eles não foram mortos pelo silêncio ou pelo escuro”(274).

Por fim, ele vai longe a ponto de afirmar que buracos são tangíveis, isto é, que podem ser tocados:

Muitos filósofos têm afirmado o princípio de que apenas coisas materiais podem ser tocadas. (…) Mas nós de fato falamos de sentir buracos e rachaduras. (…) Psicólogos comparam quão grande um buraco parece ao toque com quão grande ele parece à vista. Quanto menor o buraco, mais o seu tamanho é superestimado pelo dedo e especialmente pela língua. (…) Uma quantidade surpreendente de psicologia pressupõe que buracos podem ser tocados.(125-6)

Considere um furo em meu bolso. Tal ausência causa a passagem de meu dedo através do revestimento. A sensação de escorregar e atravessar até minha perna constituem a sensação de um furo em meu bolso. Eu posso determinar o diâmetro do furo inserindo mais dedos nele. Meus dedos são preenchedores ativos do furo. Eu não estou sentindo o furo por sentir meus dedos. Eu estou sentindo o furo. (…) Sentir buracos requer uma experiência holística que abrange transições entre o buraco e seu portador.(128)

E aqui também há uma diferença entre nada sentir e não sentir nada (a expressão ideal aqui, ‘sentir nada’ [em inglês: feeling nothing], é agramatical em português [2] — o ponto é, não sentir nada ainda é uma forma de sentir): “o hanseniano com dedos dormentes não pode sentir os botões ou os buracos de botões de sua camisa. Sua incapacidade para sentir os buracos de botões é uma incapacidade para sentir ausências”(129). E como veremos no fim do texto, “a tangibilidade dos buracos sugere um modo (altamente hipotético) de o céu ser tocado”(129).

Vale notar, contudo, que sombras não podem ser tocadas:

Buracos (e rachaduras) tangíveis devem sua tangibilidade à tangibilidade de seus revestimentos. À medida que o revestimento se torna menos tangível, o mesmo ocorre com o buraco. Sombras são buracos na luz e assim não podem derivar tangibilidade de seu portador intangível.(131) (…) no entanto todas as sombras possuem tamanho, forma, localização e orientação. Sombras, portanto, são fortes exemplos de intangíveis que têm propriedades espaciais.(132)

Mas se a total escuridão é “meramente sombra não limitada pela luz”, ela não pode ser tocada. Outra vez: como pode então ser vista? Não é por ter qualquer espécie de contato com nossos olhos! Mas isso é justamente o que nos dá a resposta certa: ela é vista precisamente por não ter contato com nossos olhos. Nossos olhos estão abertos e registrando a cena. A total ausência de input luminoso é, em si mesma, a informação visual registrada. Assim a ausência de luz literalmente causa a nossa visão do escuro, e o faz deixando de impactar nossos olhos. É essa a profunda diferença entre perceber nada e não perceber. Considere o caso da audição: “Como ouvir silêncio é diferente de não ouvir? Ouvir silêncio é a percepção bem sucedida de uma ausência de som. Não é um fracasso em ouvir o som. Uma pessoa surda não pode ouvir o silêncio”(267). De fato. Pense na óbvia diferença entre um gravador registrando silêncio e um gravador desligado que, assim, nada registra.

Por tudo isso, Sorensen me parece estar no caminho certo aqui: ausências de fato têm poderes causais, e assim podemos percebê-las.

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A cor do escuro e a obscuridade das cores

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O preto é a única cor que não tem cor.
Desciclopédia, Preto

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Há uma diferença fundamental entre o escuro e o silêncio: “ouvir o silêncio não envolve uma sensação de silêncio. Enquanto há uma cor da escuridão (preto), não há nenhum som do silêncio”(19). Por um lado, “há uma experiência de cor dedicada à escuridão. Preto pode ser comparado a outras cores. Por exemplo, preto (visualmente) lembra mais o roxo do que o rosa”(270). Por outro, “ouvir o silêncio é a mais negativa das percepções: não há nada positivo sendo detectado e nenhuma sensação positiva que representa essa ausência”(272). Por isso, “o objeto próprio da audição é, em certo sentido, mais complicado de especificar do que o objeto da visão. Há uma cor correspondendo à privação de luz. Mas não há nenhum som correspondendo à privação de som”(276). A diferença ocorre também em outras esferas: a ausência de cheiro não possui nenhum odor associado, mas a ausência de calor possui uma sensação térmica associada — o frio.

O que exatamente está ocorrendo em todos esses casos?

De certo modo, ninguém sabe muito bem: a confusão científica e filosófica reina. Pra começar, as coisas são ainda mais complicadas, pois as afirmações de Sorensen, acima, assumem “a impopular ideia de que preto é uma cor” — palavras do já citado Aranyosi(2008: 515)(cf. pt. I). E mesmo entre os que aceitam que preto é uma cor, a maioria nega que a escuridão — a mera ausência de luz — seja preta: apenas objetos, cuja superfície absorve luz, podem ser pretos. Assim o cientista das cores, Irvin Rock, afirma que “um quarto escuro parece escuro, não preto. Escuridão é a experiência correlacionada com a ausência de luz, mas esse não é o caso do preto. Para a cor preta ser experienciada, certas condições específicas de contraste luminoso precisam ocorrer”(1975: 503). Tal bagunça intelectual, no entanto, vai muito mais longe: o que são cores? O que é som? Explicações diferentes, discrepantes e incoerentes estão por toda a parte na literatura.

Até que ponto é possível dar ordem a esse caos?

Sorensen tenta explicar a situação do preto: “a aversão às coisas negativas está por trás das anomalias da cor preta. Outras cores são vistas em virtude de estimulação luminosa. A própria luz pode ser colorida mas não pode ser preta. Muitos são tentados a negar que preto seja uma cor”(16). De fato, é fácil encontrar na internet afirmações pedantes nesse estilo: “a definição científica [de cor] exclui o preto, a ‘definição’ popular o inclui”[physicsforums]. E  ainda se lê  até pelo menos 2015, quando esse texto foi escrito, ainda se lia na Wikipedia  que “o preto absorve luz e é uma ausência de cor[Web Archive: Wikipedia|Black]. Mas a primeira frase da página também [era]: “preto é a cor do carvão, do ébano e do espaço sideral” (ênfases minhas). Oras, preto é uma cor ou é a ausência de cor?

É chegada a hora de perguntar: o que são cores, exatamente?

Supostamente há uma ‘definição científica’ de cor, e é por ela que vamos começar. Como se lê na Wikipedia, “pode-se definir formalmente uma cor como uma classe de espectros que dão origem à mesma sensação de cor”[Color], onde ‘espectros’ se refere aos diversos comprimentos de onda da luz. Nesse caso, cores são comprimentos de ondas de luz. Isso certamente espelha a análoga definição científica de som: “som é uma vibração, tipicamente audível, que se propaga como uma onda mecânica de pressão e de deslocamento, através de um meio como ar ou água”[Wikipedia: Sound].

Você pode encontrar essa espécie de ‘explicação oficial das cores’ em fontes tão autoritativas quanto o site da NASA. Lá você pode aprender que “cada cor é um diferente comprimento de onda. Violeta possui o mais curto comprimento de onda [visível], em torno de 380 nanômetros, e vermelho possui o mais longo, em torno de 700”. Além disso, “o experimento de Isaac Newton em 1665 mostrou que um prisma inclina a luz visível e que cada cor é refratada em um ângulo ligeiramente diferente, dependendo do comprimento de onda da cor”[MissionScience]. Nas imagens que acompanham o texto linkado, você pode ver as cores sendo separadas pelo prisma e os diferentes comprimentos de onda das cores:

Antes de mais nada, um esclarecimento: se você está confuso sobre a relação entre os raios da esquerda e as ondas da direita, a ideia básica é que os raios são as próprias ondas ‘vistas de longe’ — assim como a pele lisa, vista no microscópio, é um conjunto de células. Vale dizer, também, que nesse enquadramento há cores que não vemos: se o comprimento de onda é mais longo que o vermelho, temos luz infravermelha; se é mais curto que o violeta, temos luz ultravioleta. Ambas são invisíveis para olhos humanos. Mas algumas das primeiras são visíveis para certos peixes; e algumas das últimas são visíveis para muitos pássaros e insetos.

Agora note que não existe raio ou onda de luz preta: o ‘preto’ é justamente a ausência de raios ou ondas de luz. Nenhuma cor é preta — essa é a ideia fundamental. Ass.: Ciência. Assim como o silêncio, que é a ausência de ondas no ar, não é um som, também o preto, que é a ausência de ondas de luz (isto é, de cores), não é uma cor.

Ponto final? Como não? Afinal, seria de esperar que a explicação científica da NASA fosse confiável… Certo? Errado. Se você achar que um conselho meu vale algo, confie bem menos em educadores e cientistas, e bem mais em filósofos: só estes últimos estão devidamente atentos aos detalhes de cada teoria; os primeiros, ao contrário, facilmente ficam deslumbrados com a suposta ‘força empírica’ de explicações superficiais. Essa ‘teoria científica da cor’ é de fato um caso paradigmático de tal tendência. Como Sorensen nota, ‘preto’ é uma palavra para cor que é não só universal, mas prioritária em todas as culturas humanas. Se a cultura menciona apenas duas cores, estas são preto e branco. Se menciona três, a cor adicionada é sempre o vermelho, “e então vem o verde e o azul” (Basic Color Terms(1991), de Berlin e Kay, é a fonte citada). Isso “torna especialmente surpreendente ouvir que, já que apenas a luz é colorida, nada é preto, mesmo que algumas coisas sejam vermelhas, verdes e azuis”(212). O filósofo das cores C. L. Hardin coloca o ponto dessa maneira:

Perceptualmente, é tão absurdo dizer que preto é a ausência de cor quanto é dizer que branco é a presença de todas as cores. Quando pessoas falam desse modo, é porque sua fala foi contaminada pelos professores de ciência que lhes disseram que cores são certos comprimentos de onda da luz e que luz branca é aquela luz que tem como seus constituintes todos os comprimentos de onda. Para a percepção e o discurso comum, o casaco de Joseph pode ter tido muitas cores, mas a cor do vestido da noiva é apenas uma cor, branco. E seu vestido de cocktail não é incolor, mas preto.(1988: 25)

Mas então as cores não são (comprimentos de) ondas de luz? Há quem defenda que o significado da palavra ‘cor’ é ambíguo. O químico Kurt Nassau distingue três sentidos da palavra: cor como i) propriedade da superfície de objetos (‘grama verde’); ii) propriedade dos raios de luz (‘luz verde’); e iii) sensação visual (‘percepção do verde’). E então nos diz que ‘preto’ possui “um significado exato” no primeiro sentido, a saber, refletividade zero; que “não possui nenhum significado” no segundo sentido (não há luz preta); e significa “total ausência de sensação” no terceiro sentido. Total ausência? É o tipo de coisa que eu espero de um cientista que não é filósofo. Logo após citá-lo(201), Sorensen observa criticamente que “se preto é a ausência de sensação de cor, então não há nenhuma cor preta no sentido perceptual”(202), o que é obviamente falso. De fato, já em 1680 o filósofo John Locke entendia que “a ideia do Preto não é menos positiva para a Mente que a ideia do Branco, embora a causa dessa Cor no Objeto externo possa ser apenas uma ausência…”(5).

Seja como for, Nassau está farejando algo concreto com sua distinção tripla: existe um tipo de esquizofrenia semântica no meio científico que, sem muita consciência do fato, trata as cores dos três modos. O exato mesmo padrão ocorre com os sons. Ao falar sobre o silêncio, Sorensen nota que a palavra “ecoa as obscuridades semânticas de ‘som’. O som é a vibração de um objeto? Ou consiste nas ondas produzidas pelo objeto? Ou é a sensação auditiva produzida por aquelas ondas?”(288).

No artigo What is Sound?, de 1999, o filósofo Robert Pasnau chega a ponto de abrir o texto afirmando que “nossa visão standard sobre o som é incoerente”(309), e continua, mencionando duas das três concepções:

Por um lado nós supomos que som é uma qualidade não do objeto que produz o som, mas do meio circundante (…). Por outro lado, nós supomos que som é o objeto da audição [aquilo que se escuta] (…). No entanto essas duas suposições não podem ambas estar corretas — a menos que desejemos admitir que a audição é ilusória e que nós não ouvimos os objetos que produzem os sons.(309)

A razão para isso logo ficará clara. Quanto à terceira concepção, Pasnau a menciona logo em seguida, apenas para rejeitá-la: “parto do princípio de que sons e outras qualidades sensíveis são características do mundo externo, não características intrínsecas de nossas experiências sensoriais”(309). Assim, sons e cores confundem os especialistas do mesmo modo: estão no objeto, no caminho entre o objeto e o observador, ou no próprio observador?

Considere uma maçã vermelha:

A princípio, a cor parece estar onde é vista: na própria superfície da maçã. Se, porém, levarmos a sério a terminologia da óptica, a cor se encontra literalmente na luz vermelha — a luz cujo comprimento de onda é de aproximadamente 700 nanômetros. Por fim, pode ser que o mundo externo seja inteiramente incolor e as cores estejam na mente do observador. O caso do som é totalmente análogo: considere uma ambulância sirenante que se distancia. A princípio, o som parece estar exatamente onde é ouvido: na região da ambulância e soando cada vez mais longe conforme ela se distancia. Mas se levarmos certo discurso científico a sério, do tipo que embasa a citada definição da Wikipedia, o som é uma vibração do ar que vem em direção ao observador — e assim está sempre se aproximando, mesmo quando é percebido cada vez mais longe. Por fim, a própria Wikipedia menciona, de forma tipicamente confusa, algo como a terceira concepção: “em fisiologia e psicologia, som é a recepção de tais ondas e sua percepção pelo cérebro”[Sound]. Qual a verdade aqui? Vale detalhar um pouco mais a ampla discordância e incoerência que a questão desperta.

A confusão já existia em Aristóteles. Pasnau(1999: 310) nos diz que ele “identificava o som como o objeto próprio da audição: ‘visão tem cor, audição som, e paladar sabor’” o que, para o meu gosto, é ambíguo entre considerar que o som está onde o objeto está (teoria de tipo 1) ou na mente (3); seja como for, Aristóteles também afirma a teoria de tipo 2: ‘som é um certo movimento do ar’. Galileu inicialmente concordava com isso, dizendo que ‘sons nos vem indiferentemente de baixo, de cima e de todos os lados’ e depois mudou de ideia, afirmando que tais qualidades ‘não possuem qualquer existência real a não ser em nós’. Para Descartes, ‘a maioria dos filósofos mantém que o som não é nada senão uma certa vibração do ar que atinge nossos ouvidos’, o que é a visão standard. Mas então Pasnau argumenta:

Sons que foram causados à distância parecem estar à distância; eles não parecem estar vindo até você, a menos que aquilo que gera o som esteja de fato vindo até você. Segundo a visão standard, ao contrário, os sons vêm de um objeto, através do ar, até nossos ouvidos. Onde o som está — vindo até nós, passando por nós, em torno de nós — não é onde nós o percebemos estar. Certamente é melhor conceder que a visão standard está errada do que admitir que nossos ouvidos são constantemente enganados.(1999: 311)

Tais impasses não foram resolvidos na era moderna. Longe disso:

Confusões desse tipo aparecem constantemente nas explicações científicas do som. Entre físicos, o som é concebido com análogo à luz, como uma onda que passa através de um meio. John Tyndall, em seu trabalho clássico sobre a física do som, ocasionalmente localiza o som dentro do cérebro, e ocasionalmente dentro do objeto que produz o som. Mas mais frequentemente Tyndall fala de sons como propagados através de um meio. Thomas Rossing começa um recente livro didático observando que ‘a palavra som é usada para descrever duas coisas diferentes: (1) uma sensação auditiva no ouvido; (2) a perturbação em um meio, a qual pode causar essa sensação’. Psicólogos frequentemente adotam a mesma visão. Stephen Handel escreve que ‘a vibração do corpo sonante leva à propagação do som’. Brian Moore distingue entre ‘sons que entram pelo ouvido e as sensações que eles produzem’. O corpo vibrante que produz o som é sempre descrito como a mera fonte e origem do som. O som em si é suposto estar em outro lugar.(1999: 318)

O próprio Pasnau, contudo, acabou contribuindo para o caos. Para ele, sons são “como as cores”: estão no objeto e não no meio. São vibrações do objeto. Assim, não é bem que os objetos fazem ruídos ou sons: do mesmo modo que os objetos têm cores, eles têm sons. Uma consequência chocante dessa tese é que “assim como nós somos inclinados a dizer que objetos mantém suas cores no escuro, nós deveríamos dizer que objetos produzem sons no vácuo”(1999: 322). “As condições apenas são ruins para ouvir o som”, explica Sorensen(281) — quem, por sua vez, insiste com a tradição em identificar sons com ondas acústicas(284). Vendo a discordância de ambos, o já mencionado O’Callaghan(cf. pt. I) prefere dizer que sons são “eventos no qual objetos ou corpos interagindo perturbam, ou põem em movimento, um meio circundante”(2011: 189) (ênfase minha), o que me parece uma forma surreal de misturar as duas concepções. Qualquer um pode ser desculpado por perder a esperança de entendimento quando lê, nas primeiras páginas do verbete Sons da SEP, a chuva de questões e teorias disponíveis:

Sons são o conteúdo da percepção auditiva. Mas o que eles são? Os sons são particulares [individuals]? Eventos? Propriedades de objetos sonantes? Se eles são eventos, que tipo de eventos eles são? Qual a relação entre sons e objetos sonantes? (…) Onde estão os sons? Eles estão em algum lugar? (…) [estão] onde quem ouve está (…) no meio entre o objeto ressonante e aquele que ouve (…) no objeto ressonante (…) [ou em lugar nenhum][?](Casati & Dokic 2010: 1-2)

E como você pode adivinhar, confusões análogas ocorrem na literatura sobre cores. Embora o site da NASA repetisse a conhecida história de que Newton mostrou que as cores são refratadas pelo prisma, o próprio Newton nunca viu a situação desse modo: “de fato raios [de luz], propriamente caracterizados, não são coloridos. Neles não há nada mais que um certo Poder ou Disposição para provocar uma Sensação desta ou daquela Cor”(1704: 124). Sorensen cita essa observação’(166) e comenta que muitos dos seguidores de Newton a subestimaram. E como! Uma vez que a situação é bem compreendida, como se pode sequer levar a sério a tese mágica que de que meras ondas de luz têm cor? Teríamos que concordar com o Capitão Óbvio, citado na Desciclopédia inglesa, para quem “a cor é um truque da luz, ou algo assim!”[Colour]. E embora Sorensen talvez não concorde com isso (não fica claro), tudo indica que podemos excluir a teoria 2: as cores não estão na luz.[3] E eu, agora certamente contra Sorensen, além de contra outros, digo o mesmo sobre os sons: não estão no ar; mera vibração não tem meios de ser sonora.

Restariam assim duas opções: cores e sons estão nos objetos, que é onde parecem estar, ou estão na mente do observador. A última opção, como vimos, é descartada por Pasnau — e também por O’Callaghan e Westphal, entre tantos outros. E quanto a Sorensen? Apesar de pensar que sons são ondas acústicas, sua posição sobre cores é eclética. Desde o início de Seeing Dark Things ele fala como se cores fossem propriedades objetivas das coisas: diz que silhuetas “parecem pretas e são pretas” e que “a verdadeira cor [da silhueta da Lua no eclipse] é preta e iria ser vista deste modo por um observador acima da atmosfera”(29) (ênfases minhas). Também diz que “à noite, o ambiente oferece muito pouca luz para que nós vejamos as cores dos objetos. Os objetos ainda são coloridos à noite”(234). Mas ele também reconhece a existência de “experiências visuais que são independentes da visão. Cores podem ser experienciadas ao se pressionar seus globos oculares, inalar alucinógenos ou receber um golpe na cabeça”(250). Tais cores, é claro, não podem ter nada a ver com a luz ou com objetos materiais externos. Como ele também parece aceitar que a própria luz pode ser colorida (cf. nota 3), tudo se passa como se ele aceitasse as três teorias ao mesmo tempo.

Seja como for, o filósofo David Hume disse em 1738 — em torno de um século depois de Descartes — que “sons, cores, calor e frio, de acordo com a moderna filosofia, não são qualidades nos objetos, mas percepções na mente”. Tal comentário aparece na entrada Cor(2012: 3), da SEP, escrita pelo filósofo das cores Barry Maund, quem continua nos informando que “físicos que concordam com essa doutrina incluem os luminares: Galileu, Boyle, Descartes, Newton, Young, Maxwell e Helmholtz. Maxwell, por exemplo, escreve: ‘Parece quase uma banalidade dizer que cor é uma sensação; e no entanto Young, por honestamente reconhecer essa verdade elementar, estabeleceu a primeira teoria consistente da cor’(1890)(2012: 3). Ele então menciona o cientista cognitivo S. K. Palmer:

Pessoas acreditam universalmente que objetos parecem coloridos porque eles são coloridos, exatamente como nós os percebemos. O céu parece azul porque é azul, grama parece verde porque é verde, e sangue parece vermelho porque é vermelho. Por mais surpreendente que possa parecer, essas crenças estão fundamentalmente erradas. Nem objetos nem a luz são realmente ‘coloridos’ em nada parecido com a maneira como nós os experienciamos. Em vez disso, cor é uma propriedade psicológica de nossas experiências visuais quando nós olhamos para objetos e luzes, não uma propriedade física dos objetos ou luzes. As cores que vemos são baseadas em propriedades físicas dos objetos e luzes que nos causam vê-los como coloridos, certamente, mas essas propriedades físicas são diferentes em aspectos importantes das cores que percebemos.(1999)

Outros continuam discordando. O restante da entrada da SEP, como é normal, segue detalhando toda a complexidade do debate, identificando “cinco principais teorias rivais”(2012: 9), entre teorias realistas (as cores existem nos objetos) e subjetivistas (as cores estão na mente).

Minha própria opinião, praticamente uma certeza, é que Hume, Maund e Palmer estão certos: as cores estão na mente. Preto é uma cor exatamente no mesmo sentido em que azul e amarelo o são: é literalmente uma espécie de ‘tinta mental’ ou ‘pigmento virtual’ que existe dentro da consciência. E o que é considerado preto, portanto, é apenas aquilo que é pintado de preto pela mente: corvos, sombras plenas, o céu noturno, a escuridão, vestidos de cocktail, as letras da página, etc.

Em si mesma, a realidade não-mental é totalmente incolor. O que vemos, ao abrir os olhos, é uma interface visual subjetiva, um tipo de ‘Windows mental’ no qual o impacto bruto dos fótons é traduzido em imagens e cores (e isso só após tal impacto ser convertido em sinais neuroquímicos igualmente incolores!). É claro que isso parece um milagre: cores, em si mesmas, simplesmente não são algum conjunto de partículas, alguma ondulação luminosa ou alguma propriedade da superfície de objetos; em suma, não são nada de material, nada que exista estendido no espaço físico. Então são o quê? Não se sabe. E o mesmo vale para os sons. E também para os odores e o frio, as emoções e a dor, enfim, para tudo o mais que se passa na consciência subjetiva — sensações que, em filosofia da mente, se chamam de qualia. É um absoluto enigma, de fato o maior da ciência e da filosofia, como o cérebro físico é capaz de gerar tal esfera virtual, qualitativa… e imaterial. Mas o cérebro o faz. É um fato dado, imediato, para qualquer pessoa consciente. Esse é o famoso mistério da consciência. O fato, contudo, é tão inexplicável e surreal que pensadores de índole materialista ou cientificista resistem ferozmente a aceitá-lo. Não é surpresa, por exemplo, quando Sorensen nos informa que “o fisicalista J. J. C. Smart nega que pós-imagens possuem cor”(216) — onde ‘pós-imagem’ é aquela imagem fantasmagórica que você continua vendo após parar de olhar, talvez fixamente, para algo brilhante…

Considere o caso da pós-imagem vista por uma atriz, causada pelo flash de uma câmera. Se a atriz vê a pós-imagem, então ela deve estar vendo mais que objetos físicos. Para evitar essa proliferação de objetos visuais, alguns filósofos negam que a atriz está vendo a pós-imagem.(71)

Agora você pode decidir por si mesmo se vê ou não uma pós-imagem e, caso a veja, se ela tem ou não alguma cor. Apenas fixe o olhar por 30 segundos no x do disco à esquerda e então olhe imediatamente para o x da direita. Em menos de cinco segundos você encontrará sua resposta.

Minha experiência, ao menos, é inequívoca: após um ou dois segundos começa a surgir um círculo (um tanto difuso) gritantemente verde no lado direito. E é claro que esse círculo — e esse verde — não existem nem fora da minha cabeça e nem mesmo fisicamente dentro: não é como se um neurocientista, ao abrir meu cérebro na hora certa, pudesse encontrar esse objeto. E no entanto o objeto existe; do contrário, eu não o veria. Onde ele existe? Nesse bizarro “espaço virtual” que é a consciência subjetiva em primeira pessoa. De fato, o que estou afirmando é que todas as cores (e sons, dores, sensações) existem exatamente desse mesmo modo. Eu adoraria agora tentar tornar esse impressionante fato inegável, mas o lugar de fazê-lo será num texto sobre o mistério da consciência, não aqui.

O que sim importa aqui é a conclusão: picuinhas e confusões científicas à parte, há um sentido muito natural — baseado na realidade dos qualia mentais — no qual preto é uma cor, a escuridão é preta, o som é mental e a ausência de som pode ser tão ouvida quanto o som [4]. Se é tão comum vermos especialistas negando esses fatos, é provavelmente porque tais fatos ajudam a tornar evidente aquilo que a prevalecente ideologia materialista considera intragável: que o cérebro, de algum modo, gera uma bolha virtual patentemente imaterial — a consciência. Como resumiu o filósofo John Searle, “se tivéssemos de descrever a mais profunda motivação do materialismo, poderíamos dizer que é simplesmente um horror à consciência”(1992: 82). Materialistas dirão que aceitar um fato tão estranho é anticientífico. Mas a única coisa anticientífica, em tudo isso, é a típica atitude ideológica de negar fatos — ainda mais quando se trata do fato mais óbvio que há.

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Continua na Parte V
(em breve)

 

Referências

Aranyosi, I. 2008: Review of Roy Sorensen, Seeing Dark Things: The Philosophy of Shadows, Australasian Journal of Philosophy 86 (3): 513-515.

Casati, R. & Dokic, J. 2014: ‘Sounds’, The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Fall 2014), Zalta (ed.)

Hardin, C. L. 1988: Color for Philosophers. Hackett.

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Sorensen, R. 2008: Seeing Dark Things: The Philosophy of Shadows, Oxford: Oxford University Press

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Capa

Recorte de Prisma [fonte original desconhecida]

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Notas

[1] Note que seu campo de visão é literalmente a sua experiência visual — para que sua experiência incluísse uma borda (como a borda dessa página), precisaria paradoxalmente incluir a ausência de experiência ao lado da experiência. Isso, é claro, faria da ‘ausência de experiência’ uma parte da própria experiência. Agora esse tipo de paradoxo não é exclusivo da experiência subjetiva: o exato mesmo problema ocorre se você tenta conceber um Espaço finito — como pode não haver espaço após a borda que encerra o Espaço? Mas se houver espaço, a ‘borda’ não é borda nenhuma. Meu palpite é que bordas sem transbordadores não apenas são possíveis como, de fato, concebíveis: nosso campo visual é exatamente um exemplo desse tipo de situação; um espaço finito seria, metafisicamente, como o nosso campo visual — fazendo fronteira com o nada.

[2] O linguista Sírio Possenti explicou a situação de forma breve e definitiva no esclarecedor artigo Dupla Negação da revista Ciência Hoje: http://www.cienciahoje.org.br/noticia/v/ler/id/3104/n/dupla_negacao.

[3] Não fica clara a posição de Sorensen pois, como vimos, ele fala como se as cores dos filtows estivessem na própria luz (168), mas também afirma que “se a luz é o portador da cor, então sombras não podem ser pretas” (212) e pensa que sombras de fato são pretas — implicando, pois, que a luz não é o portador da cor.

[4] Não que o silêncio, como o preto, seja um quale, isto é, uma sensação positiva. Em vez disso, o silêncio é uma ausência de quale sonoro. Mas é exatamente por existir uma esfera mental auditiva ativamente registrando o ambiente, e por isso registrando a ausência de som, que se pode falar em “ouvir o silêncio”.

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