O Despertar da Força

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 por Lauro Edison

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George Lucas desapareceu. Em sua ausência a sinistra DISNEY, com o Episódio VII: O Despertar da Força, ressuscitou a saga Star Wars das cinzas da criticada trilogia digital, e não descansará até que a memória de Jar Jar seja completamente destruída. Era mesmo disso que a mítica fantasia espacial precisava? Antes da tempestade de spoilers a seguir (sendo claro: não leia se não viu o filme), vou resumir minha posição assim: após três inesquecíveis idas ao cinema, sigo encantado com o Episódio VII. Cada vez mais. — — Apesar de suas falhas desastrosas

O encanto, pois, vem com alguma séria preocupação.

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Antes de tudo é bom esclarecer que tipo de fã escreve aqui, o que se resume a duas coisas. Primeira, sou um entusiasta filosófico (e em particular, amoral) de Star Wars, cativado sobretudo pela moralidade ambígua e provocativa inerente à Força, “um poder mágico unindo o bem e o mal, o Lado Negro e a Luz”. Segunda, não sou o tipo de fã que odeia a trilogia digital, longe disso — penso que, comparada à trilogia original, ela tem prós e contras que, tudo considerado, a deixam apenas um pouco atrás dos três clássicos. Eis minha classificação da saga:

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————Ep. V  ————O Império Contra-Ataca  ————9.3
————Ep. III  ————A Vingança dos Sith  ————8.5
————Ep. VI  ————O Retorno de Jedi  ————8.0
————Ep. IV  ————Uma Nova Esperança  ————7.8
————Ep. II  ————O Ataque dos Clones  ————7.5
————Ep. I  ————A Ameaça Fantasma  ————6.8

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E quanto a O Despertar da Força? Pra começar, há esse fato que ainda não deixou meu queixo voltar ao lugar: muito do filme é, de longe, superior a tudo o que veio antes. Não esperava por isso nem mesmo após o imprudente otimismo no qual os trailers me deixaram. Refiro-me às atuações, das quais falarei mais, e também ao visual, que fez com Star Wars o que Matrix e Sin City fizeram com suas próprias atmosferas: tornaram quase cada cena uma pintura com a alma da obra.

O Despertar da Força também tem o melhor ritmo, sendo infalivelmente intenso do início ao fim; o mais impactante letreiro de abertura (“Luke Skywalker has vanished…” — jamais esquecerei o nó na garganta); a sequência inicial mais sombria (envolvendo a chacina de civis e, pela primeira vez, sangue); a melhor sequência de ação da saga e uma das melhores do cinema (a fuga de Jakku na Millenium Falcon, que aliás começa de modo inspiradíssimo); e talvez a melhor sequência de encerramento, nos confrontando com um amargurado e enigmático Luke Skywalker (superando, pro meu gosto, o belíssimo encerramento otimista de A Vingança dos Sith). Dito de outro modo: a nova aventura tem uma superfície de ouro, e você pode apostar que as pessoas que estão considerando o filme perfeito estão vendo apenas sua superfície perfeita. Se ao menos isso não fosse o velho delírio acrítico do entusiasmo!

A dura verdade é que o filme também está infestado de erros absurdos, a saber: é uma cópia-carbono da trilogia clássica (em particular do original Uma Nova Esperança); tem um roteiro cheio de coincidências ridículas; possui dois duelos de sabre que parecem impossíveis; apresenta e destrói uma terceira (!) Estrela da Morte; possui uma protagonista perfeitinha que se torna jedi em 24 horas. Qual é, então, minha nota para O Despertar da Força? É inevitável que a resposta que darei aqui (ao final) seja insegura e provisória, pois o Episódio VII só será realmente completado ao final do Episódio IX. Cada capítulo de Star Wars tende a preencher e ressignificar aberturas e âncoras deixadas (propositalmente ou não) pelos capítulos anteriores, e o novo filme tem mais pontas soltas do que todos os outros juntos! — o que, se os realizadores sabem o que estão fazendo, é ótimo.

Mas os realizadores — J. J. Abrams & cia. — sabem o que estão fazendo?

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O Confuso X do Mapa

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Parece que sim, embora de modo desastrado.

Considere este enigma: por que R2-D2 desperta de seu torpor, de forma gratuita e conveniente, simplesmente estando em posse do resto do mapa sobre o paradeiro de Luke? A impressão passada no filme é que a resposta é um vulgar “porque sim”. Os fãs são deixados a especular: será que o próprio Luke pré-programou R2 para se ativar quando Rey, talvez sua filha, se aproximasse? Será que ativou o dróide à distância, usando a Força, por sentir que era o momento de revelar sua presença — seja pela morte do amigo, a destruição da Starkiller ou o despertar de Rey? Nada disso. Luke jamais deixou pistas intencionais de onde estava. A verdade, que alude aos Episódios III e IV, é tão mal contada na tela que J. J. Abrams sentiu a necessidade de explicá-la em uma entrevista. O fato essencial, aqui, é que o mapa mencionado durante todo o filme não é, em si, um mapa para a localização de Luke — é um mapa secreto retirado dos antigos arquivos Jedi pelo Império, na época da ascensão de Palpatine ao poder (!), mostrando a localização do Primeiro Templo Jedi. Que Luke tenha ido procurar esse Templo é apenas um palpite, mencionado por Han Solo, das “pessoas que o conheciam melhor” — um palpite acertado, como depois se viu.

Note que o mapa tinha uma parte menor, obtida por “um velho aliado” que conhecemos no início do filme, e uma parte maior que é possuída tanto pela Primeira Ordem — Kylo Ren diz à Rey que “nós temos o resto [do mapa], recuperado dos arquivos do Império” — quanto por R2-D2. Mas de onde R2 tirou sua cópia? Também dos arquivos do Império! A explicação dada na entrevista…

…remete ao filme original de 1977, quando R2-D2 acessa os dados do Império enquanto os heróis procuram pela aprisionada Princesa Leia. “Tivemos a ideia de que R2 se conectou à base de informações da Estrela da Morte, e é assim que ele foi capaz de obter o mapa completo e descobrir onde estão os templos Jedi”, disse [o co-roteirista Michael] Arndt. (…) “a ideia era que naquela cena em que R2 se conecta ao terminal, ele baixa os arquivos do Império, os quais foram referidos por Kylo Ren”, disse Abrams.

De fato: em Uma Nova Esperança R2-D2 passa um enorme tempo acessando os dados da Estrela da Morte (ele é capaz, diz Obi-Wan, de “interpretar toda a rede imperial”). Voltando ao Episódio VII: BB-8 sabe que R2 “esteve por toda a galáxia” e literalmente pergunta para ele: “ei, eu tenho este pedaço de um mapa, por acaso você teria o resto?” (palavras de J. J. Abrams). R2, que estava “em estado de baixa energia” e não desligado, ouve a pergunta; e após uma demorada busca nos próprios arquivos, enfim encontra a parte restante do mapa. O astrodróide de fato não sabia onde estava seu mestre, e descobrir essa informação é o que o tira do longo estado depressivo.

E quanto à parte menor do mapa, de onde veio? O Império não a tinha? Vejamos: Lor San Tekka é o “antigo aliado” que “descobriu uma pista sobre o paradeiro de Luke” — isto é, ele obteve a parte menor do mapa. Como? O site oficial de Star Wars nos diz mais sobre ele:

Um viajante e explorador lendário, Lor San Tekka é um aliado de longa data da Nova República e da Resistência. Após a Batalha de Endor [O Retorno de Jedi], San Tekka ajudou Luke Skywalker a recuperar dados secretos da tradição Jedi que o Império tinha tentado apagar, e Leia Organa espera que o velho explorador possa agora ajudar a encontrar seu irmão. Após décadas de aventura, San Tekka se exilou para uma vida simples em Jakku, onde ele segue os ditames da outrora proibida Igreja da Força. Mas seu exílio está fadado a ser tudo menos pacífico.

Provavelmente esses “dados secretos da tradição Jedi que o Império tinha tentado apagar” são a própria parte menor do mapa, indicando o Primeiro Templo Jedi, que foi então deletada no mapa que R2 baixou da Estrela da Morte e que, bem mais tarde, a Primeira Ordem recuperou “das cinzas do Império”. De algum modo Luke e San Tekka, trinta anos antes de O Despertar da Força (“após a Batalha de Endor”), conseguiram reaver (apenas) o trecho deletado. Décadas depois, dado o desaparecimento de Luke e a subsequente ascensão da Primeira Ordem, San Tekka enfim decide ajudar Leia a encontrar o irmão, pois “sem os Jedi não há equilíbrio na Força”. O Primeiro Templo Jedi, assim, é da maior importância tanto para o Império, quanto para Luke e a Primeira Ordem, talvez porque Snoke tenha alguma relação com forças extremamente antigas do Lado Negro, anteriores aos Sith (um indício disso é o sabre de Kylo Ren, que foi “grosseiramente montado com base em um design arcaico que remonta ao Grande Flagelo de Malachor há milhares de anos”) — a trama de fundo é ótima, apenas o roteiro final é estupidamente silencioso sobre os detalhes.

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Sexta Grande Falha?


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Às cinco falhas desastrosas de O Despertar da Força que mencionei antes, muitos fãs adicionariam uma sexta: um péssimo vilão. Quer concorde, quer não, você sabe o que estão dizendo: Kylo Ren é um jovem imaturo, irritantemente mimado e inseguro, com uma expressão decepcionante e tola ao tirar a máscara: longe do ar ameaçador de qualquer personagem remotamente vilanesco; infinitamente distante do maior deles, Darth Vader. Se eu também o percebesse desse modo — quando ficará claro que o considero o maior acerto do filme (a escolha da capa não é à toa) — então provavelmente sentiria, como muitos, que o filme naufraga junto com o vilão. Felizmente pra mim, estou no time do Jovem Nerd: “Kylo Ren é f***!”.

Por que os fãs estão tão divididos sobre Kylo Ren?

Estou convencido de que a discordância é uma versão facial da famosa discordância sobre o vestido “azul/preto ou branco/dourado”: tudo depende de como seu cérebro desenha e destaca os traços de Adam Driver. Fazendo força, posso entender como muitos enxergam traços infantiloides e patéticos no ator, o que pra mim se reduz a um ruído tão tênue que mais parece imaginação. Para meu cérebro a expressão dele (enfatizada pela voz gélida e opressiva) é um perfeito composto de frieza, arrogância e melancolia, sempre com uma ponta de instabilidade — exatamente o que o jovem Anakin de Hayden Christensen deveria ter sido nos episódios II e III (mas Christensen tem seus momentos). Em uma performance brilhante de Driver, Kylo vai (e vem!) da indiferença perturbadora de um ser poderoso (como quando lê a mente de Rey) à dispersão nervosa de um jovem inseguro (sobretudo ao reconhecer, diante de Snoke, o embaraçoso fracasso com a “catadora de lixo”), passando por vários níveis intermediários de (des)controle emocional que enriquecem espetacularmente todas as suas aparições — sobretudo, como veremos, a mais importante delas. Se você não deu o azar de registrar o rosto de Driver como o rosto de um palerma — e talvez você ainda consiga ver as coisas de outro modo —, então poderá apreciar a evolução do legítimo sucessor de Darth Vader.

Mas Adam Driver não é o único ator magnífico neste Episódio VII.

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Atuações Inspiradas vs. Roteiro Desastrado


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O elenco, como já sugerido, é um ponto onde O Despertar da Força humilha seus predecessores. Enquanto a trilogia digital é excessivamente criticada por ter atuações terríveis, quando são apenas atuações fracas ou razoáveis (ou boas: o Qui-Gon Jinn de Liam Neeson), a trilogia clássica está longe de ter atuações maravilhosas: são em geral apenas convincentes e, nos melhores pontos, boas. Memorável a mais marcante delas é, mas de um rosto humano não se trata. E quanto aos humanos, não há nada nos filmes antigos que iguale a performance de Ian Mcdiarmid, o Palpatine, ao longo dos filmes modernos — nem mesmo o próprio Mcdiarmid na sua ótima, mas breve e limitada, encarnação de Imperador. Seja como for, tudo isso empalidece diante das performances intensas, espontâneas, ricas de nuances e personalidade — enfim, de primeira categoria — de Daisy Ridley (Rey), John Boyega (Finn) e Oscar Isaac (Poe Dameron). E o que mais, Harrison Ford conseguiu fazer com Han Solo o que não pôde fazer com Indiana Jones: trazer o familiar personagem de volta à vida. E que sorte que foi assim, pois o fraquíssimo, reciclado e mal-costurado roteiro de O Despertar da Força é literalmente mantido de pé exclusivamente pelo talento dos atores. Cada elo implausível da narrativa, como as amizades instantâneas, se torna de repente plausível, ou muito menos implausível, graças à riqueza e à química das atuações. Assim entendemos o espírito aventureiro, a nobre resiliência e o idealismo reluzente de Poe Dameron, imediatamente um personagem cativante de Star Wars, apesar de o piloto ter pouquíssimo tempo de tela e passar por um sumiço-&-reaparição desastrados: haréns para Oscar Isaac. E esse é apenas o menor exemplo.

O maior exemplo, claro, é Daisy Ridley. Que achado! Seu talento naturalíssimo para a aventura, oscilando entre o humor sutil (a determinação dela ao correr atrás do “ladrão” Finn já me fez rir três vezes), o drama (quando se desespera por Solo e depois por Finn) e o medo intenso mas resistido (nas duas ocasiões em que é controlada por Kylo Ren), faz parecer que ela magicamente nasceu para protagonizar Star Wars. Assim ela consegue quase vender — ou de fato vender, se tudo o mais correr bem! — o que parece ser uma absurda catadora de lixo que é tecnica, fisica e moralmente perfeita, e que evolui de sequer conhecer a Força à Mestra Jedi em um dia. Voltaremos a isso. E então, Finn: Boyega intensifica cada cena com esse estilo de humor nervoso e alarmado que é tão adequado dentro de uma aventura (mesmo quando está de capacete: “estou falando comigo mesmo!”), o que dá a O Despertar da Força leveza, intensidade e um constante sentido de urgência inigualados em toda a saga. Mais do que isso, ele nos convence, o que o roteiro por si jamais teria feito, de que é da nobre essência de Finn ser cegamente valente — a ponto de libertar um prisioneiro da Primeira Ordem sob extremo nervosismo; de invadir a Base Starkiller decididamente, apesar de sequer fazer ideia de como baixar seus escudos; e, crucialmente, de ousar estupidamente ligar um sabre diante do Mestre dos Cavaleiros de Ren contra toda a sua (apropriada e transparente!) insegurança. E é essa insegurança, eloquente na composição de Boyega, que torna tão natural a sua postura realista — mas posta no filme de maneira apressada e desastrada — de de repente querer fugir da Primeira Ordem (“eu não sou um herói”), o que pra piorar ainda ocorre ao mesmo tempo em que Rey, com idêntica artificialidade, em dois tempos “desiste” e “desdesiste” de seu “chamado para a Força”. O que seria patético é, graças aos atores, um momento passável do filme.

Mas não há atuação que resolva As Cinco Grandes Falhas do Episódio VII.

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Cinco Grandes Falhas


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1. O Despertar da Força é uma cópia-carbono de Uma Nova Esperança
(com alguns elementos copiados dos episódios V e VI)

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O Despertar da Força foi excelente da primeira vez que o vi… 40 anos atrás.”
— um comentarista na internet

É aproximadamente imperdoável: como assim quase repetir o filme? — pois é isso o que foi feito! Snoke é o novo Sidious, Kylo é o novo Vader, a Primeira Ordem é o novo Império, a Resistência é a nova Aliança Rebelde, Jakku é o novo Tatooine, Rey é o novo Luke, BB-8 é o novo R2-D2, a Base Starkiller… Mesmo as relações entre locais e personagens se repetem, incluindo todo o roteiro de (no melhor resumo que vi)…

…um membro da rebelião escondendo dados  importantes em um droide, que afortunadamente encontra alguém jovem, em um planeta deserto, quem sonha com um lugar maior na galáxia e tem algum tipo de conexão familiar com outros personagens importantes, até que ambos se encontram com um personagem mais velho que os envolve nos eventos galácticos mais amplos. (Filmbagger)

Se o filme não se chamasse “Star Wars” a acusação de plágio seria causa ganha. O resultado, péssimo, é que a galáxia que deixamos em O Retorno de Jedi retorna à estaca zero de Uma Nova Esperança: outra vez o Despotismo domina, dois mestres do Lado Negro comandam a galáxia, os Jedi estão praticamente extintos, Leia luta pela liberdade, Han Solo é contrabandista — e Rey é a “nova esperança”, assim como Luke já representava um “despertar da força”; ambos em vias de treinamento com o último Jedi remanescente.

Dito isso, há que se reconhecer: ao menos as atenuantes do crime são fortes. Tanta repetição foi o preço pago por uma overdose de nostalgia que, embora devesse ter sido atingida por meios menos vulgares, foi executada com tal esmero e, mais do que isso, tão bem arquitetada para nos gerar perguntas, expectativas, especulações e interpretações sobre o significado dos eventos do filme — com base nas “rimas” que faz com os filmes anteriores — que ter de engolir o estranho sabor de remake não é tão mal assim. E o fato é que as pequenas diferenças de personagens, ênfase, direção e motivos são excelentes: Finn e Poe são peças novas e prateadas no tabuleiro, Rey é enigmática de um modo que Luke jamais foi, Kylo Ren é (magnificamente) “tentado pela luz”, o exílio de Luke (à diferença do de Obi-Wan ou Yoda) é tanto misterioso quanto em parte provocado por culpa e extremo fracasso. E, enfim, BB-8 é realmente uma elaboração irresistível no papel de R2-D2, simbolizando a “repetição com extrema qualidade” que me faz relevar a originalidade nula deste Episódio VII.

Mas o futuro verá como uma mancha, na saga, que o filme 7 repita o filme 4.

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2. A trama é repleta de coincidências ridículas
3. Rey é perfeita e se torna Jedi em um dia

Talvez um problema resolva o outro?

Um caso à parte, que ficará para o fim (2) (3).

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4. Os duelos não fazem sentido

À primeira vista tudo parece um desastre constrangedor: Finn e Rey mal poderiam manejar um sabre sem cortar a si mesmos, que dirá atingir ou derrotar um Mestre treinado. Como bem resumiu um fã, “reflexos aguçados, foco e uma antecipação que beira a presciência são todos necessários no combate de sabre de luz, e é por isso que vemos apenas os Jedi e os Sith em combate”. J. J. Abrams & Cia. parecem assim estar simplesmente cuspindo em tudo o que foi cuidadosamente estabelecido nos filmes anteriores. Mas não é bem assim, felizmente, já que os improváveis duelos são suficientemente desculpados pelo roteiro (ao menos se você prestar muita atenção) para que uma boa racionalização torne os eventos tragáveis e até plausíveis: não foi dessa vez que a sagrada lógica dos duelos de sabre foi pelo ralo. Dito isso, a extrema deselegância narrativa que fez metade do público sair do cinema sentindo que viu algo impossível e ridículo é, em si, um grave defeito do filme, prejudicando a tradicional cena de duelo de um modo que nenhum outro Star Wars chegou perto de fazer.

Mas vamos aos fatos: Kylo Ren, você sabe, está quase mortalmente ferido.

Muitos fãs, ansiosos para justificar os duelos, quiseram enfatizar que Kylo Ren pode perfeitamente ser um amador com sabres de luz, um mero aprendiz inexperiente. Mas esse está longe de ser o caso! Snoke fala em completar seu treino, implicando que a experiência de Kylo já é altíssima. Claro que é: se trata de ninguém menos que o Mestre dos Cavaleiros de Ren, alguém que quinze anos antes foi treinado pelo maior, Luke Skywalker, e ali já era capaz o suficiente para destruir a Academia Jedi, matando todos os aprendizes no processo. Esse é um indivíduo que pode, num só ato da Força, simultaneamente congelar um tiro de blaster e o indivíduo que deu o tiro. Não há o que relativizar aqui: o Kylo Ren que vemos é bem mais poderoso que o jovem Obi-Wan do Episódio I, o jovem Anakin do Episódio II e o jovem Luke do Episódio V — e nenhum deles em condições normais teria a menor dificuldade com Finn ou Rey. Então não é por falta de habilidade que Kylo leva um golpe do primeiro e é derrotado pela segunda: de fato a sensacional coreografia (a mais realista e intuitiva de toda a saga) deixa clara a grande habilidade do vilão, em total contraste com o manejar inábil e puramente defensivo dos heróis — como disse um fã no Reddit, “tendo assistido a esta cena quatro vezes agora, eu realmente aprecio as nuances da luta”.

Metade do que está havendo, pois, é que Kylo Ren foi atingido pela poderosa Besta [Bowcaster] de Chewbacca. É fundamental não subestimar esse fato. E o filme, de forma forçada mas enfática, nos dá a dimensão do dano: por um lado, o robusto Chewbacca leva um mero tiro de pistola no ombro e mal consegue andar a seguir; por outro, a simples explosão provocada por sua besta é capaz de lançar longe (e provavelmente matar) dois stormtroopers que apenas estavam nas proximidades do tiro — levando Han Solo a se enamorar da arma. A conclusão óbvia é que Kylo Ren, quem levou um tiro da besta diretamente no abdômen, só não está morto por ser um poderoso Mestre do Lado Negro.

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E então há o outro ponto, até mais importante, porém mal compreendido: Kylo Ren, ou Ben Solo, acabara de assassinar o próprio pai a sangue-frio — talvez o ato mais emocionalmente negro de todos os sete filmes. Tendo ele assim abraçado a escuridão de uma vez por todas, não deveria ter se tornado mais poderoso do que nunca? Em tese, sim: de fato é exatamente por essa razão que seu avô, em A Vingança dos Sith, é orientado por Sidious a matar os jedi, e mesmo as crianças inocentes, “sem hesitação, sem mostrar misericórdia”, pois só assim Vader poderia se tornar “forte o suficiente com o Lado Negro [para salvar Padmé]”. Mas a Luz, tanto quanto a Escuridão, tem sempre seus meios de reagir, de impor um conflito ao indivíduo. É sobretudo aí que reside o brilhantismo psicológico de Star Wars. Após completar sua primeira grande descida para as trevas, Darth Vader se encontra em lágrimas:

Essa dor jamais o deixou, tendo sido apenas melancolicamente sufocada durante as décadas seguintes. Vader conseguiu abraçar o Lado Negro, com toda a dificuldade inerente a essa escolha — mas apenas até ser exposto à luminosa compaixão e nobreza do filho ao fim de O Retorno de Jedi: Luke preferira colocar a própria vida em risco a destruir o pai, e com esse gesto demonstrava o peso e a realidade do sentimento que o movia, isto é, a plenitude interna que é própria da Luz. O gesto ecoa a mais profunda sabedoria Jedi certa vez resumida pelo espírito de Qui-Gon Jinn: “o amor é a resposta à escuridão”. Pois essa mesma grandiosidade de espírito seria levada a um novo nível trinta anos depois, diante de um Ben Solo que acabara de cometer o mais negro dos atos, no simples gesto final de Han:

Essa era a demonstração de afeto incondicional de um pai que acabava de saber-se assassinado pelo filho. Esse gesto — tão pleno de amor que dá substância à esperança de Leia: “Luke é um Jedi. Você é o pai.” — faria toda a diferença: a expressão final de Kylo Ren, após a queda de seu pai para a morte (e, simbolicamente, para a Luz), é certamente a de quem percebe uma nova amargura dentro de si:

“Atordoado por sua própria ação”, a novelização do filme esclarece, “Kylo Ren caiu de joelhos. Ter concretizado o ato [de matar o próprio pai] deveria tê-lo feito mais forte, uma parte dele acreditava; em vez disso, ele se viu enfraquecido”. E jamais seria de outro modo. Han Solo foi mais luminoso, em seu momento derradeiro, do que Luke jamais poderia ter sido em O Retorno de Jedi. E ainda assim… A verdade é que Kylo Ren passou por uma provação emocional muito maior do que aquela enfrentada por Darth Vader, e apesar do devastador (e esperado) abalo psicológico que sofreu — desequilibrando sua sintonia emocional com a Força e explicando a sua performance no duelo —, permaneceu na trilha do Lado Negro. Vale ver como a novelização torna explícita toda essa lógica emocional, num diálogo entre Kylo e Snoke:

“Kylo Ren, eu assisti à ascensão do Império Galáctico, e então à sua queda. À crédula tagarelice sobre o triunfo da verdade e da justiça, do individualismo e do livre-arbítrio. Como se essas coisas fossem sólidas e reais em vez de simples julgamentos subjetivos. Os historiadores entenderam tudo errado. Não foi nem a má estratégia nem a arrogância que derrubou o Império. Você sabe muito bem o que o trouxe abaixo.”

Ren balançou a cabeça, assentindo. “Sentimento.”

“Sim. Algo tão simples. Tal erro tolo de julgamento. Um lapso momentâneo em uma vida de resto exemplar. Tivesse Lorde Vader não sucumbido à emoção no momento decisivo — tivesse o pai matado o filho — e o Império teria prevalecido. E não haveria agora qualquer ameaça do retorno dos Skywalker.”

“Eu sou imune à luz”, Ren assegurou-lhe de modo confiante. “Pela graça de seu treinamento, eu não serei seduzido.”

“Sua auto-confiança é louvável, Kylo Ren, mas não permita que ela te cegue. Ninguém sabe os limites do próprio poder até que este seja testado ao máximo, de um modo que o seu não foi. Esse dia ainda está por vir.”

E enfim veio. Kylo Ren passou no terrível teste de Snoke. “Terminou o que Vader começou”. Abriu o caminho para se tornar mais poderoso que o avô. E agora terá seu treinamento completado. Deselegâncias narrativas à parte, é difícil imaginar uma construção mais sólida para um sucessor de Darth Vader.

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Assim, dado que Kylo está extremamente abalado fisica e emocionalmente, não me intimido em afirmar que ele está funcionando com apenas 10% de sua capacidade no começo do duelo, e que isso se torna 5% quando ele, talvez por azar, ainda é atingindo por Finn no braço que maneja o sabre. E com tudo isso a sequência ainda seria ridícula e injustificável se Finn e Rey não fossem bem melhores do que aquilo que parecem a princípio, isto é, completos leigos no combate com sabres de luz.

Comecemos por Finn: o roteiro estabelece (também de forma forçada) que os stormtroopers, e logo o próprio Finn, são treinados com o “bastão Z6 antimotim [riot control]”, uma arma cujo uso têm óbvia similaridade com o manejar de um sabre, de fato sendo projetada para resisti-lo em combate direto (como não mostrar a reprodução da cena com as perfeitas action figures da Hot Toys?):

O estranho é o stormtrooper usar o bastão Z6 nessa situação, em vez de uma pistola: sim, faria sentido puxar o bastão diante de um sabre de luz, posto que atirar em um jedi equivale a atirar em si mesmo; mas aqui ele sabe que Finn não é jedi, já que o reconhece como o traidor FN-2187. O que o filme não esclarece é que esse stormtrooper em particular, FN-2199, participava dos treinamentos com o bastão Z6 juntamente com Finn, o que “explica por que ele parece um pouco mais irritado que o normal ao ver Finn durante o ataque a Castelo de Maz”, diz o site oficial. O livro canônico Before the Awakening [Antes do Despertar], lançado com a estreia de O Despertar da Força, de fato exibe o treino de Finn e, ao fundo (de cabelo vermelho), o cadete FN-2199:

Há, pois, uma razão emocional para o bastão Z6 ser usado contra Finn. O filme a deixa de lado, é verdade, mas o importante é que o treinamento com o bastão Z6 justifica o fato de Finn saber manejar o sabre com um mínimo de destreza (leia-se: nem se cortar e nem fazer manobras completamente estúpidas). E esse pouco é, de fato, tudo o que vemos Finn fazer: ele usa o sabre de forma gritantemente grosseira, mal se defendendo dos avanços lentos e despreocupados de Kylo Ren, quem chega a desviar de um “ataque” com a guarda baixa e não tem a menor dificuldade em pressionar Finn contra uma árvore a fim de poder sadicamente torturá-lo.

Até que Finn consegue acertar um golpe em Kylo.

Implausível, talvez, mas claramente possível dado o estado lastimável do vilão. O crucial é que, uma vez atingido, Kylo Ren imediatamente para de brincar — o que de fato estava fazendo — e reage liquidando Finn em dois segundos: num movimento tira seu sabre e no outro quase o mata. A sequência soa implausível a princípio mas, bem entendida, é até realista. Além disso, o fato de Finn acertar o golpe pode significar algo mais: será ele um sensitivo da Força? O filme sugere isso algumas vezes: o modo como Kylo Ren parece sentir Finn à distância; o simples fato de ele, entre todos os stormtroopers, se rebelar; o interesse de Maz Kanata em seu olhar, depois lhe entregando o sabre (a arma de um jedi) e enfatizando: “você tem uma arma!” (note que ela não entrega o sabre para Han Solo); e, mais especulativamente, o fato de ele parecer ouvir (antes de olhar para o céu) as “milhões de vozes subitamente gritando de terror” quando os planetas da República são destruídos pela Base Starkiller. Além disso, o site oficial vai longe a ponto de dizer que “Rey e o renegado stormtrooper Finn forjam uma amizade improvável, fugindo de Jakku e encontrando-se presos em uma guerra galáctica — com o destino de ambos moldado pelo poder despertado da Força” (ênfase minha). Então pode ser o caso.

Mais estranhas, diga-se de passagem, são as duas pequenas sugestões de que Finn pode ser filho de Lando Calrissian: o fato de ele ecoar a natureza de Lando, dizendo “não sou um herói” justamente quando menciona a família que jamais conhecerá (“um verdadeiro herói” é a ironia que Lando ouve de Han Solo após entregá-lo para o Império); e o fato de ele também ser enforcado por Chewbacca, perdendo assim a voz:

Não é irresistível ligar os pontos agora? Afinal alguns sequer precisaram dessas provocações para ligar esses pontos mesmo antes do filme!

Não penso que a teoria seja ridícula ou forçada: explicaria por que Finn é um stormtrooper tão singular, por que Finn e Rey (se ela é de fato uma Skywalker) se conectam tão facilmente (ecoando o modo como Luke se encanta com Leia só de vê-la no holograma), e daria mais substância à separação de Han e Leia — além de fazer jus à reputação de Lando, é claro! Infelizmente pra mim, a cronologia dificilmente fecha: Finn, assim como Rey, tem uns 20 anos, mas foi apenas há 15 anos (quando Rey tinha uns 5) que Ben Solo foi seduzido para o Lado Negro, destruindo a Academia Jedi e levando à separação de Leia e Han. E não faz sentido que Finn, se é filho de Leia, tenha nascido antes disso.

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E Rey? Como ela, quem nunca tinha sequer ligado um sabre de luz, consegue derrotar Kylo Ren? Essa é parte da grande questão (ou grande enigma, ou grande problema) do filme, a qual discutirei por último.

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5. Base Starkiller

Em se tratando de Estrelas da Morte, um é ótimo, dois é péssimo e três é ridículo e imperdoável. Outra vez uma Estação Espacial que destrói planetas e é explodida no último segundo? É incompreensível que a ideia tenha sido sequer cogitada, que dirá aprovada e realizada. E não se conformaram em meramente reincidir na falha histórica de O Retorno de Jedi: o fizeram de modo tão patético quanto possível. Assim, a Primeira Ordem não apenas repete a estratégia duplamente fracassada do Império, mas constrói uma Base que é cem vezes mais fácil de destruir! Pois enquanto horas antes a Resistência sequer desconfiava de sua existência, bastou “um voo de reconhecimento” e um par de explicações de Finn (quem sequer sabia como desligar seus escudos) para que o “ponto fraco” da Base (que fica na superfície!) fosse conhecido e logo a seguir uma mísera dúzia de X-Wings — contra o que deviam ser uns quatrocentos Tie Fighters — implodisse toda a Starkiller. De longe o evento mais patético em todos os sete filmes.

Ademais, todo o conceito da Estação Starkiller é difícil de engolir. Ela é uma arma construída dentro de um planeta, onde cada disparo exige consumir toda a energia de um Sol: então o planeta se move rumo a outro sistema solar, sem ficar inabitável nesse ínterim! E o disparo da arma viaja através do hiperespaço, podendo atingir mundos em qualquer parte da galáxia — e então os próprios reflexos do raio lançado viajam pelo hiperespaço, sendo vistos pela galáxia toda! É por isso que a destruição do Sistema Hosnian pode ser vista em Takodana (o planeta “verde” de Maz Kanata), apesar de este ficar em outra parte da galáxia — como atesta o Dicionário Visual (oficial) do filme:

Pensando melhor, que bom que já destruíram essa fonte de embaraços! Com sorte o Episódio VIII não nos apresente uma quarta Estação Espacial — nos meus pesadelos vejo toda a Galáxia de Star Wars ser ameaçada por uma colossal “Galáxia da Morte” que se avizinha, até que Poe Dameron, num speeder, consegue explodi-la no último segundo…

(Nem tudo são espinhos: a destruição da Nova República tem toda a beleza da Escuridão, e a simbologia da Luz que se extingue engrandece o momento mais forte do filme.)

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Amoralidade: Episódio VII


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Star Wars é a saga onde um vilão genocida e assassino de crianças pode, ao final, simplesmente se redimir e — sem ser alvo de punição, ódio, desejo de vingança ou nojo moral — retornar ao lado luminoso (inclusive retendo, como só os verdadeiros Jedi podem fazer, sua essência individual).

Se você me perguntar, considero que esse ethos moral subversivo é exatamente o que torna Star Wars filosoficamente superior, e em outra parte argumentei que essa “moralidade provocativa” da saga equivale, afinal, a amoralidade. O que O Despertar da Força fez dessa qualidade inerente à saga? Se há uma empresa moralista no mundo que poderia estragar tudo, é a Disney (a mesma que recusou De Volta Para o Futuro simplesmente porque o filho beija a mãe no filme). E de fato há alguns ruídos morais aqui: pela primeira vez em Star Wars, em duas ocasiões, temos exemplos vulgares de nojo moral — quando Maz diz que “esses monstros, estão aqui”, se referindo à invasão da Primeira Ordem, e quando Rey grita indignada “você é um monstro!” para Kylo Ren. Também não ajuda fazer da Primeira Ordem uma caricatura tão vazia do nazismo. Mas, parafraseando o Supremo Líder Snoke, esses são lapsos momentâneos em uma obra de resto exemplar: o fato é que Kylo Ren também se tornou um frio assassino, mas tudo o que importa para Han e Leia, nesse universo, é que “ainda há Luz” nele — de modo que eles apenas querem resgatar o filho da corrupção interior; querem o retorno de Ben Solo. O mesmo acontecia com Luke em relação a Vader.

O Episódio VII manteve — e aprofundou, com o conflito de Kylo Ren — a essência filosófica (a)moral da saga. Não é só na superfície que o filme é de ouro: também em sua camada mais profunda.

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Despertar Ex-Machina?


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“Imagina que f*** o Luke vai ficar depois de ser treinado pela Rey.”
— outro comentarista na internet

Então há essa coleção de fatos embaraçosos sobrepostos: uma catadora de lixo que fala várias línguas (versão modesta de C-3PO); que é excelente em combate (como os jedi), em mecânica (superando até Han Solo) e em pilotagem (nada devendo a Luke e Anakin); que é perfeitamente benévola e emocionalmente estável (como Obi-Wan); que é instantaneamente adorada por todos os personagens que encontra (como ninguém na saga); e que se torna poderosa com a Força a ponto de, em 24 horas, controlar mentes e derrotar, na primeira vez em que liga um sabre, o Mestre dos Cavaleiros de Ren (feito do qual nenhum Jedi ou Sith jamais se aproximou, sequer remotamente). Nesse ponto cabe repetir: Daisy Ridley é brilhante, tornando genuinamente adorável e cativante, em cada cena, uma personagem que parece meticulosamente planejada para ser implausível, superficial e detestável. Mas os fatos embaraçosos continuam: essa moça, um tipo surreal de “materialização viva do Despertar da Força”, está por coincidência no mesmo planeta e região onde veio parar um mapa que leva a Luke Skywalker, o último Jedi… e ao lado dela, também por pura e absurda coincidência, paira uma nave que a levará (graças a ainda outra coincidência?) a alguém extremamente próximo de Luke… por fim, em mais uma improbabilidade absurda, eles vão buscar um transporte seguro justamente no ponto da galáxia onde está o sabre de luz que uma vez pertenceu a Luke… E tudo é ainda mais improvável se, como parece, Rey é filha de Luke. Não temos aqui coincidências demais para que isso seja… seja… mero fruto de um roteiro caindo aos pedaços?

Talvez não sejam coincidências, afinal.

De fato há duas sugestões de que as coincidências são aparentes: quando Han Solo, indo buscar “uma nave segura” no castelo de Maz Kanata, questiona Rey (“você acha que eu e Chewie achamos a Falcon por sorte? Se pudemos achá-la com nossos scanners, a Primeira Ordem não estará muito atrás”); e — de maneira sutil e promissora — quando Rey salva Finn de um Rathtar, dando ao amigo a desculpa apressada de que “aquilo foi sorte!”, como a nos dizer: “o que parece sorte não é!” — do ponto de vista de Finn, incompleto, a porta se fechou magicamente no momento exato.

luck!

Será então que é apenas de nosso ponto de vista incompleto que a Millenium Falcon parece estar, por milagre, estacionada justamente no lugar que Rey frequenta?

Dizem que Uma Nova Esperança sofre da mesma espécie de problema: não é uma coincidência absurda que C-3PO e R2-D2 acabem caindo exatamente em Tatooine e sendo vendidos para Luke Skywalker? De modo algum: perseguida pelo Império, a Princesa Leia está literalmente indo para Tatooine buscar a ajuda do velho Ben Kenobi, e é portanto rumo ao eremita que R2-D2, carregando o holograma de Leia, se dirige ao chegar ao planeta. Mas Kenobi ficou em Tatooine justamente “para proteger” Luke, permanecendo assim sempre próximo ao garoto (agradeça-se ao Episódio III por ligar essa ponta solta do Episódio IV). É verdade que R2-D2 e C-3PO são capturados por Jawas e convenientemente vendidos para Luke, mas essa é uma coincidência bem menor, perfeitamente local e irrelevante: dado o contexto e as motivações envolvidas, Kenobi, Luke e os droides iriam acabar se encontrando de qualquer modo. Então eis onde quero chegar: é muito provável que Lor San Tekka, velho amigo de Luke Skywalker, viva perto de Rey pelo exato mesmo motivo, a saber, protegê-la à distância — desse modo não seria coincidência que os grandes eventos da galáxia relacionados a Luke Skywalker fossem parar bem no quintal da moça.

E não é coincidência que BB-8 seja resgatado justamente por Rey? Não se ele soubesse quem ela é, onde ela mora e “trabalha”, e então estivesse justamente indo atrás dela! — talvez orientado por San Tekka ou, antes, pela própria Leia. Se esse é o caso, faz sentido BB-8 se entregar ao primeiro catador de lixo que encontrar (no caso, Teedo); e daí esperar ou ser vendido para Unkar Plutt (com quem Rey foi deixada aos cinco anos; cf. abaixo), ou passar perto do AT-AT onde Rey vive — para então, como de fato ocorre, pedir a ajuda dela. Tudo isso é plausível já que BB-8 é tão estranhamente insistente em permanecer com Rey (as ordens que ele recebeu de Poe foram apenas para levar o mapa “o mais longe possível”) e parece ser quase reconhecido por ela (por alguma razão, ela sente que não deve vendê-lo).

Quanto à Millenium Falcon, o filme parece querer nos convencer de que ela está ali por pura coincidência — Unkar Plutt a roubou dos irmãos Irving, que a roubaram de Ducain, que a roubou de Han Solo. Que conversa estranha! O fato é que, por um lado, Rey foi realmente deixada com Unkar Plutt em Jakku: na visão dela, é a mão dele que a segura, e é a voz dele que diz “quieta, garota”…

E, por outro lado, Han Solo age muitas vezes como se soubesse quem Rey é: ela entende Chewbacca (desde a infância?) e Han não se surpreende; quando ela diz que sabe cuidar de si mesma, Han (que em tese a conheceu no mesmo dia) responde “eu sei que sabe” e, pouco depois, “você tem muito a aprender”, com uma expressão de quem quer dizer algo mais com essa frase (treinamento jedi?). O fato de ele “oferecer um emprego” à Rey na Millenium Falcon, sem mais nem menos, se alinha com a suspeita. Na Base Starkiller, Finn se preocupa: “não teremos muito tempo para achar a Rey”, ao que Han, com um estranho ar de confiança, diz: “não se preocupe, filho, não sairemos sem ela”. É como se ele esperasse que ela fosse dar um jeito de escapar e encontrá-los; e então é de fato um olhar de familiaridade e orgulho que ele lança, ao vê-la escalando a parede (“essa é filha de Luke!” poderia bem ser seu pensamento):

A cena mais suspeita, porém, é quando Maz Kanata pergunta para Han: “quem é a garota?” — então há um corte e a próxima vez que vemos Maz é indo encontrar Rey no porão, quem acabara de encontrar o sabre de Luke e ter uma visão da Força. A sugestão óbvia é que Han respondeu: “é a filha de Luke” e Maz, conhecedora da Força e provavelmente relacionada a Luke, foi tomar as devidas providências. Se é por aí, Han Solo levou Rey ao castelo de Maz exatamente com essa finalidade — e a conversa de encontrar uma nave segura era mais uma desculpa. Uma coincidência a menos. E começa a parecer que pode haver alguma boa razão para a Millenium Falcon ter ido parar do lado de Rey…

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Mais interessante, Kylo Ren também parece ter alguma ideia de quem Rey é. Ele fica obcecado com “a garota” desde o primeiro momento em que ela é mencionada por um oficial: “que garota?”, pergunta perturbadíssimo enquanto o estrangula, como se tivesse alguma garota específica em mente. O mesmo ocorre em Takodana: um stormtrooper o informa que “o droide foi visto a oeste, com uma garota”, ao que Kylo imediatamente vai para a floresta, de fato levando Rey consigo e deixando BB-8 pra lá — o General Hux percebe que Kylo está privilegiando o próprio interesse em oposição às ordens de Snoke! O que está havendo aqui? Eis uma teoria particularmente promissora: quando Kylo Ren destruiu “todos” os aprendizes da Academia Jedi, não conseguiu matar a própria prima (Rey, filha de Luke, pequena jedi principiante), preferindo em vez disso abandoná-la em Jakku, nas mãos de Unkar Plutt (quem sabemos ter linha direta com a Primeira Ordem), bloqueando sua memória e escondendo o fato não só de Luke mas, provavelmente, também de Snoke. Isso daria nova profundidade a uma de suas falas mais marcantes:

“Perdoe-me… Eu senti novamente. A atração da luz.”

“Novamente…” — Kylo Ren estaria sentindo a mesma incapacidade para matar seu pai que, anos antes, teve para matar sua prima?

A teoria tem uma grande vantagem: é difícil imaginar como Luke (ou seja quem for a família de Rey) poderia simplesmente abandonar a filha em Jakku; e é também maravilhosamente coerente com a visão de Rey: ela vê Kylo assassinar o que seria o penúltimo aprendiz de Luke e então vir em sua direção (possivelmente hesitando) — corta para a cena em que ela é deixada em Jakku e, talvez de forma reveladora, a nave que vai embora é engolfada por um céu vermelho que ecoa o sabre de Kylo Ren da cena seguinte:

“Volte! Volte!”, grita a menina desesperada. Não seria Ben Solo extremamente próximo da pequena Rey, antes de se tornar Kylo Ren? Isso não explicaria sua obsessão, anos depois, ao ouvir falar de “uma garota” em Jakku? Seja como for, alguma conexão profunda entre Rey e Kylo Ren deve existir, como é fortemente sugerido pelo poster do filme:

E então há esse diálogo revelador na novelização, ocorrido assim que Rey consegue, usando a Força, tomar o sabre de Kylo Ren:

Rey parecia igualmente chocada que seu poder de atrair o sabre tinha superado o dele. Ela olhou para a arma agora firmemente em suas mãos.

“Então é você”, Ren murmurou.

As palavras dele a perturbaram: não era a primeira vez que ele parecia saber mais sobre ela do que ela sabia sobre si mesma.

Tudo o que venho dizendo, no entanto, supõe que Rey é filha de Luke. Mas ela é? Teorias abundam: ela pode ser neta de Obi-Wan Kenobi, filha de Han Solo (ou apenas de Leia), neta de Palpatine, filha de Ezra Bridger (personagem da série animada Star Wars Rebels), filha da rebelde no novo Rogue One (a personagem ainda sem nome de Felicity Jones), pode ter sido concebida pela Força (como Anakin), pode não ter quaisquer relações com personagens já estabelecidos… pra piorar, O Despertar da Força dá algum suporte para quase todas essas teorias, o que é certamente proposital: Rey usa o sabre como Palpatine, dando estocadas; fala e se veste como Obi-Wan, e parece ter o temperamento dele; tem visões como Ezra Bridger; e também, como Kylo Ren nos revela, sente que Han Solo é como “o pai que ela nunca teve” — sugerindo numa só linha que Rey pode tanto ser filha de Han quanto, como Anakin, não ter tido pai.

Mas não é óbvio que ela é filha de Luke? Essa “obviedade” pode ser justamente a maior evidência de que Luke não é o pai: pois não é estranho que existam tantas sugestões nesse sentido mas nenhuma confirmação definitiva? Por que deixar a questão em aberto se, no fim das contas, a teoria “óbvia” se confirmará? E então há outra importante, se confusa, sugestão pesando contra a teoria óbvia:

Maz Kanata: “Vejo nos seus olhos… você já sabe a verdade: quem quer que você esteja esperando em Jakku, eles nunca voltarão. Mas há alguém que ainda pode…

Rey: “Luke…”

Maz: “O laço [belonging] que você busca não está lá atrás, está adiante.”

A fala parece fortemente implicar que Luke não tem relação com a família de Rey: esta faz parte do passado e nunca voltará (ou seria essa uma sugestão de que Ben Solo jamais voltará do Lado Negro?), enquanto Luke não faz parte do passado, “está adiante”, e “ainda pode” se conectar com Rey. Claro, tudo é vago e ambíguo: não está implícito justamente que Luke “ainda pode voltar”? Nesse caso ele teria feito parte do passado de Rey, afinal. Além do mais, os fãs irão rapidamente lembrar que Obi-Wan é igualmente enganador e “metafórico” quando diz à Luke seu pai “foi assassinado por Darth Vader”. Por tudo isso, ainda creio que Rey é mesmo filha de Luke. Três, de tantas evidências, são dignas de menção aqui: quando Maz diz à Rey que “esse sabre era de Luke, e de seu pai antes dele, e agora chama por você”, é difícil não tornar essa linha ridícula em qualquer outra teoria; depois, no segundo trailer, temos Luke dizendo basicamente — para um personagem misterioso que agora só pode ser Rey — que “a Força é forte em minha família… você tem esse poder também” (sim, o áudio é tirado de O Retorno de Jedi, mas o significado pretendido não é menos óbvio por isso); por fim, e poeticamente, o nome “Rey” quase certamente tem a intenção de remeter a “Ray” (Raio), exatamente como “Luke” remete à “Luz”. Rey veio de Luke. Um raio de luz.

Claro que as continuações podem refutar tudo isso. Pode ser que Rey não seja uma Skywalker; que ter encontrado BB-8 e sair voando na Millenium Falcon (encontrando Han Solo e sendo levada até o sabre de Luke) seja tudo uma colossal coincidência, preguiçosamente descontada como “a vontade da Força”; que o sabre de Luke tenha vontade própria e, caprichosamente, tenha “escolhido” Rey; que ela seja tão absurdamente poderosa apenas “porque sim”. Se os realizadores seguirem essa direção, é óbvio que O Despertar da Força parecerá um filme muito pior em retrospecto — literalmente o início de um terrível afrouxamento na estrutura do universo Star Wars.

O que nos leva à questão final: como Rey domina a Força em 24 horas e, da primeira vez que liga um sabre de luz, derrota Kylo Ren? Como alguém comentou, podem ter cortado do filme o flashback onde, ao som de Eye of the Tiger, vemos Rey injetando midi-chlorians na veia por meses a fio!

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A verdade é que, para o bem ou para o mal, o enigma de como Rey se torna tão poderosa em tão pouco tempo é totalmente intencional — em vez de um mero exagero irresponsável do roteiro: pra começar, é literalmente a razão para o título do filme. Algo especial está acontecendo, talvez uma estranha novidade no reino da Força, talvez algo relacionado ao passado misterioso de Rey. Seja o que for, é algo que Snoke e Kylo Ren sentem antes mesmo de encontrá-la (“houve um despertar, você sentiu?”). É algo que surpreende a própria Rey por todo o filme: ela não sabe como pilotou tão bem a Millenium Falcon; não entende como acertou seu segundo tiro (e isso após desviar de um tiro instintivamente, sem olhar); admite não saber explicar como controlou a mente do stormtrooper (“você não acreditaria”, diz a Finn). Rey também considera a própria origem um enigma, dizendo, após perguntar a BB-8 de onde ele veio: “Confidencial? Eu também… um grande segredo”. O que quer que esteja havendo, é um fenômeno que Kylo Ren rapidamente compreende após ler a mente de Rey: “ela está apenas começando a testar seus poderes; quanto mais demorarmos para encontrá-la”, ele alerta um stormtrooper, “mais perigosa ela ficará”. A ênfase no enigma é tão grande que não há dúvida de que alguma grande resposta nos será dada nas continuações. E será essa resposta, talvez mais do que tudo, que definirá se O Despertar da Força foi o início de algo fabuloso ou, como agora parece a alguns, de um desastre.

Dito isso, minha hipótese preferida é mesmo a de que Rey é filha de Luke; que, quando criança, recebeu um treinamento de “youngling” [jedi principiante] na Academia Jedi; que frequentou, com seu pai, o Primeiro Templo Jedi, razão pela qual sonha com o lugar (e talvez a razão de ser especialmente poderosa); que foi secretamente abandonada em Jakku por Kylo Ren (quem não pôde matá-la e bloqueou sua memória); e que começou a “despertar” assim que ouviu BB-8 (talvez uma presença marcante na sua infância) pedir ajuda — de fato, o modo como Rey simplesmente grita “noma!” para Teedo e este sai docilmente andando, sem protestar ou lutar por BB-8, já parece uma forma rudimentar e inconsciente de controle mental: não estaria ela, ao controlar o stormtrooper, apenas entendendo (e então fazendo melhor) algo que fez espontaneamente pela vida inteira? Não é esse o sentindo de Maz lhe dizer que “a luz… sempre esteve ali”? E nessa hipótese, claro, Rey já teria um mínimo de habilidade com sabres de luz — sua roupa, quando deixada em Jakku, sugere exatamente isso:

O fato de ela carregar um bastão — e de saber usá-lo muito bem em combate — poderia mesmo ser um modo inconsciente de Rey dar vazão à habilidade que começou a dominar na Academia. Que ela teve a memória bloqueada é, de qualquer modo, muito provável: se é filha de Luke, alguém que ela agora pensa ser “um mito”, então obviamente esqueceu do fato. E se foi mesmo Kylo quem bloqueou sua memória, tal bloqueio começou a rapidamente entrar em colapso após o reencontro (mental) deles.

Tudo isso tornaria o controverso duelo entre eles bastante aceitável. Kylo Ren sequer estava tentando machucar Rey, afinal: queria apenas levá-la até Snoke para ser treinada “nos caminhos da Força”. Ainda assim a valente heroína não pôde fazer mais do que se defender e fugir durante a primeira metade do duelo. O que ocorre quando ela consegue enfim dominar a situação e derrotar Kylo? Talvez seja apenas o estado lastimável dele e o fabuloso passado e poder (crescente) dela. E talvez seja algo mais… notaram como Rey, após se concentrar na Força, de repente adota uma atitude agressiva, muito similar à atitude que leva Luke a derrotar Darth Vader em O Retorno de Jedi?

A “vitória” de Rey não seria, antes, seu primeiro passo na trilha para o Lado Negro? Seu tão repentino sucesso não teria sido apenas o resultado de ela escolher o caminho “mais rápido, mais fácil e sedutor”? E não era exatamente isso o que Kylo Ren queria? Tudo isso parece demasiado especulativo, eu sei, mas eu não seguiria essa linha de argumentação sem um motivo especial: tanto o roteiro original como a novelização do filme, em suas descrições dos momentos finais do duelo, parecem apoiar essa interpretação da cena…

Roteiro: “Ela poderia matá-lo — ali mesmo, com um golpe perverso! Mas ela se detém, percebendo estar em uma divisa maior até mesmo que aquela do penhasco — a divisa do Lado Negro.”

Novelização: Mate-o, disse uma voz dentro de sua cabeça: era amorfa, não identificável, bruta. Pura emoção vingativa. Tão fácil, ela disse a si mesma. Tão rápido. Ela recuou daquilo. Do Lado Negro.”

O que significam essas descrições? Por que ficam tão implícitas na versão final do filme, a ponto de quase desaparecerem? O fato é: por qualquer razão que ainda será propriamente explicada, Rey é extremamente poderosa. Mas uma heroína que atinge esse ponto tão facilmente, já no primeiro filme de uma série, não faz sentido. A menos que a trilha de Rey seja outra… É notável que o recente trailer da série animada Star Wars Rebels (em sua primeira fase posterior ao lançamento de O Despertar da Força) traga uma mensagem muito clara: um Inquisidor nota que “o poder dos jedi está crescendo”, ao que Darth Vader conclui: “essa será sua ruína”. E então Yoda diz ao protagonista: “crescendo suas habilidades estão… e com elas, o perigo”. Rey irá para o Lado Negro? Eu, ao menos, adoraria: isso certamente daria profundidade, em retrospecto, à perfeição de outro modo gratuita que a personagem tem neste Episódio VII, além de ter outra ótima consequência: Finn quem começa de modo tão modesto quanto Luke no Episódio IV seria o grande herói da trilogia.

Se os realizadores seguirão esse caminho, ou algum outro muito diferente, é algo que possivelmente nem eles sabem muito bem à essa altura (enquanto escrevo, o roteiro do Episódio VIII está sendo reescrito). Como diz Yoda, “o futuro sempre em movimento está”. Mas isso torna dificílimo avaliar propriamente O Despertar da Força: com exceção da indesculpável terceira Estrela da Morte, todas as grandes falhas do filme podem vir a se revelar grandes acertos intencionais. E se não há coincidências, afinal? E se os poderes de Rey “o despertar da força” tiverem uma grande explicação? E se sua perfeição for apenas a sua maior fraqueza e tendência para o Lado Negro? E se o roteiro amplamente derivado de Uma Nova Esperança for tão ressignificado pelas continuações que se mostre, em retrospecto, um toque de gênio para manipular as expectativas do público?

E se nada disso ocorrer e este filme for tão desastroso quanto parece?

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Qual, enfim, minha nota para O Despertar da Força? As 4700 resenhas no Metacritic refletem perfeitamente o meu conflito interior:

A preocupação é legítima: dependendo de quão levianamente as continuações vão lidar com as colossais pontas soltas e estranhezas deste filme, podemos ter visto o princípio da destruição da lógica interna de Star Wars (e dado o fim do Lost de J. J. Abrams, I have a bad feeling about this)… Você pode entender por que 25 mil fãs já se apressaram em assinar essa petição pedindo a volta de George Lucas. Contudo, vou supor que o efeito das continuações ficará pelo menos entre o razoável e o muito bom, salvando O Despertar da Força de atropelar os seis filmes anteriores. Nesse caso, dadas as enormes qualidades do novo filme, a minha grande dúvida — que venho carregando desde que saí do cinema — é se ele é melhor ou pior do que A Vingança dos Sith… lembre, minha lista original é:

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————Ep. V  ————O Império Contra-Ataca  ————9.3
————Ep. III  ————A Vingança dos Sith  ————8.5
————Ep. VI  ————O Retorno de Jedi  ————8.0
————Ep. IV  ————Uma Nova Esperança  ————7.8
————Ep. II  ————O Ataque dos Clones  ————7.5
————Ep. I  ————A Ameaça Fantasma  ————6.8

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E o Metacritic para A Vingança dos Sith também reflete minhas impressões (se não a exata nota):

Tudo o que eu sei, portanto, é que O Despertar da Força está pouco abaixo ou pouco acima do Episódio III. Sem as continuações, minha nota provisória para o filme é — ouso apelar para uma pedante violação da lógica clássica — um indefinidoentre-8.2-e-8.8’…

Isso, repito, apenas se a continuação fizer sua parte.

Ajude-nos, Rian Johnson. Você é nossa única esperança.

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em Antiutopia

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  • Darth.Luiz

    Bom texto. Concordo com muitas coisas e discordo grandiosamente de outras.

    É importante que se tenha em mente que um filme serve pra contar uma história, não importa se a história vai ter continuação ou não. O “certo” em um filme é ele se sustentar e o Episódio VII não se sustenta em quase nada, enquanto que cada um dos outros seis episódios são seis filmes com histórias diferentes, que juntas, se tornam a saga (ou a grande história) contada em 6 partes.
    Não existem problemas em deixar pontas soltas, até porque sabemos que se trata de uma série de filmes que provavelmente não vai acabar pelas próximas décadas, mas no caso do Episódio VII ele não se segura em nada, ele está simplesmente ali para agradar essa grande parcela do público que odeia a Nova Trilogia e que aceitou cegamente a “força-tarefa” (falo mais sobre isso abaixo) da Disney, que falou sobre o filme como o “Star Wars que vai reconquistar os grandes fãs e “reacender” a paixão pela saga”.

    Tirando o fato de que o Universo Expandido de qualquer saga ou franquia deve servir apenas como complemento, e não como explicação ou justificativa para uma história fraca e preguiçosa de um filme, e muito menos entrevistas; o J.J.Abrams deu essa explicação porque viu que as pessoas não foram alheias ao “papel” de R2-D2 após assistirem o filme.

    Não li nenhum livro desse novo cânone e não sei se vou ler, por conta de dinheiro e tempo, afinal, estão lançando muita coisa; e ninguém deve ter que recorrer a qualquer coisa fora da sala de cinema para poder entender direito o que se passa e não ter a sensação de ter sido enganado durante as 2 horas que esteve prestando atenção ao que se passava na tela. Por essas e outras, o Episódio 7 é o mais fraco dos filmes da franquia.
    Estou colocando fé no Rian Johnson, pois acho que ele vai fazer um ótimo trabalho e, quem sabe, fazer um dos melhores filmes da saga.

    Sobre a “força-tarefa” da Disney: Ridículo o modo como o J.J.Abrams e o Simon Pegg, e até o Spielberg, por exemplo, se referiam ao filme como algo que seria “o máximo de Star Wars”. As palavras são minhas, mas era o que eles queriam dizer, de uma forma geral. E então o filme é lançado e é revelado que não passava de propagando enganosa mesmo, a não ser para os que só queriam sentir o gosto da nostalgia mesmo e não se importavam com mais nada. Eles pintaram a imagem patética deles mesmos.
    A coisa fica mais feia ainda quando todo mundo aplaude o J.J dizendo que queria enterrar o esqueleto do Jar-Jar no deserto e o Pegg dizendo não respeitar quem considera qualquer filme da Nova Trilogia bom e quando o George Lucas mostra a sua insatisfação e responde a altura, usando um termo de forma incorreta sobre a Disney, todo mundo faz daquilo um estardalhaço totalmente desnecessário. O mundo é patético mesmo. Mas sobre essas situações, já é outra história.

    Adorei muitas coisas no filme. Como o Kylo Ren e os “ataques” dele, quando ele tira a máscara e se mostra cru do jeito mais “natural”, como todo ser humano costuma ser.
    Não achei a Rey um problema, desde que fique claro que ela já teve contato suficiente com a Força e com treinamento Jedi antes; só não achei a atuação dela tudo isso, em alguns momentos da raiva da cara de “pena” que ela faz de si mesmo, a personagem parece se fazer de coitada por dentro, como na cena final do filme ou aquele sorriso de satisfação ou tranquilidade que ela faz pra Leia.
    A entrada do C-3PO foi memorável, muito bem colocada.

    E pra falar do resto, ficaria um texto enorme.

  • Fal e Caio (e Carlos), muito obrigado. 😉 É realmente tentador pensar que Kylo e Rey são irmãos, em vez de primos. Mas nem sei como começar a dar sentido a essa hipótese, dados os eventos do filme. Parece-me que qualquer explicação seria fraca demais: Maz Kanata, afinal, diz que a família de Rey não voltará mais — no caso de ela ser filha de Luke, isso sem dúvida significa que a mãe dela morreu (pode mesmo ser o túmulo que Luke parece estar olhando no final do filme). Mas é difícil ver o que isso significa se Rey é filha de Han e Leia. Entre outros problemas (se Han reconhece a filha, longamente desaparecida ou mesmo dada como morta, sua reação não parece fazer sentido).

  • Caio Butkowsky

    Nossa, que texto incrível. Tirou as palavras da minha boca na maior parte da análise, e adicionou alguns pontos que eu tinha deixado passar haha. Tô muito ansioso pelo episódio VIII, as lacunas(propositais) serão obviamente preenchidas nele ou na ultima parte da trilogia. Eles tem um terreno extremamente fértil pra poderem criar oque bem entenderem, mas há o risco de cagarem tudo se as explicações não forem convincentes. Abraço

  • Fal

    Fantástica análise. Concordo em muitas coisas contigo, exceto ao parentesco de Rey e Luke. Acham que são tio e sobrinha.
    Rey deve ser filha de Han e Leia. Talvez a destruição do templo jedi de Luke por Kylo não seja o único motivo da separação de Han e Leia. Talvez o fato deles acharem que ele fora capaz de matar a irmã no processo (por isso não reconhecê-la agora, apesar de Han parecer saber quem ela é, ou desconfiar…) também tenha contribuído para a separação dos dois. Talvez não reconhecê-la faz parte do plano de mantê-la protegida.
    Kylo parece perceber quem é ela. E um é tão poderoso na Força quanto o outro. Genética talvez. E talvez também o motivo dela ter ganho o combate com ele. Kylo já havia matado o pai, estava machucado em vários níveis. Matar também a irmã na sequência seria um pouco demais para quem nem tinha digerido o ato anterior.
    O fato é que só nos resta esperar ansiosamente por Star Wars VIII. Particularmente estou contando os dias.
    Parabéns pelo texto. Muito, muito bom.

  • Carlos E Santos

    Meus parabéns pelo excelente trabalho realizado. O filme apresenta várias possibilidades.Tenho por mim que a Rey, maior mistério do filme, é uma Skywalker, irmão do Kylo Ren, mas apenas por achismo mesmo.

  • Senna

    Meus parabéns pela analise! Concordo em muitos pontos com vc, como a exemplo da trilogia original deixou pontas soltas que foram aos poucos respondidas ( de maneira muita boa ao meu ver) tanto nos filmes seguintes como na própria trilogia nova.

    Ao meu ver muitos dos pontos “inconsistentes” do Ep VII serão ainda bem explicados nos filmes seguintes e que o único GRANDE ( e imperdoável) erro do tamanho de um planeta diga-se de passagem, foi de fato reutilizar a ideia da Death Star, mas que como bem dito por vc, era uma isca apelativa à nostalgia do publico ( o que nesse ponto não deu certo) falhas ocorrem, afinal temo Jar Jar na trilogia nova, e nem por isso ele estragou a trilogia toda.

    Quanto a paternidade da Rey, discordo que ela será a filha do Luke pois seria algo muito batido ( ” Rey , I’m you father….” ) , mas concordo que o destino deles já se cruzaram antes como mestre e aprendiz e que de fato ocorreu um bloqueio das memórias dela. Na Minha teoria, a Rey é o verdadeiro escolhido, talvez ela tenha nascido da força como anakin. Lembre-se que o Yoda sempre desconfiou da interpretação da lenda do escolhido e principalmente de que este se tratava de Anakin, que pode muito bem ter sido o “despertar do lado negro da força” tal qual a Rey será do lado da luz, ou mesmo seguindo a teoria de que anakin é uma anormalidade criada pelo darth plagueis ( no Ep III Sidious fala que seu mestre era capaz de manipular a força para criar vida) para destruir os jedis por dentro.

    Qualquer maneira, obrigado pelo seu texto!

    • E obrigado pela resposta! Sim, pode mesmo ser que Rey fosse apenas alguma aprendiz do Luke, e a ideia de ser “a verdadeira escolhida” (talvez dando inveja em Ben Solo durante o treinamento) é interessante. Eu realmente gostaria de que houvesse algo no Primeiro Templo Jedi (algo relacionado a forças antigas) capaz de explicar o poder extraordinário de Rey. Outra tese que evitei mencionar no texto, mas que quanto mais penso mais me pergunto se não vão inventar essa moda, é a de que Kylo Ren é uma espécie de “infiltrado” no Lado Negro; que na verdade ele é bom. Nesse caso ele teria apenas atingido Han Solo de modo não fatal (modo de convencer Snoke a completar seu treinamento). Não creio mesmo, parece forçado demais: seria trocar o certo (a morte pungente de Han, o passo épico de Kylo para o Dark Side) pelo duvidoso (um plot twist bizarro). Mas o fato é que Harrison Ford continua escalado para o Episódio 8 (no IMDB; sim, poderia ser uma mera gravação de holograma)… Como ele sobreviveria se o planeta explode? Queria poder dizer “impossível!”, mas ainda tem essa: a Capitã Phasma poderia resgatá-lo!

    • Senna

      O templo Jedi espero que seja tão transformador e revelador a rey como os pântanos de dagobah foi para Luke.
      Acho muito provável mesmo que aquela cara do Luke ao ver a rey era de uma cara de reencontro…. Mas seria muito batido usar a fórmula pai-filho de novo. Acredito que toda aquela conversa sobre a voz do Luke no trailer , falando sobre a relação com força na família dele, era voltada para o Ben Solo. Nossa , esperar EP VIII será algo torturante…

    • Bom, a novelização confirma que Luke sabia quem Rey era ao vê-la — isso não necessariamente implica que eles já se conhecessem, pois poderia se tratar de um tipo de “reconhecimento da Força” (como Vader percebendo quem Luke era), mas torna bem provável. E notou que Luke, no fim do filme, parece mesmo estar diante de um túmulo?

    • E Senna, me ocorreu um problema com a teoria da Rey como “a verdadeira escolhida”: a profecia é explícita sobre o Escolhido ser aquele que destruirá os Sith (Obi-Wan e Mace Windu conversando no Episódio III). E os Sith já estão mesmo extintos — podendo-se assim considerar que o Escolhido é mesmo Anakin Skywalker ou, no máximo, Luke.