Moralidade: A Principal Causa da Violência

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Moralidade: A Principal Causa da Violência

Review de Virtuous Violence, de Alan P. Fiske & Tage S. Rai


por Lauro Edison

 

 

Você tem todo o direito moral de matar uma pessoa aleatória — para superar uma enorme perda,  para se livrar de uma profunda cólera, para recuperar seu equilíbrio. Basta para isso que você seja um dos Huaorani da Amazônia, no Equador.(236), ou um dos Ilongotes das Filipinas.(232), entre outros, e que alguém muito querido seu tenha morrido por qualquer razão: acidente, doença, guerra, velhice. Assim como é natural para muitos de nós, quando enraivecidos, estilhaçar na parede o primeiro objeto quebrável que cruzar nosso caminho, em tais povos qualquer um entenderá sua raiva e desespero, e sua necessidade de matar alguém em resposta, como uma forma — compreensível, nobre, admirável — de demonstrar profundo amor e genuíno luto por quem se foi, de reparar uma espécie de injustiça do Universo contra si: uma vida por uma vida. “Eles sentem que uma pessoa tem o direito de reassumir o controle, e julgam que matar é a maneira ideal de fazer isso”. Pois ser vitimado pela morte de alguém próximo “priva os sobreviventes do controle a que eles moralmente têm direito — é uma afronta moral”(237). O antropólogo Renato Rosaldo conta, perplexo:

Se você perguntar a um velho homem Ilongote do norte de Luzon, nas Filipinas, por que ele corta cabeças humanas, sua resposta é breve, e tal que nenhum antropólogo pode elaborar facilmente: Ele diz que a raiva, nascida do sofrimento de perder alguém [grief], o impele a matar seus semelhantes. Ele afirma que ele precisa de um lugar “para onde levar sua raiva”. O ato de cortar e jogar fora a cabeça da vítima permite-lhe, diz ele, desabafar e, ele espera, se livrar da raiva do luto.

Rosaldo 1989: Grief and a Headhunter’s Rage (pdf)

Não só isso mas “…Huaoranis, Ilongotes e outros homens não apenas têm o direito moral de matar qualquer um para escapar, ou antes transcender, o desespero paralizante da perda, para reafirmar-se contra a terrível derrota que é a morte — antes, isso é o que todos julgam que os homens devem fazer, o que precisam fazer(237). Eis o quão grosseira, despropositada e atroz nossa moralidade natural consegue ser.

Ou considere essa passagem, citada pelos mesmos autores num artigo anterior ao livro:

Em 2006, Zahra al-Azzo foi sequestrada e estuprada perto de sua casa em Damasco, Síria. Após ela retornar em segurança, seu irmão mais velho a esfaqueou e a matou durante o sono. Em resposta a ele tê-la matado, a família de Zahra realizou uma grande festa naquela noite. De acordo com o Fundo de Populações das Nações Unidas, 5000 ‘crimes de honra’ semelhantes ocorrem a cada ano.

Zoepf 2007, citado em Fiske & Rai 2011: Moral Psychology Is Relationship Regulation (pdf)

Lançado no início de 2015, o provocante Virtuous Violence, do antropólogo Alan Page Fiske e do cientista social Tage Shakti Rai, defende a tese de que a maior parte da violência é moralmente motivada: seus perpetradores se sentem do lado do bem; se sentem fazendo o que é correto; se sentem justificados; se sentem investidos de direitos morais; se sentem altruístas agindo em nome da justiça, do bem coletivo, do cumprimento do dever, da nobreza heroica ou da sagrada honra da família ou da tribo. Surpreendente? Talvez devesse ser esperado: como diz o cientista cognitivo Steven Pinker, que escreve o prefácio do livro, “o senso moral humano é capaz de desculpar qualquer atrocidade na mente de quem a comete, e isso lhe fornece razões para atos de violência que não lhe trazem qualquer benefício tangível”.

E parece mesmo que “qualquer atrocidade” significa qualquer atrocidade: é o senso moral humano que está por trás punições cruéis e ciclos de vingança [Capítulo 3]; ou de violência autoritária entre militares, ou de pais contra crianças, governantes contra governados, lideranças religiosas contra devotos, policiais contra criminosos, além de surreais julgamentos (de culpabilidade) por combate, afogamento ou envenenamento — onde morrer é tido como prova de culpa [4]; ou de competições violentas ou fatais por honra, seja entre adolescentes, cavaleiros medievais, membros de gangues, esportistas, rivais românticos ou seguidores de divindades antagônicas [5]; também se contam as diversas e terríveis formas de violência em culturas de honra [6], sejam destinadas a defender a reputação (própria ou de pessoas próximas), a proteger a “virtude” feminina ou a “honra” familiar, incluindo duelos mortais, ou matar em resposta a pequenos insultos, ou o infanticídio de filhos “ilegítimos” e até, como vimos, o assassinato de mulheres estupradas… ou não estupradas, mas meramente cuja castidade tenha sido minimamente posta em dúvida: “só a morte da mulher pode restaurar a honra da família [perante a comunidade], então algum homem da família precisa matá-la. É uma necessidade moral fundamental”(83); “matar uma mulher que envergonhou a família declara o compromisso total da família com a honra — mostra que a família desistirá do que mais ama para aderir à moral fundamental do código de honra”(264).

Também é o senso moral que está por trás de muitas guerras [7], motivadas na grande maioria dos casos por honra nacionalista, vingança, percepção de transgressão moral cometida por povos inimigos (como o Islã contra o Ocidente “libertino”) ou um senso de posição hierárquica violada — as guerras travadas amoralmente “por interesse” não passando de 7%, e as travadas racionalmente “por segurança”, 18%.(94); ainda na conta da moralidade, claro, está toda a atrocidade de milênios envolvendo genocídios, guerras santas, sacrifícios animais e humanos, castração masculina e infibulação feminina, suicídio e autoflagelação, escravidão, perseguição e tortura: tudo em nome da moral religiosa, da obediência à autoridade de Deus — muitas vezes tido como “onibenevolente” [8].

Por fim, de forma mais surpreendente e polêmica, mas persuasiva, no livro também se incluem as “práticas violentas que são mais difíceis para nossos colegas aceitarem como sendo moralmente motivadas, incluindo tortura, homicídio, suicídio, violência étnica, violência doméstica, estupro, mutilação corporal, violência no luto [como vimos] e roubo”(133), casos cobertos, um por capítulo, ao longo da segunda metade do livro.

Tomemos, por exemplo, o caso da violência doméstica: “Quando uma esposa subordinada não cumpre adequadamente seus deveres, seu senhor [master] pode sentir que tem o total direito de bater nela e que, de fato, o futuro da relação depende de ele administrar a punição apropriada. Em várias culturas, a honra dos homens depende do seu controle e domínio sobre ‘suas’ mulheres, de modo que os homens têm direito de, e é esperado deles, usar violência para controlar e dominar”(164). Para quem tem a sorte de respirar o anômalo ar do mundo moderno, inteligente e civilizado, chega a ser incompreensível que um marido possa bater na esposa por razões morais; mas o mundo de hoje não é tão evoluído assim, e um tipo de violência autoritária “benevolente” com a exata mesma psicologia subjacente continua sendo tolerado e até defendido com entusiasmo moral pela maioria: a saber, o “dever” de os pais agredirem os filhos. Em The Anatomy of Violence, Adrian Raine conta o resultado de fazer uma pesquisa com 622 estudantes de graduação em Hong Kong:

Eles não eram todos filhos de ricos, de modo algum, mas eram das classes privilegiadas em grande parte. (…) perguntei-lhes como seus pais lidavam com os conflitos antes de eles terem onze anos — antes que eles pudessem se transformar em adolescentes problemáticos. (…) 51% admitiram que seus pais os atingiriam com um objeto; 40% foram fisicamente espancadas; 6% haviam de fato sido sufocadas, enquanto 5% tinham sido deliberadamente queimadas ou escaldadas; 7% tinham mesmo sido ameaçadas com uma faca ou arma. Em todos os casos foram os seus próprios pais que perpetraram o abuso. (…) E estas são as crianças em melhor situação social. Deus sabe o que estava acontecendo — e ainda está acontecendo — às crianças de casas muito mais pobres em Hong Kong. (2014: capítulo 3)

Mesmo nos Estados Unidos a situação, embora bem melhor, continua sendo essencialmente surreal por qualquer critério objetivo:

Em contraste com a crescente desaprovação da violência contra as mulheres, as sanções sociais favoráveis à violência contra crianças ainda são fortes nos Estados Unidos, [onde] é contra a lei bater em prisioneiros, criminosos ou outros adultos. Ironicamente, os únicos humanos nos quais se pode legalmente bater são os membros mais vulneráveis da nossa sociedade — aqueles que somos encarregados de proteger — as crianças.

Michele Knox 2010: On Hitting Children: A Review of Corporal Punishment in the United States (pdf)

Como a violência doméstica pode agora ser repulsiva no caso das mulheres mas ainda tolerada, e de fato defendida, no caso das crianças? É que aqui a maioria continua imersa na poderosa (e natural) narrativa moral de que a sagrada autoridade paterna, esse fardo altruísta, precisa ser reforçada através da punição corporal: a punição é absolutamente “para o bem” dos filhos, tendo um efeito educativo da mais alta importância. Fiske e Rai informam: “em várias amostras nacionais representativas de americanos contemporâneos, 94% dos pais de crianças de 3 a 5 anos relataram ter batido em seus filhos no ano anterior… Em 1968, 94% dos americanos acreditavam que ‘uma boa e forte sova [a good hard spanking] é às vezes necessária’, e na década de 1990 mais de dois terços ainda acreditavam nisso”(44).

Nesse ponto cabe lembrar do instrutivo caso de 2015, aqui no Brasil, onde o prefeito de Piracanjuba, Amauri Ribeiro, espancou a filha de 15 anos após encontrar fotos íntimas em seu celular, justificando o ato em vídeo: “qualquer pai que tenha amor pela moral e zelo pela sua família teria se desesperado ao ver o que eu vi”. Nem o fato de a garota ter divulgado fotos das próprias lesões, provando que a agressão foi extrema, impediu muitos de aprovarem o ato com incontido entusiasmo moral: decorado com aplausos, o comentáriovamos tornar esse pai agora governador do estado e quem sabe presidente exemplo de pai ama sua filha e esta mais que certo apoiadoooo” recebeu mais de mil curtidas. Uma mulher concordou, ganhando outras quinhentas curtidas: “Ele está certinho antigamente a educação era assim e ninguém morria por isso, e não existia tanto bandido”. Recebendo aprovação similar, outra moça ecoou: “Se muitos pais fizessem o q ele fez talvez n haveria tanto moleque bandido por ai”.

Não é realmente difícil ver, então, como em épocas e lugares tão mais ignorantes, instintivos e iletrados a prática “benevolente” de bater na esposa poderia ser amplamente considerada natural e apropriada, até pelas próprias mulheres vitimadas: desde que a narrativa moral do “fardo da amorosa autoridade do marido” fosse amplamente reconhecida, e certamente era, todos enxergariam a violência contra a mulher com a mesma complacência, e até admiração, com que hoje a maioria ainda enxerga “o fardo da amorosa autoridade paterna” — o marido agressor estava simplesmente cumprindo o seu papel, e quase certamente é isso que o leitor sentiria caso estivesse imerso em tal contexto moral. Relatos de mulheres muçulmanas da hodierna Mauritânia dão um vislumbre do fenômeno:

Salimata, casada com um homem que lhe bate, citou as palavras que ouviu de sua mãe: “Você é filha de uma mulher cujo marido lhe quebrou as mãos. As pernas da sua avó foram fraturadas pelo marido. Você deve ser amada”. A moça de 19 anos, do grupo étnico Soninké, disse que ensinou a si mesma a acreditar no que a mãe lhe disse. “Eu me sentia como um animal que precisava ser disciplinado”, disse ela. “Com o passar do tempo, vim a acreditar que meu marido me bate apenas quando ele está no auge de seu amor por mim”. “Quando a apatia aflige nosso relacionamento, ele não se importará mais com o que eu faço, mesmo que eu toque fogo na casa”, disse Salimata. “É nesse momento que sinto falta de ser espancada”.

* * *

Usando um cachecol colorido que mostra sua herança Fulani, Aichetou Samba, avó de 60 anos, sorriu e disse: “Uma mulher Fulani sempre se orgulha de ser espancada pelo marido”, e muitas vezes compartilha suas experiências com outras mulheres para demonstrar o amor de seu marido por ela. “Essa é uma de nossas tradições”, disse ela. “Nós vemos a prática de bater na esposa como algo comum e normal, que às vezes inclui derramar água fria no corpo da esposa”.

Tampouco isso é um fenômeno islâmico. Na Nigéria 63% das mulheres apoiavam a prática de bater na esposa em 2003, e ainda quase 40% delas em 2013 — metade cristãs (Oyediran 2016: pdf). De fato, “90% das etnografias relatam a presença e a aceitação moral da prática de bater nas esposas”(165). Quanto à relação entre a psicologia de bater em crianças e a psicologia de bater em mulheres, talvez seja mais direta do que poderia parecer: como relata a mesma vó Samba, como quem diz uma banalidade, “no passado, nossas meninas costumavam se casar aos oito anos de idade…”. O que faz pensar, e ouso deixar essa especulação no ar: sem a psicologia moral, talvez 99% dos casos de abuso infantil da história da humanidade — isto é, os casos culturalmente aprovados — jamais tivessem ocorrido?

Enquanto isso a violência amoral é comparativamente rara, pois o simples fato é que tipicamente não compensa. Citados à pagina 153, Roy F. Baumeister et al. capturam o ponto:

Apenas uma parte minoritária da violência humana pode ser entendida como um comportamento racional, instrumental, destinado a garantir ou proteger recompensas materiais. A futilidade pragmática da maior parte da violência tem sido amplamente reconhecida. Guerras prejudicam ambos os lados, a maioria dos crimes produz pouco ganho financeiro, terrorismo e assassinato quase nunca trazem as mudanças políticas desejadas, a maioria dos estupros falha em trazer prazer sexual, a tortura raramente extrai informações precisas ou úteis, e a maioria dos assassinos logo lamenta suas ações como inúteis e autodestrutivas.

Tampouco a maior parte da violência resulta de psicopatia ou “loucura”, ou de supostas cegueiras morais como literal “desumanização” ou “objetificação”, pois por um lado apenas entre 3 e menos de 1% dos indivíduos são de fato psicopatas violentos, e embora eles cometam proporcionalmente mais crimes do que os não-psicopatas, ainda é a minoria dos crimes: de fato, “transtornos mentais de todos os tipos respondem, em conjunto, por apenas uma pequena minoria dos crimes”(151; ênfases minhas). E, por outro lado, “desumanização” e “objetificação” em geral não passam de péssimas metáforas, pois o fato é que tipicamente é essencial reconhecer que a vítima é humana e, assim, capaz de sofrer para que desejar lhe impor sofrimento faça o menor sentido — seja por raiva, vingança, punição, desprezo, justiça, senso de superioridade, como um merecido corretivo, como exemplo, ou para “pôr o alvo no seu lugar”, etc. Afinal, “não faz sentido punir ou buscar vingança contra uma rocha, uma árvore, um computador, um automóvel, um caracol ou uma tartaruga sem qualquer capacidade de sentimentos ou raciocínio morais, pois eles não podem transgredir relacionamentos”(158).

Mas nessa tese, de que a maior parte da violência é moralmente motivada, o que Alan P. Fiske e Tage S. Rai estão chamando de ‘violência’? E o que estão chamando de ‘moral’?

‘Violência’ não é difícil de definir: “o infligir intencional de dor, dano físico e morte”(1). Os autores notam que isso exclui formas de causar sofrimento como “aprisionamento, isolamento, ostracismo, causar profunda vergonha [shaming] ou humilhação, privação e evocação intencional de altos níveis de medo e ansiedade”(2), muito embora a teoria possa ser expandida para iluminar esses tópicos.

‘Moral’ é mais delicado. Pra começar, deveria ser óbvio que não se trata aqui de afirmar que a violência é “moralmente correta” num sentido objetivo. Mas nesses temas, que resvalam em sensibilidades ideológicas, nunca faltam pessoas querendo confundir as coisas, e me vêm à mente Richard Dawkins, no início de O Gene Egoísta, dizendo saber que corria “o risco de ser mal interpretado por aquelas pessoas, bastante numerosas, que não conseguem distinguir uma afirmação de crença no que ocorre, de uma defesa do que deve ocorrer”. Assim os autores de Virtuous Violence se fazem claros: “nós usamos o termo descritivamente, não prescritivamente. Prescritivamente, nós abominamos toda violência. Quando usamos o termo moral neste livro, nós sempre queremos dizer moral do ponto de vista do perpetrador(6).

Dito isso, qual o sentido descritivo de moral tratado aqui?

“A moralidade consiste em certo conjunto de emoções avaliativas, e em certo conjunto de intenções. Os motivos e emoções dizem respeito aos sentimentos de que algo deve ou não deve ser feito, enquanto as intenções dizem respeito a fazer das relações sociais aquilo que elas devem ser(5; ênfases minhas). Nessa definição, pois, o núcleo é a noção de dever: “quando afirmamos que a maior parte da violência é moralmente motivada, queremos dizer que a pessoa que comete a violência sente, subjetivamente, estar fazendo o certo: ela crê que deve cometer a violência, e ela é de fato movida por emoções morais como lealdade ou forte indignação”(5).

Mas o outro componente da definição, “relações sociais”, é onde entra a principal teoria e contribuição do livro — e é o título do capítulo 2: “A violência é moralmente motivada para regular relações sociais”. O que faz perfeito sentido, pois foi justo em nossa espécie ultra social que as emoções morais evoluíram plenamente. A despeito do conceito idealizado e filosófico de moralidade, é preciso ter firme em mente que nossos instintos morais surgiram de um processo — a seleção natural — que não tem interesse nenhum em “promover o bem”, “reduzir o sofrimento” nem nada parecido. É apenas esperado que, na prática, os fervores morais se revelem meios de o indivíduo promover a si mesmo, socialmente, custe o que custar.

E se os autores estão certos, há quatro modelos básicos de “relações morais” em nossa psicologia: COMPARTILHAMENTO COMUNAL [communal sharing], que é basicamente o nosso tribalismo com suas mil formas de “amor (obrigatório) pelo grupo”, e a resultante xenofobia contra grupos diferentes; RANKING DE AUTORIDADE [authority ranking], que nos faz sentir profundo respeito instintivo por hierarquias e figuras de autoridade socialmente reconhecidas, sejam mães, maridos, policiais ou líderes espirituais e políticos (o que, se você me perguntar, é um terço da explicação do fenômeno nazista); CORRESPONDÊNCIA IGUALITÁRIA [equality matching], que faz com que todos nós mantenhamos um complexo e obcecado radar sobre quem está devendo o quê a quem, seja em favores, dinheiro, lealdade ou obrigações, assim construindo e atualizando a reputação de cada um (vale citar: “a IGUALDADE responde pelo sentido de obrigação que temos, tanto de convidar as pessoas para o nosso lar depois de nos terem convidado para o delas, quanto ao tentar machucar as pessoas da mesma maneira que nos feriram, um olho por olho…”(20)); e a VALORAÇÃO DE MERCADO [market pricing], nosso instinto para “garantir que recompensas e punições para cada pessoa sejam proporcionais aos seus custos, esforços, contribuições, méritos ou culpas”(20) voilà, “ódio à burguesia” e sentimentos similares.

O livro faz um excelente trabalho de mostrar como esses quatro modelos funcionam e interagem, como se agigantam em normas culturais, como de fato guiam, e fortemente, nossas intuições sociais, e como estão por trás da maior parte da violência humana. Em resumo, “a teoria da violência virtuosa propõe que o perpetrador tem a intenção de ferir ou matar a fim de constituir uma relação social para fazê-la corresponder a um modelo prescritivo [dentre os quatro] do que o relacionamento deve ser — do que ele precisa ser tornado”(17).

Como isso funciona na prática?

A maioria dos casos se encaixa confortavelmente na teoria: o grupo que percebe o desrespeito à COMUNIDADE pune o dissidente (ou o forasteiro); os pais, reforçando a própria AUTORIDADE, agridem os filhos; o sujeito que sente seu direito ao tratamento IGUALITÁRIO sendo violado, se vinga da percebida injustiça; a pessoa que acha que o VALOR de sua contribuição foi subestimado ou explorado, ou que alguém tem muito mais do que merece, pode retaliar fisicamente. Mas até mesmo com todo o meu cinismo, e para entrar num caso especialmente controverso, eu não podia ver como seria possível que um crime como o estupro fosse moralmente motivado nessa linha. Como os autores logo reconhecem, “pode parecer óbvio que a maioria dos estupros são antes atos instrumentais em que o perpetrador usa a vítima como um objeto para a simples satisfação sexual”(168).

Na verdade — ou assim argumentam Fiske e Rai — é mais comum que “forçar alguém a ser um parceiro sexual contra sua vontade [seja] inequivocamente pretendido como um reforço de AUTORIDADE. O estuprador controla a vítima, fazendo-a obedecer a sua vontade, para afirmar sua posição superior na hierarquia, especialmente quando ele sente que sua superioridade foi desafiada”(168). Eu certamente posso ver esse processo psicológico funcionando em casamentos tradicionais onde, como vimos, a autoridade masculina é sentida como natural e legítima, tanto pela esposa quanto pela comunidade ao redor. E como o estupro de parceiras românticas pode bem representar a grande maioria dos casos, a tese de Virtuous Violence parece plausível aqui também: a maioria dos estupros teria assim base na moralidade natural. Mas não fiquei convencido no caso particular do estupro oportunista de mulheres estranhas: ainda que a ressentida tendência de “coletivamente vingar as ofensas cometidas pelas mulheres, onde elas são todas equivalentes”(168) possa contribuir para um homem frustrado se motivar a estuprar, faria sentido que a motivação principal fosse o simples desejo sexual somado (dada a forte seletividade feminina) à absoluta escassez de parceiras interessadas. Em tais casos, a violência seria de fato perfeitamente amoral. Seja como for, o capítulo sobre estupro é bem mais nuançado e perspicaz do que posso mostrar aqui, cobrindo ainda o estupro na guerra (como forma de humilhar os homens derrotados, que tinham obrigação moral de proteger as mulheres) e o estupro coletivo (entre outras coisas, um modo de reforçar laços tribais entre os agressores, equivalente aos pactos de sangue).

* * * * *

Contra todas essas formas de “violência virtuosa”, os autores concluem que a solução é apontar nossos instintos morais contra alvos que realmente mereçam nossa indignação e desaprovação moral. Talvez, mas nesse ponto eu sou um cético. Não seria isso justamente insistir no erro fundamental? Antes me parece que simplesmente abandonar todo o framework moral, que de qualquer modo é baseado na ilusão intuitiva de que há prescrições objetivas e absolutas na estrutura da realidade, é a nossa melhor aposta prática e, seja como for, o único modo de estarmos com a verdade. O medo, claro, é que sem a moralidade estaremos todos perdidos num sanguinário “salve-se quem puder”. Parece-me que Virtuous Violence mostra exatamente o contrário: é com os instintos vulgares da moralidade que tendemos a mostrar o nosso lado mais destrutivo e perigoso.


Virtuous Violence

Hurting and Killing to Create, Sustain, End, and Honor Social Relationships

Alan P. Fiske & Tage S. Rai ◉ Novembro de 2014 ◉ 384 páginas

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Conteúdo:

Foreword by Steven Pinker
Warm thanks
The point

1 Why are people violent?

What we mean by “violence”
Natural aversion to killing and hurting
What we mean by “moral”
Conflicting moralities and post-hoc justifications
Pain and suffering are not intrinsically evil
Forerunners of virtuous violence theory and how it goes beyond them
Scope: what we are and are not discussing
Illegitimate, immoral violence

 

2 Violence is morally motivated to regulate social relationships

Fundamental ways of relating: the four elementary relational models
Cultural implementations of universal models
Constitutive phases
Metarelational models

3 Defense, punishment, and vengeance

Defense and punishment
Vengeance
Metarelational retribution
Violence due to conflicting models

4 The right and obligation of parents, police, kings, and gods to violently enforce their authority

Corporal punishment of children
Violence in the military
Violent policing
Violence by gods
Explanations of accidents, misfortune, and suffering
Trial by ordeal and combat
Metarelational aspects of authority-ranking violence

5 Contests of violence: fighting for respect and solidarity

Knighthood in medieval Europe
Gang and criminal cultures
Fighting among and alongside the gods
Sports Fighting among youths
Metarelational aspects of fighting for respect and solidarity

6 Honor and shame

Guest–host relationship
Honor killing
Honor violence in the United States
Honor among thieves
How the metarelational honor model organized the violence of the Trojan War

7 War

The motives of leaders and nations
The moral motives that move soldiers to go to war
Killing under orders
Killing for your comrades
Extremist violence and terrorism

8 Violence to obey, honor, and connect with the gods

Gods command violence
Sacrificing animals and humans to the gods
Self-sacrifice to the gods
China
American Indians
Christian monastic asceticism
Christian and Muslim self-flagellation
Theoretical elaboration

9 On relational morality: what are its boundaries, what guides it, and how is it computed?

Defining the moral space
Distinguishing between moral and immoral relationship regulation
What are the cultural preos delimiting violence?
Going beyond the culturally prescribed limits to violence
Is morally motivated violence rational and deliberative or emotional and impulsive?

10 The prevailing wisdom

Are most killers sadists and psychopaths?
Are killers rational?
Are killers impulsive?
Are killers mistaken?

11 Intimate partner violence

Intimate partner violence is widespread
Intimate partner violence is morally motivated to regulate relationships

12 Rape

Rape in war
Gang rape

13 Making them one with us: initiation, clitoridectomy, infibulation, circumcision, and castration

Initiation rites
Circumcision and excision
Eunuch opportunities

14 Torture

Motives of leaders who order torture
Motives of torturers
Motives of the public that approves of the use of torture

15 Homicide: he had it coming

How many homicides are morally motivated?
Mass murder
Homicides committed by the mentally ill
Metarelational motives for homicide

16 Ethnic violence and genocide

Violence against African-Americans in the US South
Genocide
Null attitudes and dehumanization in the perpetuation of mass violence

17 Self-harm and suicide

Non-suicidal self-injury
Suicide

18 Violent bereavement

Why are people sometimes enraged by death?

19 Non-bodily violence: robbery

Robbery for equality-matching vengeance
Robbery for authority-ranking status

20 The specific form of violence for constituting each relational model

Communal sharing violence: indexical consubstantial assimilation
Authority-ranking violence: iconic physics of magnitudes and dimensions
Equality-matching violence: concrete ostensive operations
Market-pricing violence: arbitrary conventional symbolism

21 Why do people use violence to constitute their social relationships, rather than using some other medium?

Criticality

22 Metarelational models that inhibit or provide alternatives to violence

23 How do we end violence?

Civil disobedience and hunger strikes
Urban gang homicide

24 Evolutionary, philosophical, legal, psychological, and research implications

Evolution
Philosophy
Law
Psychology
Research

The dénouement

What do we mean by “most” violence?
The need for general explanations

References
Index

Cambridge
Amazon

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