A Linguagem Molda o Pensamento?

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A linguagem é ou cria o pensamento? Mito.
A linguagem distorce o pensamento? Mito.
Cada cultura nomeia as cores de um jeito? Mito.
A linguagem cria as distinções entre as cores? Mito.
Os esquimós têm 40 palavras para “neve”? Mito.
Os hopi desconhecem o conceito de “tempo”? Mito.

 

A Linguagem Molda o Pensamento?


por Steven Pinker

Psicólogo ● Linguista ● Cientista Cognitivo

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Trechos de O Instinto da Linguagem, 1994: 59-72
(Os títulos em CAIXA ALTA são acréscimos de Antiutopia)

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O pensamento depende das palavras? As pessoas literalmente pensam em inglês, cherokee, kivunjo, ou, por volta de 2050, em Novilíngua(*)? Ou será que nossos pensamentos se expressam por algum meio de comunicação silencioso do cérebro — uma linguagem do pensamento, ou “mentalês” — e só se revestem de palavras quando temos de comunicá-los a um ouvinte? Não há questão mais central para compreender o instinto da linguagem.

(*) Alusão ao controle linguístico do pensamento na obra 1984, de George Orwell.

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A LINGUAGEM DISTORCE O PENSAMENTO?

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Na maioria de nossos discursos sociais e políticos, as pessoas simplesmente partem do pressuposto de que as palavras determinam pensamentos. Inspiradas no ensaio de Orwell “Política e língua inglesa”, autoridades eruditas acusam governos de manipular nossas mentes com eufemismos como “pacificação” (bombardeio), “aumento de receita” (impostos), e “não-retenção” (despedir de um emprego). Filósofos argumentam que uma vez que os animais carecem de linguagem, devem também carecer de consciência — Wittgenstein escreveu: “Um cão não poderia pensar ‘talvez chova amanhã'” — e portanto não têm os mesmos direitos que os seres conscientes. Algumas feministas atribuem idéias sexistas à linguagem sexista, como o uso de “ele” para se referir a uma pessoa genérica. O surgimento de movimentos reformistas foi inevitável.

Surgiram muitas propostas para substituir he [ele] no correr dos anos, como E, hesh, po, tey, co, jhe, ve, xe, he’er, thon e na. O mais extremista desses movimentos é o chamado Semântica Geral, iniciado em 1933 pelo engenheiro conde Alfred Korzybski e popularizado em best-sellers por seus discípulos Stuart Chase e S. r. Hayakawa (…). A Semântica Geral atribui a loucura humana ao “dano semântico” que a estrutura da linguagem provoca no pensamento. Manter um homem de quarenta anos preso por um roubo que ele cometeu quando adolescente supõe que o John de quarenta anos e o John de dezoito são “a mesma pessoa”, um erro lógico cruel que poderia ser evitado se nos referíssemos a eles não como John mas como John1972 e John1994, respectivamente. O verbo “ser” é uma fonte particular de falta de lógica, porque identifica indivíduos com abstrações, como em “Mary é uma mulher”, e permite que se fuja à responsabilidade, como na não-confissão famosa de Ronald Reagan “Erros foram cometidos”. Há uma facção que pretende simplesmente erradicar o verbo.

Supostamente, tais afirmações têm fundamentação científica: a famosa hipótese Sapir-Whorf do determinismo lingüístico, segundo a qual os pensamentos das pessoas são determinados pelas categorias que a língua deles torna possíveis, e sua versão mais fraca, a relatividade lingüística, segundo a qual diferenças entre línguas causam diferenças nos pensamentos de seus falantes.

Mesmo aquelas pessoas que não se lembram de muito do que aprenderam na universidade conseguem papaguear os supostos fatos: as línguas que subdividem de modo diferente o espectro visível em palavras designativas de cores, o conceito fundamentalmente diferente de tempo dos Hopi, as dezenas de palavras esquimós para neve. Isso tem graves implicações: as categorias “básicas” da realidade não estão “no” mundo mas são impostas pela cultura (e portanto podem ser ameaçadas, o que talvez explique a eterna atração que a hipótese exerce sobre as sensibilidades com pouca formação acadêmica).

Mas isso é falso, completamente falso.

A idéia de que o pensamento seja a mesma coisa que a linguagem é um exemplo do que se pode chamar de absurdo convencional: uma afirmação totalmente contrária ao senso comum mas em que todos acreditam porque têm uma vaga lembrança de tê-la escutado em algum lugar e porque ela tem tantas implicações. (O “fato” de que usamos apenas cinco por cento de nosso cérebro, de que os lemingues cometem suicídio em massa, de que o Manual do Escoteiro vende todos os anos mais que todos os outros livros, e que podemos ser coagidos a comprar por meio de mensagens subliminares são outros exemplos.) Pense a respeito. Todos tivemos a experiência de enunciar ou escrever uma frase, parar e perceber que não era exatamente o que queríamos dizer. Para que haja esse sentimento, é preciso haver um “o que queríamos dizer” diferente do que dissemos. Nem sempre é fácil encontrar as palavras que expressam adequadamente um pensamento. Ao escutar ou ler, geralmente recordamos o ponto principal, não as palavras exatas, portanto deve haver algo como um ponto principal que é diferente de uma coleção de palavras. E se os pensamentos dependem das palavras, como poderia uma palavra nova ser forjada? Para começo de conversa, como uma criança poderia aprender uma palavra? Como poderia ser possível a tradução de uma língua para outra?

Os debates que partem da idéia de que a linguagem determina o pensamento só perduram devido a uma suspensão coletiva da dúvida. Um cão, dizia Bertrand Russell, pode não ser capaz de lhe dizer que seus pais, embora pobres, eram honestos, mas será que alguém pode realmente tirar disso a conclusão de que o cão é insensível? (Extremamente frio? Um zumbi?) (…). Quanto aos eufemismos dos governos, eles são desprezíveis não por serem uma forma de controle da mente, mas por serem uma forma de mentira. (Orwell foi bastante claro a esse respeito em seu excelente ensaio.)

Por exemplo, “aumento de receita” tem um sentido bem mais amplo que “impostos”, e os ouvintes supõem naturalmente que se um político quisesse dizer “impostos” ele teria dito “impostos”. Quando um eufemismo é denunciado, as pessoas não sofreram tamanha lavagem cerebral a ponto de não compreenderem o engodo (…).

Como veremos (…), não há evidências científicas de que uma língua molde de maneira decisiva o modo de pensar de seus falantes. Mas pretendo fazer mais do que apenas rever a história não intencionalmente cômica das tentativas de provar que as línguas fazem isso. A idéia de que as línguas moldam o pensar parecia plausível quando os cientistas nada sabiam sobre como funciona o pensamento ou como estudá-Ia. Agora que os cientistas cognitivos sabem pensar o pensar, é menor a tentação de igualá-lo à linguagem apenas porque as palavras são mais palpáveis que os pensamentos (…).

A hipótese do determinismo lingüístico está intimamente vinculada aos nomes de Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf. Sapir, brilhante lingüista, foi aluno do antropólogo Franz Boas. Boas e seus discípulos (entre os quais também se encontram Ruth Benedict e Margaret Mead) foram importantes intelectuais do século 20, por terem afirmado que povos não industrializados não eram selvagens primitivos mas tinham sistemas de linguagem, conhecimentos e culturas tão complexos e válidos no seu universo como os nossos. No seu estudo das línguas nativas americanas, Sapir percebeu que os falantes de línguas diferentes têm de prestar atenção a aspectos diferentes da realidade simplesmente para ordenar palavras em frases gramaticais. Por exemplo, quando falantes de língua inglesa decidem se devem pôr ou não pôr -ed no final de um verbo, têm de prestar atenção ao tempo verbal, o tempo relativo de ocorrência do fato a que eles se referem e ao momento da fala. Falantes de wintu não têm de se preocupar com o tempo verbal, mas, para decidir qual sufixo pôr em seus verbos, têm de prestar atenção ao fato do conhecimento que estão transmitindo ter sido aprendido por observação direta ou por ouvir dizer.

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DE ONDE VEM TANTA CONFUSÃO?

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A interessante observação de Sapir foi logo ampliada. Whorf era inspetor da Companhia Hartford de Seguros contra Incêndio e estudioso amador das línguas nativas americanas, o que o levou a freqüentar cursos de Sapir em Yale. Numa passagem muitas vezes citada, ele escreveu:

Dissecamos a natureza ao longo de linhas estabelecidas por nossas línguas nativas. Não encontramos as categorias e tipos que isolamos no mundo dos fenômenos porque eles são evidentes para qualquer observador; pelo contrário, o mundo se apresenta num fluxo caleidoscópico de impressões que têm de ser organizadas por nossas mentes — ou seja, em grande medida pelos sistemas lingüísticos existentes em nossas mentes. Seccionamos a natureza, a organizamos em conceitos e atribuímos significados da maneira como o fazemos, sobretudo porque concordamos em organizá-la dessa maneira — acordo este que se impõe a toda a nossa comunidade lingüística e está codificado nos padrões de nossa língua. Trata-se, evidentemente, de um acordo implícito e não formulado, mas seus termos são absolutamente obrigatórios; só podemos falar se nos submetermos à organização e classificação dos dados decretadas por esse acordo.

O que levou Whorf a essa posição radical? Nas suas próprias palavras, a idéia ocorreu-lhe pela primeira vez quando, trabalhando como engenheiro de prevenção de incêndios, percebeu como a língua levava os trabalhadores a compreender de modo equivocado situações perigosas. Por exemplo, um operário provocou uma grave explosão ao atirar um cigarro num tambor “vazio” que na verdade estava cheio de vapor de gasolina. Outro acendeu um maçarico perto de uma “poça de água” que na verdade era uma bacia de resíduos de curtume em decomposição, que, longe de ser “aquosa”, desprendia gases inflamáveis. Os estudos que Whorf fez das línguas americanas fortaleceu sua convicção. Por exemplo, em apache, “Esta primavera está chuvosa” tem de ser expresso “Como água, ou primaveras, a brancura move-se para baixo”. “Como esse modo de pensar é diferente do nosso!” escreveu ele.

No entanto, quanto mais examinamos os argumentos de Whorf, menos sentido eles fazem.

Tomemos a história do operário e o tambor “vazio”. O germe do desastre encontra-se supostamente na semântica de “vazio”, que, dizia Whorf, significa tanto “sem seu conteúdo habitual” como “nulo, vazio, inerte”. O infeliz operário, com sua concepção da realidade moldada por suas categorias lingüísticas, não distinguiu entre os significados de “seco” e “inerte”, e então, um piparote e… bum!

Um momento, por favor. Vapor de gasolina é invisível. Um tambor contendo apenas vapor tem exatamente a mesma aparência de um tambor sem nada dentro. Essa catástrofe ambulante foi certamente enganada pelos olhos, não pela língua inglesa. O exemplo da brancura que se move para baixo supostamente demonstra que a mente apache não secciona os fatos em objetos e ações distintos. Whorf apresentou muitos exemplos como esse de línguas nativas americanas. O equivalente apache de “O barco está encalhado na praia” é “Ele está na praia a pique em conseqüência de um movimento de canoa”. “Ele convida pessoas para uma festa” torna-se “Ele, ou alguém, vai atrás de comedores de alimento cozido”. “Ele limpa a arma com uma vareta” traduz-se por “Ele dirige um lugar seco e oco que se move por movimento de ferramenta”. Isso tudo, é claro, é muito diferente do nosso modo de falar. Mas como sabemos que é muito diferente de nosso modo de pensar?

Logo que os artigos de Whorf apareceram, os psicolingüistas Eric Lenneberg e Roger Brown apontaram dois non sequiturs na sua tese. Em primeiro lugar, Whorf na verdade nunca estudou nenhum apache; ninguém sabe se ele algum dia viu algum. Suas asserções sobre a psicologia apache baseiam-se totalmente na gramática apache — o que torna sua argumentação circular: apaches falam de maneira diferente, portanto devem pensar de maneira diferente. Como sabemos que pensam de maneira diferente? Basta escutar a maneira como falam!

Em segundo lugar, Whorf fez uma tradução deselegante, palavra por palavra das frases, de modo a fazer com que o sentido literal parecesse o mais estranho possível. Mas, olhando para as glosas que Whorf forneceu, eu poderia, de modo igualmente justificado em termos gramaticais, traduzir a primeira frase como o mundano “Coisa clara — água — está caindo”. Virando a mesa, eu poderia tomar a frase inglesa “He walks” [Ele anda] e transpô-la em “As solitary masculinity, leggedness proceeds” [Enquanto solitária masculinidade, dotado de pernas avança] (…).

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CADA CULTURA NOMEIA AS CORES DE UM JEITO?
A LINGUAGEM CRIA AS DISTINÇÕES ENTRE AS CORES?

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Dentre “o fluxo caleidoscópico de impressões” de Whorf, a cor é decerto a que mais atrai a atenção. Segundo ele, vemos objetos com diferentes matizes, dependendo do comprimento de onda da luz que eles refletem, mas os físicos nos dizem que o comprimento de onda é uma dimensão contínua com nada que demarque vermelho, amarelo, verde, azul etc. As línguas diferem em seu inventário de palavras para as cores: em latim não existem o “cinza” e o “marrom” comuns; a língua navajo junta azul e verde numa única palavra; o russo tem palavras distintas para azul-escuro e azul-celeste; os falantes de Shona empregam uma só palavra para os verdes amarelados e os amarelos esverdeados, e outra para os verdes azulados e os azuis não-arroxeados. Se quiserem, podem completar o resto do raciocínio: é a linguagem que coloca divisões no espectro; Júlio César confundiria alhos com bugalhos.

Embora para os físicos a separação entre cores não tenha fundamento, para os fisiologistas ela tem. Os olhos não registram os comprimentos de onda da mesma maneira como um termômetro registra temperatura. Neles existem três tipos de cones, cada um com um pigmento diferente, e os cones estão ligados aos neurônios de um modo que faz com que os neurônios respondam melhor a manchas vermelhas sobre um fundo verde ou vice-versa, azul sobre amarelo, preto sobre branco. Por maior que seja a influência da língua, para um fisiologista seria ridículo pensar que ela poderia atingir a retina e modificar as ligações entre as células ganglionares.

Na verdade, os seres humanos do mundo inteiro (assim como os bebês e os macacos, no que a isso se refere) colorem as palavras relacionadas com a percepção usando a mesma paleta, e isso limita o vocabulário que eles desenvolvem. Embora as línguas discordem sobre o conteúdo da caixa com sessenta e quatro lápis de cor — os vários tons de umbra, os turquesas, os fúcsias —, concordam muito mais quanto à caixa de oito cores — os vermelhos de carro de bombeiro, os amarelos-limão da grama. Falantes de diferentes línguas unanimemente consideram esses tons os melhores exemplos de suas palavras para cor, desde que a língua tenha uma palavra para a cor desse setor do espectro. E, quando as línguas diferem nas suas palavras para as cores, diferem de forma previsível, e não de acordo com o gosto idiossincrático de algum cunhador de palavras. As línguas estão organizadas mais ou menos como a linha de produtos Crayola, das cores mais básicas às mais estranhas. Se uma língua tiver apenas duas palavras para cor, serão para designar preto e branco (que geralmente abrange escuro e claro, respectivamente). Se tiver três, serão para designar preto, branco e vermelho; se tiver quatro, preto, branco, vermelho e/ou amarelo, ou verde. Com cinco, incluirá verde e amarelo; seis, azul; sete, marrom; mais que sete, roxo, rosa, laranja ou cinza.

Mas o experimento decisivo foi realizado no planalto da Nova Guiné com os Dani do Grande Vale, um povo que fala uma das línguas preto-e-branco. A psicóloga Eleanor Rosch descobriu que os Dani aprendiam mais rápido uma nova categoria de cor baseada no vermelho do que uma categoria baseada em outra cor. A maneira como vemos cores determina como aprendemos as palavras para elas e não o contrário.

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OS HOPI DESCONHECEM O CONCEITO DE “TEMPO”?

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A concepção fundamentalmente diferente que os Hopi têm do tempo é uma das mais chocantes afirmações de como a mente pode variar. Whorf escreve que a língua dos Hopi não contém “palavras, formas, construções ou expressões gramaticais para se referir diretamente àquilo que chamamos ‘tempo’, ou ao passado, futuro, ou à duração”. Sugeriu, também, que os Hopi não tinham “nenhuma noção ou intuição geral do TEMPO como um contínuo que flui suavemente, no qual tudo que existe no universo avança à mesma velocidade, afastando-se de um futuro, através de um presente, rumo a um passado”. De acordo com Whorf, não conceituavam os acontecimentos como sendo pontos, ou períodos de tempo como dias, como coisas contáveis. Pelo contrário, pareciam se concentrar na mudança e no processo, e em distinções psicológicas entre presentemente conhecido, mítico e conjecturalmente distante. Os hopis também tinham pouco interesse por “seqüências exatas, datas, calendários, cronologia”.

Portanto, o que fazer com a seguinte frase traduzida do hopi?

Então, de fato, no dia seguinte, de manhã bem cedo, na hora em que as pessoas rezam para o sol, por volta daquela hora então ele acordou a menina de novo.

Talvez os Hopi não sejam tão indiferentes ao tempo como Whorf os retratou. Em seu minucioso estudo sobre os Hopi, o antropólogo Ekkehart Malotki, que transcreveu a frase acima, mostrou também que a fala dos Hopi contém tempos verbais, metáforas para tempo, unidades de tempo (incluindo dias, números de dias, partes do dia, ontem e amanhã, dias da semana, semanas, meses, fases lunares, estações e o ano), maneiras de quantificar unidades de tempo e palavras como “antigo”, “rápido”, “muito tempo” e “terminado”. Por métodos sofisticados, a cultura deles mantém registros de datas, inclusive um calendário solar baseado no horizonte, seqüências exatas de dias sagrados, cordões com nós, paus com entalhes, que servem de calendário, e vários instrumentos para medir o tempo usando o princípio do quadrante solar. Ninguém sabe com certeza de onde Whorf tirou suas estranhas afirmações, mas sua amostra limitada e mal analisada da fala Hopi, e sua velha afeição pelo misticismo devem ter contribuído.

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OS ESQUIMÓS TÊM 40 PALAVRAS PARA “NEVE”?

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Falando de balelas antropológicas, nenhuma discussão sobre linguagem e pensamento estaria completa sem a Grande Farsa do Vocabulário Esquimó. Contrariando a crença popular, os esquimós não têm mais palavras para neve do que as pessoas que falam inglês. Não têm quatrocentas palavras para neve, como foi dito na imprensa, ou duzentas, ou cem, ou quarenta e oito, ou mesmo nove. Um dicionário menciona duas. Se forem generosos, especialistas poderiam chegar a doze, mas com esses critérios o inglês não ficaria muito para trás, com snow, súet, slush, blizzard, avalanche, hail, hardpack, powder,jlurry, dusting, e a palavra snizzling, cunhada pelo meteorologista da QTBZ-TV de Boston, Bruce Schwoegler.

Como surgiu esse mito? De ninguém que tenha de fato estudado as famílias yupiks e inuit-inupiaqs de línguas polissintéticas faladas desde a Sibéria até a Groenlândia. A antropóloga Laura Martin pesquisou e documentou como essa história ganhou dimensões de lenda urbana, sendo ampliada a cada relato. Em 1911, Boas mencionou por acaso que os esquimós empregavam quatro raízes diferentes para neve. Whorf abrilhantou o conto com sete, deixando implícito que havia mais. Seu artigo foi amplamente difundido, depois citado em manuais e livros de divulgação sobre linguagem, o que provocou estimativas cada vez mais inchadas em outros manuais, artigos e colunas de jornais no estilo de “Você sabia que..:”.

O lingüista Geoffrey Pullum, que divulgou o artigo de Martin em seu ensaio A Grande Farsa do Vocabulário Esquimó, tece hipóteses de por que a história fugiu tanto ao controle:

A alegada extravagância léxica dos esquimós combina muito bem com as muitas outras facetas da perversidade polissintética deles: esfregar os narizes; emprestar as esposas para os estrangeiros; comer gordura crua de foca; deixar a vovó abandonada para ser comida pelos ursos polares.

Que irônica deturpação! A relatividade lingüística é um produto da escola de Boas, como parte de uma campanha para mostrar que culturas não letradas eram tão complexas e sofisticadas como as européias. No entanto, as anedotas supostamente destinadas a ampliar as idéias devem seu caráter atraente a uma sensação de superioridade que leva a tratar a psicologia de outras culturas como estranhas e exóticas em comparação com a nossa. Como afirma Pullum:

Um dos vários aspectos deprimentes dessa transmissão crédula e do desenvolvimento de uma afirmação falsa é que mesmo que houvesse um grande número de raízes para diferentes tipos de neve em alguma língua ártica, objetivamente isso não seria intelectualmente interessante; seria um fato mundano e de pouca importância. Criadores de cavalos têm vários nomes para raças, tamanhos e idades de cavalos; botânicos têm nomes para formas de folhas; decoradores de interiores têm nomes para tons de lilás; impressores têm muitos nomes diferentes para fontes (Carlson, Garamond, Helvética, Times Roman etc.), como é natural… Será que alguém pensaria em escrever sobre impressores o mesmo tipo de porcarias que encontramos escritas sobre os esquimós em maus manuais de lingüística? Tomem [o seguinte] manual escolhido ao acaso…, com sua mais grave afirmação:

“É óbvio que na cultura dos esquimós… a neve tem suficiente importância para dividir a esfera conceitual que corresponde a uma palavra e uma idéia em inglês em várias classes distintas…”

Imaginem-se lendo:

“É óbvio que na cultura dos impressores… a fonte tem suficiente importância para dividir a esfera conceitual que corresponde a uma palavra e uma idéia para os não impressores em várias classes distintas…”

Maçante, mesmo que fosse verdade. Somente o vínculo com esses caçadores lendários, promíscuos, comedores de gordura das regiões de gelos flutuantes permite que algo tão vulgar nos seja oferecido à contemplação.

Se as anedotas antropológicas são mistificações, o que dizer dos estudos controlados? Os trinta e cinco anos de pesquisas do laboratório de psicologia destacam-se pelo pouco que revelaram [ao testar “meras versões ‘fracas’ da hipótese whorfiana”]…

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em Antiutopia

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