A Metafísica das Sombras: Parte I

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A Metafísica das Sombras

Ausências, buracos, escuridão e outras formas de não-ser

por Lauro Edison



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O título com sabor ocultista é inevitável. Sim, pode parecer que estou prestes a falar do caráter místico do Reino da Umbra, ou algo assim, como se levasse a sério a cosmogonia sobrenatural do RPG Mago: A Ascensão (cujo suplemento se chama, de fato, “O Livro das Sombras”). Mas a verdade é que, em sentido filosófico, o título é estritamente adequado ao que será feito aqui: discutir o que sombras exatamente são e, assim, se existem ou não existem. Isso é metafísica. No caso, metafísica das sombras. E como as sombras têm qualquer coisa a ver com a luz, com suas ausências e buracos (sim, buracos na luz!), é inevitável que o caminho nos leve também à metafísica das ausências, buracos, silhuetas, cores e além, ao que de fato parece ser a região mais remota e profunda da filosofia: a metafísica do não-ser — de certo modo, o marco zero onde tudo começa. Sua mente vai cair do cérebro algumas vezes!

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E a metafísica, como você já deve saber (ou como pode adivinhar), tem muitos inimigos: empiristas, positivistas, cientificistas, que a desprezam como se fosse um inútil ‘estudo do sexo dos anjos’. Sendo um racionalista convicto, rejeito essa atitude negativa. E creio que a cura para a ideologia antimetafísica — e de fato antifilosófica — é simplesmente ser exposto à boa metafísica. O livro sobre sombras do filósofo Roy Sorensen, no qual esse texto amplamente se baseia, é um perfeito ponto de partida para isso: passeando pela fronteira entre o real e o inexistente, é uma das melhores obras da metafísica contemporânea. Siga o coelho branc

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Com sua belíssima capa (arte: New Moon Eclipsed de Rob Gonsalves), Seeing Dark Things: The Philosophy of Shadows (“Vendo Coisas Escuras: A Filosofia das Sombras”, sem tradução para o português), de 2008, menciona uma quantidade de filósofos. Dentre eles, está o especialista em cores Jonathan Westphal que, numa resenha-resposta posterior, resumiu a sensação de ler o livro: “o estudo da metafísica das sombras conduzido pelo prof. Roy Sorensen é encantador, espirituoso e tudo menos obscuro. Eu tenho inveja de ele o ter escrito; mas eu começo a me sentir um pouco melhor, acho, quando contemplo as doutrinas positivas do livro.”(2011: 187) Pois as doutrinas são, digamos, ‘incríveis’: nos dois sentidos da palavra! Sobre uma delas Westphal acrescenta que, “como muitas pessoas”, ficou chocado com a conclusão de Sorensen, a considerando “agradável e provocativamente esclarecedora” sem, contudo, ser capaz de concordar com ela. Se você é como eu, é como irá se sentir também.

Como num bom filme de aventura, comecemos já em plena ação.

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O Enigma do Eclipse.

Near-FarX

Não posso explicar melhor que o próprio Sorensen:

Eu estou vendo um eclipse duplo do Sol (o qual me parece exatamente como na parte direita da imagem acima). Viajando para o leste está o corpo celeste Longe. Viajando para o oeste e mais próximo de mim está o corpo menor Perto. Perto está próximo o suficiente para exatamente compensar o seu tamanho menor em relação à formação da sombra. Perto e Longe parecem do mesmo tamanho do meu ponto de vista. Quando Perto cai exatamente sob a sombra de Longe, é como se um desses corpos celestes desaparecesse. Eu vejo Perto ou Longe?”(20) [1]

A princípio, pareceria que estou vendo Perto: é o corpo celeste que está diante de mim, afinal. Como diz o autor, “o senso comum responde que eu vejo Perto: ele é um corpo opaco que bloqueia completamente minha visão de Longe. Dado que eu vejo algo, é Perto que eu vejo”(20). Mas como posso vê-lo, se ele está completamente oculto sob a sombra de Longe? Westphal resume o dilema: “nós não podemos dizer que vemos Longe, porque Perto está na frente, e nós não podemos dizer que vemos Perto, porque Perto não faz nada para afetar a luz que atinge nossos olhos”(2011: 188). E outra vez Sorensen: “Perto está totalmente dentro da sombra projetada por Longe. Um objeto que está completamente envolto em uma sombra perfeitamente escura não pode ser visto”(22). Então vejo o quê?

Num eclipse solar normal, vejo a Lua em virtude de ela bloquear a luz do Sol. De fato, qualquer objeto pode ser visto dessa forma na contraluz: não em virtude de refletir luz em nossos olhos, como é normal, mas em virtude de bloqueá-la. Nesse caso dizemos estar vendo a silhueta do objeto.

silhouettes

Agnisoonu K 2009 / Rick Craig 2013 / Gavin Macrae 2012 .


Num eclipse solar normal, pois, vemos a silhueta da Lua. O problema aqui é que Perto não está bloqueando luz alguma: “como Longe está impedindo qualquer luz de atingir Perto, Perto não está projetando uma sombra. Perto é causalmente ocioso e portanto invisível”(22). Quem está realmente bloqueando a luz, você pode ver, é Longe. É ele que faz o papel da Lua em eclipses normais. Por essa razão, Sorensen conclui que o disco preto que o observador vê é, de fato, Longe! Ou, o que dá no mesmo, a silhueta de Longe. Como ele admite, isso parece atribuir “um tipo de visão de raio X” ao sujeito. “Mas a imagem da silhueta [de Longe] não precisa viajar através de Perto para atingir o observador”. A escuridão existente entre Longe e o observador não precisa viajar: sendo mera ausência de luz, “ela está ali automaticamente [by default]”(28). Assim foi que, já à página 28 do livro, fui convencido — por um momento, ao menos — de algo que parecia impossível: posso ver um objeto que está completamente atrás de outro, sem transparência!

Nesse ponto, duas coisas precisam ser imediatamente ditas.

Primeira, você acaba de ter o primeiro indício do que significa raciocinar sobre ausências: a lógica, por assim dizer, fica do avesso. Assim, quando se trata da contraluz bloqueada, “os princípios de oclusão são revertidos”(25). Quando tentamos pensar em ‘coisas negativas’, como sombras ou buracos, é inevitável que entre em ação o nosso aparato cognitivo para pensar em coisas positivas, como pedras. Somos frequentemente vitimados por um tipo de ‘vertigem do espelho’, como quando tentamos basear nossa ação num reflexo e, instintivamente incapazes de corrigir as relações de distância, esticamos a mão para pegar algo que na verdade está mais próximo de nós; concluímos ‘longe’ quando é ‘perto’, ‘frente’ quando é ‘trás’. Em outras ocasiões concluímos ‘movimento’ quando é ‘parado’ (se o ônibus ao lado começa a sair), ‘claro’ quando é ‘escuro’ (fotos negativas), ‘material’ quando é ‘vazio’ (buracos) — acertar o passo está longe de ser impossível, mas no começo pode ser desnorteante como dirigir de ré (onde se troca a esquerda pela direita). E se a reversão é de tipo intelectual, filosofia é a solução.

Segunda, e de esperar, há explicações alternativas. Ele próprio já nos informa que “Goldman está comprometido a dizer que eu não vejo nem Perto e nem Longe”(24). Pois na teoria da percepção do filósofo Alvin Goldman é necessário não apenas que a percepção seja produzida por algum mecanismo físico através do qual o objeto visto transfira energia ao observador; também é preciso que certa hipótese alternativa esteja correta: que se o objeto não estivesse lá, a cena teria sido diferente. Ou seja, que é mesmo a presença do objeto que é responsável pela cena percebida. Assim, segundo essa teoria, nós não vemos Perto, que sequer afeta a luz, mas tampouco vemos Longe: pois se Longe não estivesse ali, a cena ainda seria a mesma! (Veríamos então a silhueta — indistinguível — de Perto.) Uma segunda explicação abraça a estranha ideia de que nós vemos ambos os corpos celestes, ou “um objeto composto cujas partes são Perto e Longe”(59). Essa visão tem defensores? Tem ao menos um simpatizante. O filósofo István Aranyosi, comentando o livro, diz que “uma boa defesa pode ser feita para a hipótese de que nós vemos ambos”. Ele engenhosamente explica:

Considere fazer grandes perfurações em ambas as luas até que se tornem anéis, de modo que a silhueta que vemos é um anel, e de tal forma que é verdade que ainda teríamos a mesma experiência, fosse qualquer uma das luas destruída enquanto mantendo a outra em seu lugar. ¿Não é intuitivo pensar que o anel-Perto tem de satisfazer certas condições altamente precisas com respeito à sua forma, localização e dimensões para que nós de fato vejamos um anel escuro de um determinado local e certas dimensões? Mesmo se anel-Perto é coberto pela sombra do anel-Longe, podemos tomar a ociosidade de anel-Perto, isto é, o seu não interferir com a luz que não é refletida ou absorvida por anel-Longe, como algo absolutamente importante para podermos ver a silhueta exatamente como nós a vemos.(2008: 513)

Ou seja, anel-Perto certamente tem influência na cena que vemos: se ele não fosse precisamente como é, a cena vista poderia ser outra. É por isso que sabemos não estar vendo Atrás (um terceiro corpo celeste posicionado atrás do observador): ele poderia mudar à vontade de formato que, ao contrário de anel-Perto, não teria influência nenhuma no que estamos vendo. Se aceitarmos que essa espécie de influência é um tipo de causa do que vemos, então de fato os dois corpos celestes contribuem para a cena e, assim (ao menos pela teoria causal da percepção, que Sorensen abraça), vemos ambos. Interessante. Contudo, no fim Aranyosi concorda que apenas Longe é visto. Resta ainda outra opção, mas esta já foi mencionada: a tese de senso comum de que vemos apenas Perto. Não vi nenhum filósofo defendê-la, e nem penso que esteja correta. Mas, como veremos depois, penso que a razão de ela parecer óbvia é crucial para entendermos o que está acontecendo. Enquanto isso, eu adoraria poder dizer que a tese de Sorensen — de que vemos apenas Longe — sai vencedora aqui. Se a vida fosse tão simples…

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Silhuetas


Acontece que eu só contei metade da história. Segundo Sorensen, não é apenas que nós vemos Longe, em vez de Perto: nós vemos a parte de trás de Longe! Uma vez que o disco preto que vemos é a silhueta de Longe e que “a silhueta de um objeto opaco é a superfície do objeto que bloqueia a luz”(26), segue-se que nós vemos literalmente a superfície mais distante de Longe, a superfície iluminada, pois é ela que impede a luz de nos atingir. Isso vale para todos os objetos. Uma ilustração do livro.(28) explica a situação completa:

shadows3

A ideia é que essa é uma torre de tijolos maciça (não oca). A silhueta, ele explica, não pode ser o menor lado da torre de tijolos, que é causalmente ocioso; crucialmente, também não pode ser a sombra, pois embora a escuridão (isto é, a ausência de luz) comece com a camada que absorve luz (a superfície refletora), a sombra só começa a partir da camada menor (na sombra incorporada), “pois apenas nesse ponto nós atingimos um meio apropriado para uma sombra (no caso, ar)”(28). De fato, pois “uma sombra não pode existir [estando] inteiramente dentro de um objeto opaco, sólido”(66). Como a observadora vê algo, e como esse algo não pode ser nem a parede menor e nem a sombra, resta que ela vê a parede maior — ou seja, ela vê a silhueta. Vale repetir: “no caso de objetos opacos, a silhueta é a superfície do objeto que torna o objeto visível em virtude da luz que ela bloqueia. Portanto, ver a silhueta de um objeto é ver parte dele”(44). E ver parte do objeto já é ver o próprio objeto, exatamente como ocorre na visão normal. Eis como Sorensen resume o argumento de que vemos a parte de trás dos objetos silhuetados:

Quando eu vejo a silhueta de um objeto, eu vejo o objeto.
Eu vejo um objeto apenas se eu vejo parte dele.
Essa parte precisa causar minha percepção da maneira certa.
No caso de objetos silhuetados opacos, a única parte que pode
exercer esse papel causal é a camada que absorve a luz.

Portanto, quando eu vejo um objeto silhuetado,
eu vejo sua superfície traseira..(50-1)

Um poema!

Você pode até mesmo voltar nas três silhuetas anteriores e se deleitar com a descoberta de que aquelas fotos exibem a parte de trás do passarinho, da igreja e do alce. E quem pensaria que, na foto abaixo, a tartaruga marinha e a criança aparecem ambas de frente pra você:

tartaruga

Carole Albertson 2014: Who’s looking at Who?


É aqui que eu me sinto como Westphal: chocado e fascinado com a conclusão de Sorensen, mas incapaz de concordar. Sem dúvida, como o autor confessa, “essa tese parece como parapsicologia”. Na foto acima, por exemplo, não consigo acreditar que estou vendo a parte da criança que bloqueia a luz, isto é, a frente dela (que olha para a tartaruga). Certamente estou vendo a parte dianteira da tartaruga e as costas da criança. Sorensen é algum excêntrico? Bem ao contrário. Suas premissas, como ele diz, “são extraídas da ortodoxia reinante” — a teoria causal da percepção — pelo que ele é “um conservador, em vez de um radical”(25). Pois bem… o que me parece é que ele conseguiu, brilhante e inadvertidamente!, reduzir ao absurdo essa parte da ‘ortodoxia reinante’. A teoria causal da percepção deve estar errada.

Pois a situação é pior do que parece: a primeira coisa que me ocorreu, quando caí pra trás com a tese da silhueta, foi que ela implicava a possibilidade de vermos as superfícies dianteira e traseira dos objetos ao mesmo tempo, bastando para isso que algum trecho da parte dianteira fosse iluminado:

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Namelas Frade 2009: Heidelberger Sonnenuntergangsmaschinen


É isso mesmo? A foto exibe as costas e a frente do prédio?!
[2]

Uma vez que se percebe esse problema, aquela convincente explicação sobre o eclipse duplo também começa a parecer surreal. Pois o que aconteceria se Perto, que está imerso na escuridão total, fosse civilizado e possuísse uma cidade luminosa o suficiente — digamos, ‘Pertinópolis’ — posicionada de frente para o observador?

Near-Far3


A seguirmos Sorensen, estaríamos vendo Pertinópolis sobre a superfície distante (e pior, côncava) de Longe! Estaríamos vendo, literalmente no mesmo lugar, dois objetos separados por centenas de milhares de quilômetros. Outro problema relacionado é que certas silhuetas são parciais, de modo que supostamente se vê o corpo ‘desmontado’, parte frente e parte atrás. Pra piorar, a transição é gradual:

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Aziz 2011: Rosslyn Metro


Infelizmente, Sorensen não aborda seja o problema da luz na silhueta, seja o problema das silhuetas parciais. Como preciso seguir adiante, vou apenas dizer que — surpreendentemente — até vejo uma boa razão para manter a mente aberta aqui: realmente, como se vê abaixo, há casos em que parecemos ver os dois lados de um objeto, e mesmo vários objetos sobrepostos. Transparência. Não é isso o que ocorre com os balões e, mais obviamente, com as taças da imagem? É o que penso. São casos muito diferentes do das silhuetas, é verdade, mas pode ser que, bem entendidas as coisas, não haja nada absurdo nos casos anteriores.

transparences

Debs1968 2001: Back-lit Balloons / Jiunn Kang Too 2009: Trophy


Outra espécie de crítica, contudo, vem de Westphal: “uma silhueta é a sombra em frente ao objeto, não a superfície atrás do objeto”(2011: 192). Ele inclusive menciona o Oxford English Dictionary (OED), onde ‘silhueta’ é “um objeto visto como um contorno escuro contra um fundo luminoso; uma sombra escura de algo”. Isso me atinge como estando no caminho certo. Mesmo na teoria de Sorensen, vemos sombras em virtude de vermos o contraste com as partes mais iluminadas ao redor da sombra; oras, o caso da silhueta funciona exatamente assim — a única diferença é que estamos vendo a sombra de dentro dela, e não de fora. Isso chega a parecer óbvio. Mas agora leia outra vez a definição do OED: é paradoxal! As silhuetas são os próprios objetos ou são as sombras dos objetos? É dessa incoerência que Sorensen pretende fugir.

Ao passo que sombras projetadas são deslocadas e tipicamente distorcidas, silhuetas fornecem uma similitude que é comparável àquela obtida com luz transmitida. Ver a silhueta de um objeto conta como ver o próprio objeto. Esse princípio é pré-histórico e culturalmente universal.(31)

Já Westphal, bem mais à vontade com a dualidade, chega mesmo perto de aceitar a contradição: “me parece que parte do próprio deleite do século dezoito (…) com a silhueta é que a silhueta de uma pessoa real ao mesmo tempo é e não é a pessoa. O contorno é a pessoa; mas o interior desprovido de características [featureless] não é a pessoa”(2011: 193). Mesmo isso — ‘o contorno é a pessoa’ — corre o risco de ser mero palavreado. Pois ele também admite que para o purista, falando estritamente, a silhueta de fato não é o objeto; ocorre apenas que na prática há “pouco perigo” em tratar ambos como uma coisa só(2011: 192).

Sorensen, se o entendo bem, pensa que tudo isso é baseado num engano: a ideia de que silhuetas são bidimensionais e que seu interior preto é desprovido de características. Mas como não? Aqui, outra vez, obtemos uma ideia surpreendente e inspirada: silhuetas são tridimensionais! Por exemplo, alguém poderia argumentar — contra Sorensen — que silhuetas são diferentes das superfícies dos objetos, pois na maioria das vezes a superfície tem um formato e a silhueta, outro:

blacktable


Enquanto a superfície da mesa (no caso, a superfície de baixo, a que bloqueia a luz) é quadrada, sua silhueta é losangular. Se é assim, obviamente a superfície e a silhueta não podem ser a mesma coisa. Mas se silhuetas são tridimensionais, problema resolvido: o aparente losango, embora totalmente preto, inclui uma informação a mais — a saber, a distância (em profundidade) entre certas partes e outras; o que basta para que ele seja, e até pareça, quadrado. Isso, afinal, é exatamente o que ocorre com a superfície da mesa quando iluminada de forma normal: não importa que seja vista em perspectiva, inclinada, ela continua parecendo ter o formato certo. Ou como coloca o filósofo Casey O’Callaghan, “quando você olha uma moeda de frente, ela parece circular. Quando você a olha de lado, ela tem uma aparência elíptica, mas você ainda a percebe como sendo circular”(2011: 182). O mesmo ocorre com a silhueta da mesa e, assim, ela é mais que uma mera área preta: ela se estende em profundidade. Mas então o que é tridimensional é a superfície do objeto, e não sua sombra
[3]. A meu ver, ponto pra Sorensen, que em seu artigo-resposta.(2011: 204) deu esses dois exemplos convincentes da tridimensionalidade (bem como da eventual riqueza de características) das silhuetas:

3d


Parece mesmo que estamos vendo objetos, e não meras sombras.

Problema resolvido, então? Silhuetas são partes dos objetos? Ainda não estou totalmente convencido. Se você riscar ou amassar a superfície iluminada de uma lata silhuetada, nem por isso você estará riscando a silhueta da lata, que permanecerá inalterada; se, durante um eclipse solar, a superfície iluminada da Lua girar, nem por isso a silhueta vai girar. Ergo: a superfície não é a silhueta. Sorensen tampouco aborda esse tipo de objeção. Mas nesse caso, como veremos ao longo de nossa Viagem ao Mundo das Sombras, é bastante óbvio o que ele iria dizer. (Spoiler: que, sim, as silhuetas podem ser riscadas e giradas, pois cada trecho do escuro da silhueta é causado por uma parte da superfície iluminada do objeto. Se uma parte de tal superfície é alterada, isso altera a causa do respectivo trecho escuro; e, portanto, altera o próprio trecho escuro! Podemos, por exemplo, perceber o giro de certas silhuetas perfuradas. Mas mesmo se a alteração da silhueta é totalmente imperceptível, ainda seria uma alteração real!) [4] E por falar em sombras…

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►Parte II: Buracos, Ausências, Não-Ser

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“Sombras reais contrastam com sombras sonhadas, alucinadas e imaginadas tanto quanto pedras reais contrastam com pedras sonhadas, alucinadas e imaginadas. (…) a ‘exterioridade’ das sombras não é nenhuma brincadeira (…). Nós irresistivelmente vemos sombras como estando lá fora na paisagem. Sombras estão abertas à inspeção pública (…). Se sombras fossem meras aparências, então não deveria haver diferença entre onde uma sombra está e onde ela parece estar (…). A mais simples explicação da distinção aparência-realidade para sombras é que realmente há sombras lá fora. A astronomia encoraja esse realismo. Galileu não podia escalar as montanhas lunares. Mas ele podia medir suas sombras com um telescópio e inferir a altura das montanhas. Se sombras lunares não tivessem formas e tamanhos, Galileu estaria raciocinando a partir de falsas premissas.”

Roy Sorensen, Seeing Dark Things, 2008: 108-110


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Referências


Aranyosi, I. 2008: Review of Roy Sorensen, Seeing Dark Things: The Philosophy of Shadows, Australasian Journal of Philosophy 86 (3): 513-515.

O’Callaghan, C. 2011: ‘On privations and their perception’, Acta Analytica 26 (2): 175-186

Sorensen, R. 2008: Seeing Dark Things: The Philosophy of Shadows, Oxford: Oxford University Press

Sorensen, R. 2011: ‘Silhouettes: A Reply from the Dark Side’, Acta Analytica 26 (2): 199-211

Westphal, J. 2011: ‘Silhouettes are shadows’, Acta Analytica 26 (2): 187-197

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Capa

Recorte de Sunplane, Sebastien Lebrigand 2013

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Notas


[1]
A referência indica a página 20 de Seeing Dark Things. Doravante, todas as referências sem ano serão para este livro. Referências com ano, como o “2011: 188” que aparece em seguida, se referirão ao texto e página do autor mencionado no contexto (no caso acima, o texto de 2011 de Jonathan Westphal, à página 188). Quando indispensável, o autor será explicitamente referido (e. g. “Guthrie 1965: 104”). Títulos se encontram em Referências.

[2] Westphal também nota tal dificuldade (2011: 194): no já citado exemplo da torre de tijolos, ele imagina perder uma moeda no escuro da parede dianteira (a menor). Sendo a moeda um pouco brilhante, ele acaba por conseguir discerni-la em meio ao negro da silhueta. Pela teoria de Sorensen, ele está vendo a moeda na parte de trás da torre, isto é, na parede maior. Ele deveria dar a volta para encontrar a moeda?!

[3] A sombra também é tridimensional, é claro, mas de outro modo: ocupando o volume que existe a partir do objeto que bloqueia a luz. Tal tridimensionalidade não tem a menor condição de informar o observador sobre as relações de distância entre as partes do objeto.

[4] Dependendo de onde você está lendo esse texto, apenas selecionar o trecho em branco não vai funcionar. Será preciso copiar e colar o trecho em outro lugar.

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