Volúpia Animal: Parte I

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Volúpia Animal

Por Que Tudo Gira em Torno de Sexo

por Lauro Edison


  • Parte I: Seleção Sexual ◄
  • Parte II: Homo sapiens (breve)

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Imagine o casal mais belo e encantador, veja como eles graciosamente
se atraem e empurram, se desejam e fogem, num belo jogo de amor,
uma deliciosa brincadeira. E agora olhe pra eles no instante da volúpia.
Toda a brincadeira, toda a alegria afetuosa de súbito desaparece. Que
seriedade é essa? É a seriedade da animalidade; animais não riem. (…)
[Na volúpia] não há brincadeira, como não há na natureza animal.

Arthur Schopenhauer, Manuscript Remains I: 45, ~1812

 

"Pesquisa americana mostra que fazer mais sexo que seus amigos é o segredo da felicidade” ‒ quando a página da Superinteressante postou essa notícia no Facebook, em abril de 2013, uma leitora se queixou: “odeio quando tudo gira em torno de sexo”. Suspeito que esse sentimento, entre outros embaraços naturais, ajudou a desorientar os biólogos durante mais de um século: a cegueira para a incômoda centralidade do sexo, dando lugar à ênfase indevida no clichê da “sobrevivência do mais apto”, prejudicou o avanço neodarwinista, deu fôlego às ilusões românticas das ciências humanas e fomentou o ceticismo (em si razoável) de criacionistas e filósofos no poder da seleção natural para explicar a evolução humana. Tentando reparar esse longo engano de uma vez por todas, o psicólogo evolucionista Geoffrey Miller escreveu em 2001 o excelente The Mating Mind. A verdade é que ‒ no que importa para a evolução (e a felicidade!) ‒ tudo gira mesmo em torno de sexo: a reprodução, e não a sobrevivência, é o núcleo da vida.

A sobrevivência importa apenas na medida em que contribui para a conquista sexual [courtship]. Se ninguém quer copular com um animal, não há qualquer objetivo evolucionário em o animal sobreviver..(174) (…) Cada aspecto do desenvolvimento, estrutura e comportamento de um organismo foi moldado para satisfazer as preferências do sexo oposto. Isso coloca a conquista sexual no coração da biologia moderna. (175)

Mas o clichê persiste: “Nosso planeta é o lar de 30 milhões de espécies (…) cada uma presa à sua própria longa luta pela sobrevivência” é a frase de abertura do ‒ de resto espetacular ‒ documentário de 2009, Vida, de David Attenborough. O caráter central do sexo não é apenas um fato ignorado: é um fato perturbador. Realização sexual e romântica é a chave da felicidade plena, mas é agressivamente elitista: não é para todos, só para os melhores. “Nenhuma teoria das origens humanas”, explica Miller, “pode evitar o fato de que a evolução depende de competição reprodutiva, e competição significa que alguns indivíduos vencem e alguns perdem”(137). Como os inevitáveis perdedores lidam com isso? Em geral, sustentando uma confortável ilusão coletiva: que o sexo (ou o que leva a ele: beleza, dinheiro, poder) não é o componente principal da felicidade; melhor ainda: que sequer é muito importante! Daí que dois meses antes, em outra parte do Facebook, quase duas mil pessoas compartilhavam essa açucarada listinha de conselhos “para viver feliz”:

Nenhuma menção à vida sexual. E no entanto o sexo é tão fundamental que, a despeito das intenções puritanas do artista, o nome da lista acima bem poderia ser “Para Conseguir Sexo”. Isso não é nada óbvio, eu sei. Mas considere, por exemplo, o conselho simpático e aparentemente assexual de “ajudar o próximo quando puder”. Miller explica: “o altruísmo humano (…) é um ornamento sexual”(339). Não que, durante o ato altruísta, a pessoa esteja conscientemente tentando atrair o sexo oposto (ou, bem, o mesmo sexo) ‒ como quando alguém exibe o decote… ou o carro esportivo; mas, como veremos, as bases evolutivas do altruísmo, bem como de outras características exclusivamente humanas, estão muito provavelmente relacionadas à escolha sexual: assim como a famosa cauda do pavão, evoluíram em parte como indicadores confiáveis de qualidade genética para atrair potenciais parceiros.

Quanto à felicidade, é simplesmente a meta que a seleção natural nos deu: envolve tudo o que nos ajuda a agradar os membros mais atraentes do sexo oposto ‒ isto é, a fazer com que nossos genes superem os genes rivais na competição por espaço nas próximas gerações. Quer notemos, quer não: como já percebia o filósofo Arthur Schopenhauer, meio século antes de Darwin, “a consciência  de  tudo isso com certeza não existe mas, antes, cada um presume fazer aquela escolha (…) apenas no interesse da própria volúpia”(1809: 34). Qualquer pessoa cujo ideal de felicidade vá em outra direção deixará menos descendentes, ou nenhum, e logo esse tipo de pessoa estará ausente da população. Por isso as pessoas ‒ em suas fofocas, tabus, modas, filmes, músicas, etc. ‒ são obcecadas com sexo e romance. Mas enquanto é óbvio que seios femininos e poder masculino atraem o sexo oposto, é menos óbvio que o altruísmo, ou a inteligência, ou a capacidade linguística e artística, ou o humor, o façam. Mas parecem fazê-lo. E o mais interessante é que isso explicaria um enigma: a razão de existirem!

Pois, afinal, esse sempre foi um grande enigma: por que os seres humanos, e apenas eles, possuem linguagem, inteligência, humor, arte, e altruísmo (moralidade)? Como essas capacidades podem ter evoluído? Acaso ajudariam um organismo a sobreviver? Pelo contrário, “de um ponto de vista pragmático biológico, arte e música parecem gastos inúteis de energia. A moralidade humana e o humor parecem irrelevantes para o trabalho sério de encontrar comida e evitar predadores”(2). Como Miller nos lembra, “desde a revolução Darwiniana, a visão sobrevivencialista tem parecido a única possibilidade cientificamente respeitável”(2). Era inevitável que muitos concluíssem: essas extraordinárias características humanas, únicas no mundo animal, não podem ser explicadas pela seleção natural. É preciso algo mais. Os cientistas sociais disseram “cultura”; religiosos disseram “Deus”, ou “design inteligente”; filósofos e cientistas perplexos disseram “algum princípio teleológico, ou orientado”; e até darwinistas irredutíveis, sentindo a necessidade de dizer algo, disseram “memes”. Vale falar um pouco de todos eles.

Para muitos a espécie humana ‒ em sua inesperada riqueza linguística, intelectual e cultural ‒ de algum modo “escapou da biologia”. “Instintos não criam costumes”, disse o sociólogo Ellsworth Faris em 1925, “costumes criam instintos, pois os supostos instintos dos seres humanos são sempre aprendidos, e nunca inatos”(1937: 17). Quase cinquenta anos depois, ecoando a tendência do século, o antropólogo Ashley Montagu subscrevia: “o ser humano é inteiramente desprovido de instinto. (…) tudo o que ele é e se tornou, ele aprendeu, adquiriu, de sua cultura, da parte do ambiente feita pelo homem, de outros seres humanos”(1968: 9). Como veremos, tudo isso é bobagem. Mas até um ultradarwinista como Richard Dawkins, percebendo que “quase tudo que é incomum no homem pode ser resumido em uma palavra: cultura(1976: 325), estava insatisfeito com outros darwinistas que “tentaram encontrar ‘vantagens biológicas’ em diversos atributos da civilização humana”, pois os princípios darwinianos disponíveis “não chegam a fazer frente ao enorme desafio de explicar a cultura”. Ele então concluiu que “para compreender a evolução do homem moderno, devemos abandonar a ideia do gene como a única base das nossas ideias a respeito da evolução”(328). Foi aí que apresentou os infames memes: versões culturais dos genes. Dawkins não levou a ideia adiante, mas seu amigo ‒ o filósofo Daniel Dennett ‒ sim; e foi longe a ponto de fazer deles a sua tese central em filosofia da mente: “a consciência humana é, em si, um enorme complexo de memes”(1991: 210). A implicação surreal, que Dennett aceita, é que os animais (ou os bebês) não possuem consciência. A evolução cultural “memética”, ao nos fazer transcender as forças biológicas, teria nos dado a consciência de brinde![1]

Mas há quem vá mais longe: certos filósofos e cientistas, além dos criacionistas, pensam que escapamos não da biologia, mas da física! Que o religioso tome a singularidade humana como evidência de intervenção divina, é de esperar. Mas o filósofo Thomas Nagel é um ateu ferrenho. E ainda assim afirma que “prima facie é altamente implausível que a vida como nós conhecemos seja o resultado de uma sequência de acidentes físicos unidos ao mecanismo de seleção natural”(2012: 6). Ele duvida que a “capacidade de compreender estruturas abstratas logicamente complexas” fosse uma habilidade com “valor de sobrevivência no cotidiano pré-histórico”(77). Talvez, ele sugere, devamos começar a pensar em “princípios de um tipo diferente (…); teleológicos [i. e., direcionados a um propósito; orientados] em sua forma lógica, em vez de mecanicistas”(7), leis “enviesadas em direção ao maravilhoso”(92). Delírio de filósofo? Talvez. Mas pelo menos um grande físico, Freeman Dyson, sugeriu o mesmo: “as leis da natureza são construídas de tal modo a tornar o universo tão interessante quanto possível”(1997: 173). Ou como ele famosamente escreveu, décadas antes, na Scientific American:

À medida que olhamos para o universo e identificamos os vários acidentes da física e da astronomia que trabalharam juntos para o nosso benefício, quase parece como se o universo devesse em algum sentido ter sabido que nós estávamos a caminho. (1971: 51)

Isto é, a vida ‒ e com ela a consciência, a inteligência e a moral ‒ parece fazer parte do propósito do universo. Nagel conclui: “em uma visão teleológica (…) valor não é apenas um efeito colateral da vida; antes, a vida existe porque a vida é uma condição necessária para que o valor exista”(2012: 123). Outro intelectual digno de menção neste ponto é o jornalista ‒ e de resto ultradarwinista ‒ Robert Wright. Achando no mínimo suspeito que as leis da física levem à seleção natural, que leva à consciência (prazer e dor, logo bem e mal: moralidade), que leva à lógica da cooperação (soma não-zero), que por fim leva à elevação dos padrões morais, ele sugere que toda essa tendência “torna razoável supor que a humanidade possui, em algum sentido, um ‘propósito superior’”(2009: 519).[2]

Cultura, memes, Deus, propósito superior! Seja como for, todos concordam numa coisa: a seleção natural, sozinha, é incapaz de explicar a milagrosa mente humana. Com os leigos não é diferente: “a maioria”, Miller nos lembra, “pensa que a evolução da mente precisa ter sido guiada por alguma força inteligente, algum projetista ativo”(4). Até mesmo o co-descobridor da seleção natural (!), Alfred Wallace, acreditava que a mente humana “contém muitas adaptações biológicas, tais como linguagem elaborada, música e arte, que parece impossíveis de explicar como resultantes da seleção natural por valor de sobrevivência”(52). Miller continua:

Wallace se viu aliado com anti-Darwinistas que alegavam que a evolução nunca poderia explicar a consciência humana, inteligência ou criatividade. Embora permanecesse um evolucionista sobre tudo o mais, Wallace se tornou um criacionista com relação ao “espírito humano”. Ele frequentava sessões espíritas. Ele desenvolveu interesse em mesmerismo e charlatões espirituais. Ele morreu convencido de que a ciência jamais conseguiria sondar as origens ou a natureza da mente humana. (52)

Será que a seleção natural é suficiente para explicar a mente humana? Será que tantos intelectuais ‒ Faris, Montagu, Dawkins, Dennett, Nagel, Dyson, Wright, Wallace ‒ estão delirando ao postular explicações extras? Eis o que Geoffrey Miller tem a dizer: “a despeito de ser um darwinista comprometido, eu compartilho essas dúvidas”(4).

Eu não penso que a seleção natural por sobrevivência pode explicar a mente humana. Nossas mentes são divertidas, inteligentes, criativas e articuladas muito além das demandas de sobrevivência nas planícies da África do Pleistoceno. Para mim, isso aponta para o trabalho de alguma força inteligente e algum projetista ativo. Contudo… (4)

Penso que Miller, ao fazer três coisas, superou todos os intelectuais anteriores, além de todos os darwinistas conformistas que simplesmente aceitavam (ou ignoravam) o problema. Primeiro, ele admitiu o enigma totalmente, em vez de subestimá-lo; depois, admitiu a necessidade de design inteligente, corretamente pressentida por Nagel e Wallace; por fim, e acima de tudo, encontrou a solução correta ‒ nem cultura, nem Deus, nem “a Força”[3]:

Contudo, penso que os projetistas ativos foram nossos ancestrais, usando seus poderes de escolha sexual para influenciar ‒ inconscientemente ‒ o tipo de descendentes que eles produziriam. Ao inteligentemente escolher seus parceiros sexuais por suas habilidades mentais, nossos ancestrais se tornaram a força inteligente por trás da evolução da mente humana. (4)

Esse livro argumenta que nós nem fomos criados por uma divindade onisciente, nem evoluímos por cega, estúpida seleção natural. Em vez disso, nossa evolução foi moldada por seres intermediários em inteligência: nossos próprios ancestrais, escolhendo seus parceiros sexuais de forma tão sensata quanto podiam. (10)

Geoffrey Miller certamente tem crédito por ajudar a recolocar a reprodução sexual no centro do darwinismo, relegando a “sobrevivência do mais apto” ao segundo plano, como deve ser. Ao resenhar o livro, Richard Dawkins reconheceu: “seleção sexual, a ‘outra’ teoria de Darwin, finalmente saiu da geladeira…”. Pois aí está ‒ e Miller certamente se apressa em reconhecer ‒ o verdadeiro gênio por trás da longa história de perplexidade intelectual que contei: quem já havia entendido tudo, antes de todo um século de incompreensão, foi exatamente Charles Darwin. Como? Pra começar, nunca foi apenas a mente humana que pareceu impossível de explicar via seleção natural. Voltemos ao caso clássico: como diabos essa cauda absurda ajudaria um pavão a sobreviver?

Dificilmente poderia atrapalhar mais!

Não é apenas que a cauda chama a atenção de predadores num raio de 1 km, ou que torna a fuga impossível; para mantê-la, o pavão gastará muito mais energia. Não admira que Darwin confidenciasse ao filho: “a visão de uma pena na cauda de um pavão, quando quer que eu olhe pra ela, me deixa doente!”. “Os pavões”, explica Miller, “pareciam zombar da teoria de Darwin de que a seleção natural molda cada traço com um propósito”(35). Um fato, porém, era óbvio: os pavões exibem avidamente as suas caudas para o sexo oposto, as reservadas pavoas, que examinam o show atentamente. Adivinhe! Se elas gostarem o suficiente, sexo é o resultado ‒ e os filhotes da pavoa herdarão a vistosa cauda do pai.

Qualquer pavão que não “desperdice” seus recursos biológicos em uma cauda desengonçada sobreviverá muito melhor que os outros. Mas não agradará fêmea nenhuma, não passará seus genes adiante e, na geração seguinte, já não veremos nenhum pavão desse tipo. O mesmo pode ser dito sobre mulheres sem seios e pessoas totalmente sem humor: seios e humor são investimentos custosos (corporais, mentais) e inúteis para a sobrevivência; mas são essenciais para a conquista[4]. Logo evoluem. Esse é um tipo diferente de seleção: seleção sexual. Darwin prefigurou a ideia já em seu clássico sobre a seleção natural, A Origem das Espécies, e o fez por analogia com um terceiro e mais conhecido tipo de seleção: a seleção artificial

Se o homem pode em um curto período dar beleza e uma plumagem elegante aos seus garnisés, de acordo com os próprios padrões de beleza, eu não posso ver qualquer boa razão para duvidar que as aves fêmeas possam, ao selecionar durante milhares de gerações os machos mais melodiosos ou belos conforme seus padrões de beleza, produzir neles um efeito acentuado. (38)

Como diz Miller, “a cauda do pavão é uma obra de arte natural, evoluída através das preferências estéticas das pavoas”(267).

Mas resta um enigma: por que as pavoas desejam caudas dispendiosas e problemáticas, em vez de traços que ajudem a sobreviver? Por que, pergunta Miller, “um homem deveria presentear uma mulher com um inútil anel de noivado de diamante, quando poderia lhe comprar uma grande e boa batata, que ela ao menos poderia comer?”(124). Por que “a dispendiosa dança, a dispendiosa conversação, a dispendiosa risada, as dispendiosas preliminares”(128) seriam atraentes, em lugar de esforços com valor prático? Não é à toa, claro: há uma relação decisiva entre seleção sexual e desperdício. Aliás, é por isso que The Mating Mind é voltado apenas para “os 10% ou mais das capacidades cerebrais que não são compartilhadas com outros primatas, [que é onde] nós encontramos habilidades intrigantes como inteligência criativa e linguagem complexa que exibem (…) esses absurdos desperdícios de tempo, energia e esforço”(133) [ênfase minha].

Ocorre o seguinte: do ponto de vista da seleção sexual, tudo o que importa na escolha de um parceiro é a sua qualidade genética. Mas é impossível conferir diretamente o DNA dos candidatos: eles precisam demonstrar seu valor através de propaganda confiável, isto é, propaganda que os geneticamente menos dotados serão incapazes de falsificar. E ocorre que investimentos inúteis e dispendiosos são um ótimo modo de conseguir isso: desperdício, como os economistas há muito já sabem, é só pra quem pode. Por exemplo, Miller explica que as moedas não podiam ser feitas simplesmente do material mais barato e eficaz: “para se proteger contra a falsificação, autoridades (…) dotavam as moedas com características que seriam proibitivamente expensivas para um falsificador com pouco capital imitar”(160). O mesmo princípio vale na natureza. Como resumiu o cientista cognitivo Steven Pinker, “só um pavão sadio é capaz de ostentar uma cauda esplêndida”(1996: 437). E como explicou Dawkins (quando ainda não acreditava no princípio!), “um macho com uma cauda longa e incômoda está anunciando às fêmeas que ele é um macho viril tão forte que pode sobreviver apesar de sua cauda”(1976: 282)[5]. Temos assim a solução do enigma: a cauda do pavão, e o humor, e os seios, e tantos outros “desperdícios” naturais, evoluíram para demonstrar a qualidade genética ‒ a aptidão ‒ do portador.

Desperdício é o que mantém os indicadores de aptidão honestos. O caráter desperdiçador da conquista é o que a torna romântica. (…) Do ponto de vista da “sobrevivência do mais apto”, o desperdício parece louco e inútil e mal-adaptativo (…) [mas] do ponto de vista da teoria dos indicadores de aptidão [um tipo de seleção sexual], esse desperdício é o modo mais eficiente e confiável de descobrir a aptidão de alguém. (…) Cada ornamento sexual em cada espécie sexualmente reprodutiva pode ser visto como um estilo diferente de desperdício.

Vale citar a continuação na íntegra:

Baleias-jubarte macho desperdiçam suas energias com cantos de cem decibéis, de meia-hora, que eles repetem o dia inteiro durante a temporada de procriação. Pássaros tecelões macho desperdiçam seu tempo construindo ninhos ornamentais. Besouros lucanos desperdiçam matéria e energia de sua comida desenvolvendo formidáveis mandíbulas. Elefantes marinhos desperdiçam mil quilos de sua gordura por estação de acasalamento, lutando contra outros elefantes marinhos. Leões desperdiçam incontáveis calorias copulando trinta vezes por dia com leoas, antes que elas engravidem. Machos humanos desperdiçam seu tempo e energia conseguindo graus de graduação, escrevendo livros, competindo em esportes, lutando com outros homens, pintando quadros, tocando jazz e fundando cultos religiosos. Estas podem não ser estratégias sexuais conscientes, mas as motivações subjacentes para ‘sucesso’ e ‘status’ – mesmo em preferência à recursos materiais – foram provavelmente moldadas pela seleção sexual. (128-129)

Desperdício, contudo, não é a única forma de propaganda genética confiável. Considere o experimento feito no documentário da BBC de 2005, Journey of Life: dois mandarins, um dos quais recebeu uma dieta rica em carotenoides, são colocados como vizinhos em câmaras separadas; e uma fêmea então é posta diante deles, de modo a poder escolher de que lado fica.

Nove em cada dez fêmeas do experimento escolheram o mandarim da esquerda, isto é, o que recebeu a dieta. Os carotenoides, explica o documentário, “ajudam o corpo do mandarim a combater doenças”. Se o organismo de um macho produz naturalmente mais carotenoides, seus genes são melhores. Ao usar a dieta em um dos machos, é claro, o experimentador trapaceou: deu às fêmeas a ilusão de que ele possuía maior qualidade genética. Ainda assim, como elas poderiam saber a quantidade de carotenoides no organismo dos dois machos?

Elas nunca precisaram saber.

Ocorre que os carotenoides, sendo pigmentos “encontrados naturalmente em frutas, sementes e cenoura”, também tornam o bico e a plumagem do mandarim mais avermelhados. E isso atrai as fêmeas (note que, como as pavoas, elas também são menos chamativas que os machos). “Quem você acha que é o mais popular?”, diz o apresentador, “o macho com o bico mais vermelho”. Já o macho desbotado “está provavelmente debilitado e não é uma boa aposta como parceiro”. Outra vez, é assim que a evolução opera: o desejo sexual funciona como um detector inconsciente de qualidade genética. “Um brilhante macho colorido não é apenas provavelmente saudável”, conclui o episódio, “ele irá transmitir, para os filhotes, seus genes resistentes a parasitas”. Humanos não são exceção:

Pesquisadores como R. Thornhill, S. Gangestad, [etc.] tem analisado muitos aspectos da face e corpo humanos como indicadores de aptidão que revelam saúde, fertilidade e juventude. (Miller: 106)

Curiosamente, um outro caso como o do mandariam ‒ de um macho sendo artificialmente ajudado por um experimentador ‒ foi registrado, em 1950, na espécie altamente sapiente que é a minha e é a sua. Ocorreu durante um estudo entre os índios Sirionó do leste da Bolívia. O psicólogo evolucionista David Buss nos conta:

Certo homem, um caçador inexperiente, tinha perdido várias esposas para homens que eram melhores caçadores. Seu status despencou. Mas quando o antropólogo A. R. Holmberg começou a caçar com esse homem, o ensinando como matar com uma espingarda, e lhe dando carne que ele poderia alegar que era sua, o status do caçador se elevou dramaticamente. Ele começou a “desfrutar o status mais alto, adquiriu várias novas parceiras sexuais e estava insultando os outros, em vez de ser insultado por eles”. (2005: cap. 3)

Para os psicólogos evolucionistas, claro, isso não é surpresa: “em culturas de caçadores-coletores, os homens que são mais charmosos, mais respeitados, mais inteligentes e os melhores caçadores tendem a atrair mais do que sua justa parcela de atenção sexual feminina”(Miller: 75). Assim, os pavões tem suas caudas, os mandarins seus bicos vermelhos e os homens, status social. Entre outras coisas, é claro: os pavões também precisam dançar bem; os mandarins, cantar alto e melodiosamente; e os machos humanos… tantas outras coisas ‒ dançar e cantar, aliás, certamente ajudam!

Mas por quê? Uma coisa é um traço corporal indicar qualidade genética: um bico vermelho, um rosto simétrico, uma cauda colorida, seios volumosos; outra, totalmente diferente (?), é um comportamento ser capaz de representar bons genes: cantar, dançar, construir ninhos, fazer rir. Como algo assim pode funcionar? Quando em 2012 o fotógrafo aquático Yoji Ookata encontrou essa quase prova de inteligência alienígena no fundo do mar do Japão, acabou que se tratava da estratégia de sedução de um pequeno peixe fugu!

Segundo um blog de arte japonesa, o peixinho “trabalha incansavelmente, dia e noite, para esculpir os sulcos circulares”.

Atraídas pelos sulcos e cristas, as fêmeas fugu encontrariam o seu caminho ao longo do leito escuro do mar até o macho fugu, onde eles iriam acasalar e pôr ovos no centro do círculo. De fato, os cientistas observaram que quanto mais cristas o círculo contivesse, mais provável era que a fêmea fosse se acasalar com o macho.

O caso do fugu ‒ e você pode ver um belo vídeo no YouTube ‒ mostra com eloquência que a seleção sexual não molda apenas o corpo. A sintonia fina cerebral exibida no comportamento artístico do peixe é uma excelente publicidade de qualidade genética. A tese fundamental de Geoffrey Miller é que o cérebro humano faz o mesmo: exibe a própria saúde. Eis outra passagem essencial:

A teoria do cérebro saudável sugere que nossos cérebros são diferentes dos de outros primatas não porque cérebros exageradamente grandes nos ajudaram a sobreviver ou a aumentar a prole, mas porque tais cérebros simplesmente são melhores propagandas de quão bons nossos genes são. Quanto mais complicado o cérebro, mais fácil de ser bagunçado. A grande complexidade do cérebro humano o torna vulnerável ao prejuízo oriundo de mutações, e seu tamanho grande o torna fisiologicamente custoso. Ao produzir comportamentos, tais como linguagem e arte, que apenas um cérebro complexo e custoso poderia produzir, nós podemos estar anunciando nossa boa condição [fitness] para potenciais parceiros. (…) Nossa inteligência criativa poderia ter evoluído não porque nos dá qualquer vantagem de sobrevivência, mas porque nos torna especialmente vulneráveis a revelar nossas mutações em nosso comportamento. (104)

Cético?

À primeira vista a ideia também me pareceu duvidosa. E o próprio Miller enfatiza que seu livro apresenta apenas “um instantâneo de uma teoria provisória em construção”, cujo propósito é “estimular a discussão… e mais pesquisas, não convencer as pessoas de alguma doutrina escrita na pedra”(31). Mas uma vez que se compreende a lógica da seleção sexual, e os fatos do mundo animal, a verdade é que essa “teoria provisória” faz perfeito sentido. O fato de que animais cantam, dançam e elaboram belas estruturas para atrair parceiros sexuais, e de que nós temos – em todas as culturas – música, dança e arte que tipicamente aumentam o sex appeal daqueles que as produzem… pode apostar que não é mera coincidência. “Toda música vera, toda música original é canto de cisne”(1888 NW 57); “também o talento é um ornamento”(1886 BM §130) – aqui também, você vê, Nietzsche estava no caminho certo.

Além disso, Miller nos lembra que a arte “é relativamente fácil e divertida de aprender” e que “tendo acesso a materiais, as habilidades infantis de pintar e desenhar se desdobram espontaneamente…”(259). Ainda segundo ele, a antropóloga Ellen Dissanayake argumenta “que a arte humana exibe três características importantes como uma adaptação biológica”(259). Uma delas é a já citada universalidade cultural. Outra é que as artes “são fontes de prazer para ambos, artista e espectador, e a evolução tende a tornar prazerosos os comportamentos que são adaptativos”. Por fim…

…produção artística implica esforço, e esforço raramente é despendido sem alguma razão adaptativa. Arte é onipresente, e custosa, assim é improvável que seja um acidente biológico. (259)

Mas o que me persuadiu mais profundamente foi a observação sagaz de que “nosso senso de beleza [artística] foi moldado pela evolução para incorporar um discernimento do que é difícil em oposição ao que é fácil, raro em oposição a comum, custoso em oposição a barato, habilidoso em oposição a canhestro, e adequado em oposição a antiquado”. Lendo isso, senti a elusiva essência da experiência artística, que todos nós temos sem muito bem entender, enfim entrando em foco! O objetivo de fábrica dessa apreciação estética agora ficava claro como água: “a beleza de um trabalho de arte revela o virtuosismo do artista”(281) – Óbvio! Como se eu sempre tivesse sabido. Por que esse insight foi tão persuasivo? Por tornar perceptível que nossa atitude diante de qualquer produto artístico é… instintiva: assim como o fato de bebês terem mais medo de homens mostra a assinatura evolutiva do perigo masculino, o fato de termos uma intuição estética funcionando tão espontaneamente é, em si, um rastro biológico da arte. E o que mais, a finalidade dessa intuição é discernível: avaliar o DNA do artista, exatamente como faz a fêmea fugu em seus caprichos estéticos.

Se isso ainda parece inacreditável, você provavelmente não tem a dimensão do grau de precisão e detalhismo da evolução darwiniana. Pra ficar num só exemplo, considere o ciúme masculino: longe de uma invenção cultural, tal instinto está milimetricamente sintonizado para minimizar as chances de um homem ser traído e, assim, acabar desperdiçando seu investimento paterno no filho de um rival. Além da conhecida eficácia controladora dos ciúmes, “alguns estudos têm mostrado que quando uma mulher retorna de uma longa viagem, seu parceiro tende a produzir uma ejaculação muito mais forte que o normal, como se para soterrar o esperma de qualquer competidor que possa ter encontrado seu caminho dentro da vagina não vigiada da parceira”(Miller: 232). Ao construir corpos e instintos, você vê, a evolução não dá ponto sem nó.

O que nos traz ao momento ideal para voltar a enfatizar que a seleção sexual é um tipo de design inteligente: seus trabalhos são fruto não de um processo cego, mas de escolhas deliberadas e sensíveis, quando não inteligentes, de organismos complexos — e no caso de nossa espécie, de organismos humanos. Dizem que esses, por conta de coisas como a linguagem e a moralidade, transcendem a biologia. Checaremos isso na Parte II.

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Continua na Parte II: Homo sapiens
(em breve)

 

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“O impulso sexual (…), ao lado do amor à vida, mostra-se como a mais forte e ativa das molas propulsoras, absorvendo ininterruptamente a metade das forças e pensamentos da parte mais jovem da humanidade. É ele a meta final de quase todo esforço humano, exercendo influência prejudicial nos mais importantes casos, interrompendo a toda hora as mais sérias ocupações, às vezes pondo em confusão por momentos até mesmo as maiores cabeças, não se intimidando de se intrometer e atrapalhar, com suas bagatelas, as negociações dos homens de Estado e as investigações dos sábios, conseguindo inserir seus bilhetes de amor e suas deixas até nas pastas ministeriais e nos manuscritos filosóficos, urdindo diariamente as piores e mais intrincadas disputas, rompendo as relações mais valiosas, desfazendo os laços mais estreitos, às vezes tomando por vítima a vida, ou a saúde, às vezes a riqueza, a posição e a felicidade, sim, fazendo mesmo do outrora honesto um inescrupuloso, do até então leal um traidor, entrando em cena, assim, em toda parte como um demônio hostil, que a tudo se empenha por subverter, confundir e pôr abaixo.”

Arthur Schopenhauer, Metafísica do Amor, 1809


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Referências

Block, N. 1994: ‘What Is Dennett’s Theory a Theory of?’, Philosophical Topics 22: The Philosophy of Daniel Dennett. University of Arkansas Press.

Buss, D. 2005: The Murderer Next Door: Why the Mind is Designed to Kill. Penguin Books, London.

Dawkins, R. 1976 (2007): O Gene Egoísta. Cia. das Letras, São Paulo. Tradução: Rejane Rubino.

Dennett, D. 1991: Consciousness Explained. Back Bay Books, New York.

Dyson, F. 1971. ‘Energy in the Universe’, Scientific American, Volume 225, Issue 3

Dyson, F. 1997. Imagined Worlds. Harvard University Press, London.

Faris, E. 1937: The Nature of Human Nature and Other Essays in Social Psychology. McGraw-Hill Book Company, Inc., New York and London.

Miller, G. 2001: The Mating Mind: How Sexual Choice Shaped the Evolution of Human Nature. Anchor Books, New York.

Nagel, T. 2012. Mind and Cosmos: Why the Materialist Neo-Darwinian Conception of Nature Is Almost Certainly False. Oxford University Press, New York.

Nietzsche, F. 1886 (2005). Além do Bem e do Mal. Cia. das Letras, São Paulo. Tradução: Paulo César de Souza.

Nietzsche, F. 1888 (2008). O Caso Wagner / Nietzsche Contra Wagner. Cia. das Letras, São Paulo. Tradução: Paulo César de Souza.

Schopenhauer, A. 1809 (2000): Metafísica do Amor / Metafísica da Morte. Martin Fontes: São Paulo. Tradução: Jair Barboza.

Montagu, A. 1973: Man and Agression. Oxford University Press, London.

 

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Capa

Recorte de The Ghosts of Paolo and Francesca Appear to Dante and Virgil, Ary Scheffer 1855

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Notas

[1] Sobre isso, preciso citar o filósofo Ned Block: “Nós não devemos levar a sério a ideia [de Dennett] de que cada um de nós teria sido um zumbi [i. e. um ser sem consciência], não fosse por injeções culturais específicas durante nosso crescimento” (1994: 25).

[2] Devo confessar: eu também acho o fato suspeito. Se isso não é indício de algum tipo de “propósito”, apostaria que é indício de um multiverso: 99,99% dos universos que existem são vazios, mas uns poucos vão conter vida, consciência e inteligência ‒ e aqui estamos nós. Ass.: Princípio Antrópico Fraco.

[3] Ao resenhar o livro de Thomas Nagel, o vencedor do Pulitzer Jack Miles conta essa: “Na margem da minha cópia, oposta à sua ‘predisposição cósmica’, eu escrevi: ‘Que a Força esteja com você’” ‒ ironizando o “princípio teleológico” de Nagel com o conceito de Star Wars. Eu ri bastante.

[4] Miller cita o jornalista Arthur Koestler sobre o enigma evolutivo do humor: “Qual é o valor, para a sobrevivência, da contração involuntária e simultânea de quinze músculos faciais associada a certos ruídos frequentemente irreprimíveis?”. Nenhum. Contudo Miller nos lembra (e você já poderia adivinhar): “é um dos poucos traços humanos importante o suficiente para ter a sua própria abreviatura em anúncios pessoais (…). Humor é atraente, e é por isso que evoluiu” (415-416). Mas por que é atraente? Chegaremos lá.

[5] Quando a Edge Foundation perguntou a vários intelectuais, em 2008, Sobre o Quê Você Mudou de Ideia?, a resposta de Dawkins foi justamente que ele passara a acreditar no “Princípio da Desvantagem” aqui discutido: Handicap Principle, primeiramente proposto pelo zoólogo israelense Amotz Zahavi. Nos últimos anos surgiram críticas no sentido de que confirmações empíricas estritas do princípio são inerentemente difíceis de obter (Számadó 2011, 2012; Grose 2011). Contudo, parece óbvio que algo na linha do princípio é real e, de fato, extremamente comum na natureza – como aliás se depreende da citação acima (e abaixo).

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em Antiutopia

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