Utopias em ‘Antiutopia’

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por Lauro Edison

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A última coisa que eu prometeria seria “melhorar” a humanidade. Eu não construo novos ídolos; os velhos que aprendam o que significa ter pés de barro. Derrubar ídolos (minha palavra para “ideais”) — isto sim é meu ofício.

Ecce Homo ● Prólogo §2 (1888)


…nunca se perguntaram realmente a si mesmos quanto custou nesse mundo a construção de cada ideal? Quanta realidade teve de ser denegrida e negada, quanta mentira teve de ser santificada, quanta consciência [intelectual] transtornada…?

Genealogia da Moral ● II §24 (1887)


Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto para mim a verdadeira medida de valor.

Ecce Homo ● Prólogo §3 (1888)


 

As três citações acima, como sabe quem reconheceu os livros ou o estilo, são de Nietzsche. Elas ajudam a esclarecer, com a brevidade e força típicas do filósofo que se descreve como “o primeiro imoralista”, a razão de este site se chamar “Antiutopia” e de seu lema ser “A verdade é a única subversão”. O lixo cultural de visões de mundo sedutoras, “contestadoras” e infundadas se amontoa às toneladas. Utopias. Ideários tão superficiais e vagos que mal servem como erros instrutivos, pois a última de suas prioridades é a verdade: o que eles são, esses ideários superficiais, é roupas ideológicas para impressionar a multidão de… impressionáveis. E para esse fim — rebeldia superficial — funcionam brilhantemente. Antiutopia é obra de um agente do Império da Realidade: é um bunker da filosofia (a tradicional e a analítica, e. g. Hume e Russell, jamais a continental, e. g. Foucault e Derrida), um templo profano para ideias com ossos lógicos e músculos empíricos, o tipo de ideia que, onde a verdade for incômoda, o que é frequentemente o caso, encontrará aquele silêncio revelador e indiferença embaraçada que os fatos desagradáveis produzem nos consumidores de utopias, ou — o que é dizer o mesmo — naqueles que não possuem a sensatez incondicional do espírito filosófico.

O principal sentido de “utopia” implícito em “Antiutopia” é então o de “projeto de natureza irrealizável; quimera, fantasia”(Houaiss), o eterno canto de sereia a seduzir os pobres de espírito: ideologias e “ismos”, essas semirreligiões dos semi-inteligentes, são todas iguais em sua simplicidade convidativa, seu potencial para a exibição de “benevolência” e “heroísmo” inúteis (o ativismo é a nova reza) e sobretudo sua falsidade gritante, dos rascunhos cristãos sobre a origem do mundo aos palpites feministas sobre a natureza humana — para mencionar, das tantas empresas delirantes, uma muito tradicional e outra muito atual. Pois claro: ideologias são mesmo como religiões, vez que as religiões nada mais são do que as formas menos sofisticadas e primordiais de utopia. A marca de corrupção de todas elas, a mancha filosófica definidora, é o dogmatismo: a tendência escancarada e moralista de começar pelas conclusões (tipicamente desejadas com ardor, ou fruto de impressões emocionais ingênuas), tentando então ajustar a realidade e a razão às crenças, em vez de estas àquelas.

Antiutopia, lisez: guerra ao delírio em todas as suas formas.
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O ESPÍRITO ANTIUTÓPICO

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A atitude da antiutopia é a integridade intelectual fundamental, a lúcida insistência de que em princípio qualquer hipótese, não importa quão “imoral” ou incômoda, não importa quão aniquiladora dos entusiasmos sonhadores e das “boas intenções”, pode ser verdade; e frequentemente é verdade, para a amargura dos utópicos, como é de esperar em um Universo acidental e indiferente. Você pode sentir o espírito antiutópico vendo o cientista cognitivo Steven Pinker, um cínico contido, citar e em seguida comentar a famosa canção Imagine de John Lennon:

“Imagine que não existem posses / eu me pergunto se você é capaz / Sem necessidade de cobiça ou fome / uma fraternidade de homens / Imagine todas as pessoas / compartilhando o mundo inteiro! / Você pode dizer que sou um sonhador / mas eu não sou o único / Espero que algum dia você se junte a nós / e o mundo entrará em harmonia.”

Por incrível que pareça, muitos de nós acreditavam nessas pieguices. Uma ideia dominante nas décadas de 60 e 70 era a de que a desconfiança, a inveja, a rivalidade, a ganância e a exploração eram instituições sociais em vias de ser reformadas. (…) Não só roqueiros, mas também ilustres críticos sociais americanos expressavam sentimentos desse gênero. (…) Charles Reich anunciou [em um livro] que uma revolução pacífica vinha sendo conduzida pela geração então em idade de cursar a universidade. Uma nova consciência evoluíra na juventude americana, afirmou Reich. Aqueles jovens tinham menos sentimento de culpa e menos ansiedade, não eram moralistas, competitivos e materialistas, eram afetuosos e honestos, não exploravam nem agrediam o próximo, eram comunitários e não faziam caso de status e carreira. A nova consciência, nascendo como flores no asfalto, expressava-se em sua música, comunidades, caronas, drogas, meditações, na saudação de paz e amor e até mesmo no modo de vestir.

(…)

Reich escreveu esse livro (…) baseando-o em conversas que teve com os estudantes [de Yale]. Esses estudantes, obviamente, estavam entre os indivíduos mais privilegiados da história da humanidade. Com Mamãe e Papai pagando as contas [e] todo mundo ao redor pertencente à classe alta (…) era fácil acreditar que tudo o que você precisa é de amor. Depois da formatura, a geração Reich transformou-se na geração de profissionais urbanos das roupas Gucci, dos BMW, dos condomínios de luxo e dos bebês gourmets das décadas de 80 e 90. (…) Como indagou o roqueiro pós-anos 60 Elvis Costello: “Foi um milionário que disse ‘Imagine que não existem posses’?”.

A Nação Woodstock não foi o primeiro sonho utópico a esvair-se…

Como a Mente Funciona, p. 447-449 (1996)

Imagine”, é claro, quer basicamente dizer “fantasie utopicamente”. E então acontece que a história continua: o próprio John Lennon, mais tarde, abandonaria o idealismo piegas em favor do mais cru individualismo (que, diga-se, é o verdadeiro Rock’n’Roll) (Bitch). Na letra de God, abaixo, você pode sem receio trocar “Deus”, que é apenas uma das utopias, por “Utopia” em geral:

Deus é um conceito God is a concept
pelo qual medimos by which we measure
nossa… our…
dor pain
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(…) (…)
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Eu não acredito em… mágica I don’t believe in… magic
Eu não acredito em… Jesus I don’t believe in… Jesus
Eu não acredito em… Kennedy I don’t believe in… Kennedy
Eu não acredito em… Ioga I don’t believe in… Yoga
Eu não acredito em… Reis I don’t believe in… Kings
Eu não acredito em… Elvis I don’t believe in… Elvis
Eu não acredito em… Beatles I don’t believe in… Beatles
Eu só acredito… I just believe…
em mim in me
Yoko e eu… Yoko and me…
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E essa é a realidade And that’s reality
O sonho acabou The dream is over
Que posso dizer? What can I say?
O sonho acabou… The dream is over
Ontem Yesterday
eu era o tecedor de sonhos, I was the dreamweaver,
mas agora estou renascido but now I’m reborn
Eu era a Morsa, I was the Walrus.(personagem de Lewis Caroll)
mas agora sou John but now I’m John
Então queridos amigos, And so dear friends,
Só lhes resta seguir em frente You just have to carry on
O sonho acabou. The dream is over.

Utopia é um conceito pelo qual medimos nossa dor.

A tendência dos utópicos a abraçar fantasias inspiradoras e a recusar ver os fatos coloca a filosofia, cuja prioridade é a verdade, em rota de colisão com todas as formas de idealismo, cujas necessidades — emocionais, estéticas, morais, políticas — fatalmente demandam que o indivíduo enxergue a realidade de forma distorcida e ingênua. Antiutopia, você pode ver assim, é uma declaração de guerra do espírito filosófico contra o espírito idealista. “Nada é tão belo como a verdade; apenas a verdade é amável” — o verso do poeta Boileau retweetado por Schopenhauer — é a estética e a distinção da elite intelectual. Mesmo a verdade terrível.

Desejo de coração que (…) esses pesquisadores e microscopistas da alma sejam na verdade criaturas valentes, magnânimas e orgulhosas, que saibam manter em xeque seu coração e sua dor, e que se tenham cultivado a ponto de sacrificar qualquer desejo à verdade, a toda verdade, até mesmo à verdade chã, acre, feia, repulsiva, amoral, acristã… Porque existem tais verdades. —

— Nietzsche, sobre os “psicólogos ingleses” que, já em sua época, tentavam suavizar moralmente a teoria da evolução de Darwin. Genealogia da Moral §1 (1887)

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DISTOPIA?

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Mesmo a verdade terrível.

Quão trágica, melancólica ou perigosa, em princípio, a verdade pode se revelar? A resposta é em si um exemplo de verdade incômoda: tão trágica e melancólica quanto possível. Em particular, talvez o preço de insistir em olhar de frente o abismo da realidade seja trazer sobre a humanidade, como uma maldição, todo o sofrimento e conflito destrutivo que até agora as ilusões benéficas (?) da religião e da moral preveniram. Domínio dos fortes, mulheres escravizadas, barbárie e crianças mortas — ao estilo da natureza. Quem sabe? Quem poderia saber de antemão? Essa mera possibilidade, não importa quão improvável, faz com que a proposta de Antiutopia tenha ressonâncias com o sentido sombrio que é mais normalmente referido com o termo “Distopia”. Na síntese do Houaiss:

Distopia
2. lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação; antiutopia.

O fato de tal cenário desolador não ser aqui dogmaticamente excluído por “boas intenções”, sendo visto antes como uma legítima possibilidade e um risco aceito — como é inevitável quando se está pronto a aceitar a verdade seja ela qual for e suas inevitáveis consequências —, dá ao espírito de Antiutopia uma nota de escuridão. Uma nota atrativa e instigante, para os que ousarem admitir, pois flertar com a escuridão é também flertar com a liberdade e a integridade intelectual, e essas são o florescimento do indivíduo — mesmo se a longo prazo forem a ruína da coletividade. Ainda assim, essa é uma mera possibilidade. E a julgar pelo horizonte amoral, que contemplo há uma década, uma que é extremamente improvável, tanto quanto a ideia análoga (e no fundo a mesma ideia) de que sem Deus ou religião a civilização entrará em colapso; hoje podemos rir de tal prognóstico, mas ele pareceu sólido durante séculos, alimentado como foi pela covardia e ignorância da maioria. Se você teme a distopia, defender ideologias “benevolentes” ou valores “sagrados” é provavelmente o foco errado: a ignorância e cegueira alimentada por tais obscurantismos é que parecem ser a real ameaça. E essa é uma das razões por que este site se chama “Antiutopia”, longe da forma decididamente fascista, “Distopia”.

E no entanto a nota de escuridão permanece, pois o que vale para os livros de Nietzsche vale aqui:

Já me disseram com frequência, e sempre com enorme surpresa, que uma coisa une e distingue todos os meus livros (…): todos eles contêm, assim afirmaram, laços e redes para pássaros incautos, e quase um incitamento, constante e nem sempre notado, à inversão das valorações habituais e dos hábitos valorizados. Como? Tudo somente — humano, demasiado humano? Com este suspiro dizem que um leitor emerge de meus livros, não sem alguma reticência e até desconfiança frente à moral, e mesmo um tanto disposto e encorajado a fazer-se defensor das piores coisas: e se elas forem apenas as mais bem caluniadas?

— no Prólogo de 1886 a Humano, Demasiado Humano (1878)

E se elas forem apenas as mais bem caluniadas? E se não forem? Alguns acadêmicos não descartam a hipótese remota de que Nietzsche, com sua filosofia amoral egoísta (que é também a minha e, se estou certo, a do futuro), pode literalmente ter causado o nazismo — no sentido contrafactual de que, sem a inspiração (ainda que mal interpretada) da obra nietzscheana, certos entusiasmos fascistas não teriam sido alimentados o suficiente para culminar no terror nazista. Improvável, mas outra vez: quem sabe? A “utopia” em “Antiutopia” carrega ao menos uma sombra do sentido mais específico e clássico da palavra:

Utopia
1. lugar ou estado ideal, de completa felicidade e harmonia entre os indivíduos.
2. (…) sociedade ideal, fundamentada em leis justas e em instituições político-econômicas verdadeiramente comprometidas com o bem-estar da coletividade.

Pois pode-se ler, como hoje ainda é típico: sociedade ideal “fundamentada em algo como os dogmas da religião, da moral ou da ideologia”. Na medida em que “utopia” signifique isso — e em parte significa — “Antiutopia” começa mesmo a se parecer com “Distopia”. Admitidamente, e até com um prazer malicioso. Mas então vale citar a terceira definição do Houaiss de “distopia”, que enfim toca naquela ironia suprema já sugerida, e que foi sempre reconhecida através dos tempos: a saber, que as fontes das verdadeiras distopias são, veja só, justamente as bem-intencionadas utopias:

Distopia
3. qualquer representação ou descrição de uma organização social futura caracterizada por condições de vida insuportáveis, com o objetivo de criticar tendências da sociedade atual, ou parodiar utopias, alertando para os seus perigos; antiutopia [Famosas distopias foram concebidas por romancistas como George Orwell (1903-1950) e Aldous Huxley (1894-1963)].

O que nos leva à instrutiva origem do termo.

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A ILHA DE UTOPIA

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“A palavra ‘utopia’ chegou ao mundo”, como se lê na introdução da edição de Cambridge do famoso A Utopia, “com a publicação do pequeno livro de [Thomas] More em dezembro de 1516. More cunhou o termo fundindo o advérbio grego ou — ‘não’ — com o substantivo topos — ‘lugar’ — dando ao composto resultante uma terminação latina”. Assim “u-topia” significa literalmente “não-lugar” ou “lugar nenhum”. E como no idioma de More (o inglês) “utopia” tem a mesma pronúncia de “eutopia”, onde o prefixo grego eu significa ‘bom’ ou ‘feliz’, havia essa curiosa poesia involuntária embutida no idioma: que o “bom lugar” (eutopia), o lugar ideal e perfeito onde tudo dá certo, é “lugar nenhum” (utopia), um paraíso que não existe, que não passa de fantasia. A introdução de Cambridge continua: “Dentro da ficção do livro, ‘Lugarnenhum’ é uma ilha recentemente descoberta em algum lugar do Novo Mundo. O significado que ‘utopia’ veio a ter como um substantivo comum — uma sociedade perfeita, ou a descrição literária de uma — parece autorizado pelo título completo do livro, que é Sobre a Melhor das Repúblicas e a Nova Ilha de Utopia”. A propósito, ei-la:

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A Utopia, Thomas More: a bela capa da editora Penguin (note as montanhas ao fundo)
e o desenho da ilha de “Vtopiae” no livro original de 1516.

Mas então, quem diria, já em sua origem a utopia não é o que parece:

Quando nós começamos a ler o próprio livro, contudo, a plausível suposição que Utopia é uma utopia é rapidamente minada. (…) A república de Utopia acaba se revelando um lugar altamente atrativo em certos aspectos, mas muito pouco atrativo em outros. Ninguém passa fome lá, a ninguém falta um lar. A comunidade é admiravelmente igualitária. Por outro lado, a liberdade pessoal é restringida de várias formas. (…) Não há oportunidade para passar sequer as horas de lazer em atividades não sancionadas: não há fechaduras nas portas; “não há tavernas, cervejarias ou bordéis e nem ocasião para se corromper ou locais para encontros secretos”. Um cidadão precisa conseguir permissão dos magistrados locais para viajar, e permissão da esposa ou do pai até para dar uma caminhada pela região. Em geral, se Utopia antecipa em vários aspectos as prósperas democracias de nosso tempo, as restrições elaboradas impostas em seus habitantes também nos trazem à mente, com frequência, os modernos regimes totalitários.

— G. Logan & R. Adams, Introdução de Utopia, Cambridge, p. xi-xii

Além disso, em Utopia — lê-se no próprio livro — “não há a possibilidade de matar o tempo ou pretexto para furtar-se ao trabalho”; “sob as vistas de todos, cada qual se vê obrigado a trabalhar naquilo que faz habitualmente, ou a desfrutar de alguma forma respeitável de lazer”(59); “aquele que, por conta própria, transpõe os limites de seu distrito (…) [e reincide] na falta, é condenado à escravidão”(58). Em suma, Utopia é uma distopia — é uma avó da distopia de 1984, de George Orwell.

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Neal Hollinger 2012: Island No. 5 — coleção My Own Private Utopia: “Ilhas utópicas
que sempre, sempre cheiram um pouco a Distopia”
, comenta Faheem Haider

Fora da ficção o padrão se repete: o mundo real viu e segue vendo utopias comunistas e socialistas se converterem em distopias, bem como as sempre negligenciadas utopias religiosas gerando inquisições, cruzadas e jihads. Tudo isso é de esperar: tentar forçar o indivíduo contra a sua própria natureza e interesse pessoal, tirania considerada justa e educativa pelas “boas intenções” idealistas, é uma empreitada cujo fracasso inevitável não é percebido antes de se produzir muito sofrimento, sangue e nenhum resultado. O que acontecerá se tomarmos a atitude contrária e realista, aceitando o egoísmo como aquilo que ele é: a atitude racional por excelência? Se as utopias terminam ironicamente em distopias, quem sabe a ironia inversa também se dê: que a atitude cínica, amoral, antiutópica, acabe sem querer sendo o único caminho viável para a harmonia coletiva. E não é esse o significado da ascensão do individualismo estar associada à época menos violenta e mais próspera da humanidade? Talvez. Ou será essa uma tentadora desculpa para tornar palatável uma visão de mundo que, ainda que verdadeira, ou até por ser verdadeira, pode ser a mais perigosa de todas? Talvez.

É essa ambiguidade intrigante, suspeita e inevitável que Antiutopia incorpora ao se apresentar como uma “Contra-Ilha-de-Utopia”, como é levemente sugerido pela arte do site: oposta à Utopia regimentada de More, mas também magnanimamente isolada do mundo vulgar, a “Nova Ilha de Antiutopia” aparece invertida como em certas representações do inferno, gerando uma vertigem que, ficará a dúvida, ¿é a do deslumbramento ou a da ameaça? — —

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A provocação é reminiscente da amoral e antiutópica Cidade de Cabeça pra Baixo de Raul Seixas onde “ninguém precisa fazer / nenhuma coisa que não tenha vontade” e “ninguém precisa morrer / pra conseguir o Paraíso no alto / o céu já está no asfalto”. Dentro da ilha se acha ainda a Torre de Marfim, um monumento ao elitismo intelectual onde se sentirão plenamente em casa apenas os espartanos da verdade — os raros amorais e legítimos espíritos filosóficos (diria apenas “neo-nietzscheanos” se pudesse aqui tirar várias confusões do caminho) que combinam personalidade forte para não se sentirem dependentes de Deus, da moral ou da coletividade; inteligência e rigor para enxergarem longe e não serem vitimados por deslizes, falácias e vieses; mente aberta para estarem a altura de toda a escuridão da realidade; e malevolência para abandonarem a maioria que inevitavelmente ficará para trás. Não que a entrada seja “proibida” para qualquer um. Não é. Não precisa ser. Pois não será desejada por qualquer um a quem falte pulmões fortes para o ar rarefeito da Torre. A mais convidativa “Entrada Livre para Todos” será seletiva o suficiente. E isso quer dizer algo: o único elitismo que faz sentido é aquele que seleciona automaticamente, e não por via de alguma exclusão artificial. A seleção natural é um elitismo genuíno. A intelectualidade, decerto com menos sangue nas mãos, é outro.

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“A Nação Woodstock não foi o primeiro sonho utópico a esvair-se…” — a passagem de Pinker seguia:

As comunas de amor livre criadas nos Estados Unidos no século XIX ruíram em razão do ciúme sexual e do ressentimento de ambos os sexos pelo hábito dos líderes de acumular jovens amantes. As utopias socialistas do século XX transformaram-se em impérios repressivos conduzidos por homens que colecionavam Cadillac e concubinas. Na antropologia, um após outro os paraísos nas ilhas dos Mares do Sul revelaram-se perversos e brutais. Margareth Mead afirmou que o sexo sem compromisso deixava os samoanos satisfeitos e isentos de crimes; veio à luz que os rapazes instruíam uns aos outros nas técnicas de estupro. Mead descreveu os arapesh como “brandos”; eles eram caçadores de cabeças. Ela mencionou que os tshambuli invertiam os papéis dos sexos, com os homens usando cachos nos cabelos e maquiagem. Na verdade, os homens espancavam suas mulheres, exterminavam tribos vizinhas e consideravam o homicídio um marco na vida de um jovem, conferindo ao matador o direito de usar no rosto a pintura que Mead julgava tão efeminada.

E para dar ainda outra mostra do espírito antiutópico, cito a seguir na íntegra um breve texto do evolucionista Matt Ridley.

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O SEXO E A UTOPIA
Matt Ridley

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Se a natureza humana não se altera quando a cultura muda — o principal insight de [Franz] Boas, provado pela arqueologia — então o contrário também é verdadeiro: a mudança cultural não altera a natureza humana (pelo menos não muito). Este fato atormentou os utópicos. Uma das ideias mais persistentes nas utopias é a abolição do individualismo em uma comunidade que compartilha tudo. Na verdade, é quase impossível imaginar uma cultura sem o ingrediente do comunalismo. A esperança de que a experiência de uma cultura comunal possa mudar o comportamento humano floresce com especial vigor a cada poucos séculos. De sonhadores como Henri de Saint-Simon e Charles Fourier a empresários práticos como John Humphrey Noyes e Bhagwan Shree Rajneesh, os gurus têm repetidamente pregado a abolição da autonomia individual. Os essênios, cátaros, lolardos, hussitas, quacres, shakers e hippies tentaram, para não falar de uma miríade de seitas pequenas demais para ter nomes memoráveis. E o resultado é idêntico: o comunalismo não funciona. Repetidamente, em relatos destas comunidades, o que as derruba não é a desaprovação da sociedade em torno delas — embora esteja seja bastante forte — mas a tensão interna causada pelo individualismo.

Em geral, esta tensão se desenvolve primeiramente sobre o sexo. Aparentemente é impossível condicionar o ser humano a gostar do amor livre e abolir seu desejo de ser ao mesmo tempo seletivo e possessivo em relação a seus parceiros. Você não pode sequer enfraquecer este ciúme criando uma nova geração em uma cultura compartilhada: o individualismo ciumento realmente piora nas crianças da comuna. Algumas seitas sobrevivem abolindo o sexo — os essênios e os shakers eram estritamente celibatários. Isto, contudo, leva à extinção. Outras fazem o possível para tentar reinventar a prática sexual. A comunidade Oneida de John Noyes, no interior do estado de Nova York do século XIX, praticava o que ele chamava de “casamento complexo”, em que os velhos faziam amor com mulheres jovens e as mulheres velhas com homens jovens, mas a ejaculação era proibida. Em seu ashram Poona, Rajneesh inicialmente parecia ter adotado satisfatoriamente o amor livre. “Não é exagero dizer que temos uma festa de f***, cujas predileções provavelmente não eram vistas desde os tempos dos bacanais de Roma”, vangloriou-se um participante. Mas o ashram Poona, e o rancho Oregon que se seguiu, logo foi dividido por ciúmes e rixas, não menos sobre quem ia dormir com quem. O experimento terminou, 93 Rolls-Royces depois, com uma tentativa de homicídio, envenenamento em massa de comida para deturpar uma eleição local e fraudes de imigração.

Há limites para o poder da cultura de mudar o comportamento humano.

O Que Nos Faz Humanos, 2003, p. 289 —
Também publicado na Torre de Marfim

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A UTOPIA E O SEXO

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O entusiasmo idealista é uma medida de nossa dor, mas não é apenas e nem principalmente isso. Há uma fonte mais natural e persistente do delírio utópico: a necessidade humana de exibir a personalidade para atrair parceiros sexuais ou românticos. Entenda-se bem o significado disso: a maior das forças evolutivas, o impulso reprodutivo, está pesadamente a favor da ilusão ideológica. Assim, após descrever um caso familiar de “repentina irrupção de afabilidade” entre universitários nova-iorquinos na época do apartheid africano, onde centenas deles, com “espontaneidade e ardor desconcertantes”, “exigiram que a universidade vendesse todas as suas ações de empresas que faziam negócios na África do Sul”, o evolucionista Geoffrey Miller pergunta: “O que levaria [jovens] majoritariamente brancos e de classe média a faltar aulas e arriscar ir para a cadeia por ocupar um prédio administrativo banal durante duas semanas, a fim de apoiar a liberdade política de pobres estrangeiros negros que viviam num país a 13 mil quilômetros de distância?”. E então comenta:

O jornal conservador do campus publicou uma vinheta apresentando o protesto como um ritual primaveril anual de acasalamento, com folias dionisíacas pontuadas por slogans políticos sobre a causa arbitrária daquele ano. Inicialmente a vinheta parecia condescendente, porém, retrospectivamente, pareceu conter alguma verdade. Embora os protestos atingissem os seus fins políticos somente de forma indireta e ineficiente, promoveram um acasalamento muito eficiente entre os jovens homens e mulheres que alegavam compartilhar ideologias similares. Todos pareciam namorar alguém que encontraram durante a ocupação. Em muitos casos, o compromisso político era muito tênue e o protesto terminou bem a tempo de os estudantes estudarem para as provas semestrais. Contudo, em certos casos, os relacionamentos sexuais facilitados pelo protesto duraram anos.

Darwin vai às Compras, 2009, p. 341

Em seu resumo simples e direto: “Nosso vasto cérebro sócioprimata evoluiu rumo a uma meta social predominante: fazer bonito para os outros”(p. 10). E se o objetivo darwiniano do fervor ideológico — um estado obviamente instintivo que, como tal, está sujeito à seleção natural — é a propaganda social e romântica, e não a causa política, então a verdade e os fatos são quando muito secundários para a ideologia. De fato são perigosos para a ideologia, pois a realidade não vem formatada para combinar com o tipo de opinião simplista e caricata que permite aos idealistas exibirem “atitude” e “engajamento” com uns poucos clichês estridentes: chavões, gritos de guerra, lições de cartilha, rompantes de indignação, denúncias. Tal atitude chamativa e ostensiva, afinal, é justamente a “graça” do idealismo: é o que leva os demais adeptos a vibrarem, criarem laços calorosos e até se apaixonarem. Na mesma página Miller continua:

Os seres humanos são animais ideológicos. Demonstram fortes motivações e capacidades para aprender, criar, recombinar e disseminar sistemas de ideias carregadas de valores, frequentemente com um desprezo virtuoso por qualquer evidência empírica que as solaparia. (…) Se uma ideologia notavelmente exibida se relaciona de forma confiável a certas características de personalidade social e sexualmente desejadas, então a verdade empírica da ideologia é irrelevante. Com efeito, as ideologias que, do ponto de vista empírico, são as mais enganosas e autoprejudiciais podem, com frequência, constituir os indicadores de personalidade mais confiáveis.

E se um idealista é inteligente o suficiente, como certamente é o caso do “engenheiro do Hawaii” Humberto Gessinger, ele acaba anos depois escrevendo curiosas confissões de que o prazer próprio era, o tempo todo, o grande motivador por trás da aventura ideológica:

tudo bem… até pode ser
que os dragões sejam moinhos de vento
muito prazer… ao seu dispor
se for por amor às causas perdidas
por amor… às causas perdidas…

Dom Quixote; álbum Dançando no Campo Minado (2003)

Ou nas reveladoras palavras de um fã da música, num vídeo relacionado, “me acusam de ser idealista, sonhador. Pois bem, eu sou. Permitam-me morrer tentando mudar o mundo, e eu morrerei feliz” (ênfase minha). Isso ajuda a explicar por que os “animais ideológicos” tendem a se frustrar, em vez de comemorar, quando sua suposta causa começa a ir bem demais: estatísticas negativas para a causa são paradoxalmente recebidas com vibração, além de ridícula credulidade, enquanto estatísticas positivas encontram abatimento, irritação e inquebrantável ceticismo. O objetivo concreto, afinal, nunca foi solucionar problemas sociais, muito ao contrário: o importante é haver desculpa crível para exibir a cauda de pavão ideológica. Assim, se há racismo de menos na sociedade para justificar uma boa pose moral, que tal provocar ou mesmo forjar ataques racistas para dar fôlego ao combate? “Conforme problemas individuais são resolvidos e comportamentos ofensivos desaparecem”, nota o pesquisador político Laird Wilcox, “a definição de racismo é ampliada vezes sem conta para incluir mais e mais comportamentos, de onde nós temos o problema da ‘crescente’ intolerância e preconceito. Suspeito que a última coisa que muitos antirracistas profissionais querem é uma sociedade verdadeiramente neutra racialmente. Eles desenvolveram um interesse pessoal na continuação do problema”. Pouco antes no mesmo livro Wilcox escreve:

Quando quer que ideais abstratos adquiram a urgência moral que igualdade racial ou oposição a “intolerância”[“bigotry”] tem hoje, é apenas questão de tempo até encontrarmos indivíduos para quem objetivos nobres justificam meios questionáveis. O militante e moralizador fanático — ansioso para sabotar princípios importantes a fim de desfrutar o fulgor da honradez.[flush of righteousness] — é a pedra no caminho que qualquer resolução razoável de problemas raciais/étnicos deve superar.

Crying Wolf: Hate Crime Hoaxes in America, 1994, p. 1-2 (pdf)
Cf. também: fakehatecrimes.org

Nesse ponto surge sempre a desconfiança crescente de que cada ativismo é mais prejudicial do que útil para as causas, donde a existência previsível de mulheres contra o feminismo, negros contra o movimento negro e gays contra a militância gay. E isso não deveria ser óbvio? Por que sequer esperar que mero fervor instintivo e tribalista, de qualquer espécie, possa ter a menor relação com soluções eficazes para problemas complexos? O entusiasmo por utopias, apesar de todo o mau fingimento de seus adeptos e simpatizantes, não está inscrito na arena pública da compreensão e argumentação racional — se estivesse, seu conteúdo típico não poderia ter mais popularidade e peso cultural do que a teoria da Terra Oca ou a ufologia. Ainda Miller (p. 346):

A função da ideologia política como indicadora da personalidade ajuda a explicar o motivo pelo qual as discussões políticas costumam ser perda de tempo. Tentar convencer alguém de mudar dos Verdes para os Libertários tomando como base argumentos racionais e evidências empíricas é tão fútil quanto tentar mudar o tipo de personalidade herdado por alguém por esses mesmos meios. Da mesma maneira, independentemente de princípios políticos abstratos, as pessoas ansiosas e introvertidas não serão a favor da legalização do Ecstasy, e as esposas castas não apoiarão a legalização da prostituição.

Assim como, na frase clássica de House, “se você pudesse argumentar racionalmente com pessoas religiosas, não haveria pessoas religiosas”. Uma vez mais a ideologia se revela como uma espécie de semirreligião.

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E não é Antiutopia então apenas a minha própria tentativa de “fazer bonito para os outros”? Ó por favor, leitor, não me tome tão vulgarmente: fazer bonito, sim, como não?, mas não meramente “para os outros”, apenas para uma minoria seleta de mentes afins, aqueles raros corações de ouro que sabem valorizar ideias sólidas por serem sólidas, que então devidamente desprezam e bocejam com a vulgaridade “contestadora” e “sexy” e que exatamente por isso são os únicos a sentir que justamente o sólido, só o pensamento sólido, é sexy e vibrante — outra vez, “só a verdade é bela” é a mais refinada das estéticas. Quanto aos demais, corações de prata, bronze, lata e piores, que eles — em quantidades exponencialmente maiores — me admirem muito, mas com inseguranças e receios (morais?); me admirem com grandes reservas; me admirem com distância e me usem parcialmente; me tomem como uma distração interessante (que é como tomo, por exemplo, os vídeos do Dâniel Fraga ou do Clarion); me tomem por desimportante; me recusem como perigoso ou enviesado ou sem seriedade; me desprezem como tudo isso; me ignorem completamente. Tudo isso será apenas efeito colateral de Antiutopia, cujo alvo principal é apenas o primeiro valioso grupo, uma elite dispersa em cantos escuros da cidade.

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UTOPIAS EM ‘ANTIUTOPIA’

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Mas, concretamente, quais são as utopias e quais são as visões sóbrias? O fato de eu ser decididamente contra visões de mundo utópicas ainda não diz quais visões, teorias e ideários eu, pessoalmente, concluí serem utópicas — ou sequer falsas. A lista a seguir, com seus breves comentários, indicará algumas de minhas conclusões filosóficas específicas. Note que ela inclui (candidatas a) utopias pouco óbvias no reino da filosofia, lógica e matemática, isto é, no reino das próprias bases da racionalidade. É em boa parte por isso que Antiutopia é um projeto principalmente filosófico, em vez de “contra-ideológico”, iconoclasta ou apologético. Já sobre se estou certo ou errado em um caso particular, isso é obviamente algo que cada um deve julgar por si e que está sempre aberto ao debate — um debate que aliás é enfaticamente convidado, ou eu não seria um arauto da filosofia: tudo para a discordância racional vigorosa, nada para o dogmatismo; e o fato é que mais de uma vez o confronto inteligente de ideias me levou a mudanças de opinião profundas e importantes.

P. S.: pretendo atualizar esta lista no futuro, seja com comentários adicionais, revisões de opinião, novas utopias ou novos links em cada item. Por hora, segue-se a versão 1.0.

 

Religião

O caso paradigmático e ilustrativo de atitude utópica: se a perda eterna dos entes queridos, e depois da própria vida, é uma verdade amarga demais para se engolir; se o sucesso e felicidade dos malévolos e injustos é um golpe insuportável para o orgulho e o senso de justiça; que tal acreditar, como é tão conveniente, que alguém como um Deus, ou algo como a estrutura secreta do Universo, nos garantirá a vida após a morte e a punição exemplar dos que “merecem” sofrer?

Moral

A Moral — ou, o que é o mesmo aqui, a Ética — é basicamente Deus sem barba, sem olhos e sem braços. É uma versão impessoal e causalmente impotente do “juiz universal” que demanda que os bons e justos triunfem no final: a suposta fonte exterior, metafisicamente absurda, de “valores objetivos” ou “deveres objetivos” que pretendem se impor ao autointeresse do indivíduo, tornando “objetivamente errado” que este beneficie a si mesmo se isso prejudicar terceiros. Tal juiz, lei ou abstração, claro, não existe. E o fato de a utopia moral, ao contrário da religiosa, continuar sendo tida como realidade óbvia e indiscutível — ao menos fora da filosofia — dá à essa época o ar obscurantista da Idade Média.

Antiutopia & Torre de Marfim

Filosofia Sith (2015) [facebook]
Moralidade: uma afetação arbitrária (2015)

Amoralidade: Um Teaser Trailer (2014)

Livros & Papers

Beyond Morality ● Richard Garner (1994)
The Myth of Morality ● Richard Joyce (2004)
Moral Error Theory ● Jonas Olson (2014)

Against Ethics ● John P. Burgess (1978)
SEP | Moral Skeptcism ● Walter Sinnott-Armstrong (2015)
SEP | Moral Anti-Realism ● Richard Joyce (2015)

Idealismo

“Idealismo”, em geral, é a atitude de colocar uma visão de mundo — tipicamente contestadora, inspiradora, benevolente… e simplista — à frente dos fatos. Claro, cada ideologia alega estar com a verdade, pois não pode admitir o contrário; mas o embaraço típico de selecionar fatos, reinterpretar dados como teólogos reinterpretam a Bíblia e se converter em um Dragão de Várias Cabeças onde, sempre que um fato inequívoco decepa uma cabeça, duas novas crescem, apontam a origem corrompida de cada ideologia.

Já acreditei que alguma espécie de idealismo, racionalmente suplementada, poderia valer a pena. Mas qualquer projeto sólido o suficiente para merecer a qualificação de “racionalmente suplementado” será prontamente ignorado pelos típicos idealistas — será antes, como o projeto do Altruísmo Eficaz, sentido por eles como tediosamente intelectual e emocionalmente estéril. O importante, afinal, nunca foi a eficácia para a causa, e sim o  frisson coletivo que tanto colore a vida dos adeptos.

Onde o site avô de Antiutopia dizia “Idealismo”, aqui será dito, bem, … “Antiutopia”.

Torre de Marfim: meu comentário sobre os protestos de junho de 2013

Materialismo

Por “materialismo” me refiro ao dogma metafísico que dominou o século XX: a crença de que tudo é físico. Obviamente muitos materialistas pensam estar, eles próprios, combatendo a verdadeira utopia nessa história, a saber, a necessidade do ser humano de se considerar especial, divino talvez, como que possuidor de algo como uma alma imaterial imperecível. Essa, claro, é de fato uma utopia, e a deixo na conta da Religião. Mas persiste o fato, perfeitamente óbvio, de que os estados subjetivos e qualitativos da consciência existem — cores, sabores, dor, a sensação de frio, intenção, pensamento — e que são patentemente imateriais, a saber, não são corpos extensos no espaço tridimensional e nem estados ou processos compostos por tais corpos, mas sim estranhas entidades “virtuais” e “mentalmente internas”. O caráter utópico da insistência no materialismo transparece no comentário do filósofo David Pearce:

Experiência subjetiva e composição fenomenal são um Problema Difícil para o clássico materialista científico do mesmo modo que fósseis são um Problema Difícil para o criacionista. Nos dois casos, a anomalia em questão demanda uma grande revisão no esquema conceitual do crente. Nos dois casos, os crentes estão propensos a passar suas vidas em negação.

Physicalistic Idealism (2015)

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Relacionado

● Em março de 2008 eu defendia o materialismo. Em julho de 2008 eu li esses trechos de Como a Mente Funciona, de Steven Pinker, e finalmente entendi o real problema.

Cientificismo

Por “cientificismo” aqui me refiro menos ao sentido amplo de “atitude excessivamente entusiástica e acriticamente reverente para com a ciência” (como colocou a filósofa Susan Haack em Seis Formas de Cientificismo) e mais à ideia específica de que a ciência substituiu ou tornou obsoleta a filosofia. O início do século XX viu, com o positivismo, a defesa de uma teoria do conhecimento puramente empírica e linguística, negando o valor cognitivo da razão pura e até o sentido de quaisquer afirmações que não fossem científicas. Isso rapidamente se converteu em uma atitude irracionalista, antimetafísica e antifilosófica em geral. E embora o movimento tenha entrado em declínio a partir da metade do século, há um recente “revival” dessa atitude surgindo em pelo menos três frentes mais ou menos independentes: cientistas filosoficamente obtusos como Stephen Hawking ou Neil deGrasse Tyson; jovens intelectuais “computacionalmente empolgados” que veem no poder dos algoritmos, no “rigor” do formalismo e na noção (filosoficamente confusa) de “informação” substitutos espetaculares para a filosofia tradicional — o Less Wrong sendo o principal reduto deles; e por fim uma legião de humanistas ateus que, pretendendo seguir o caminho sólido para a verdade, caiu na lábia dos positivistas antigos, dos cientistas modernos ou dos computacionalistas empolgados. O único resultado de se rejeitar a filosofia, contudo, é produzir lixo filosoficamente desastrado.

Antiutopia: Por Que a Física Precisa da Filosofia ● Tim Maudlin (2015)

Feminismo

Um texto sobre feminismo que teve ampla divulgação e aceitação em 2012 propôs um simples teste para o leitor saber se é favorável ou contra o feminismo: listava perguntas como “você concorda que mulheres devem receber o mesmo valor que homens para realizar o mesmo trabalho?” ou que “devem ter direito de votar e ser votadas?”. Com certo sentimento de banalidade, e exceto por minúcias filosóficas irrelevantes aqui (curioso?), concordei com as dez questões do teste. O autor concluía:

“Se marcou sim em todas ou quase todas… Sinto afirmar mas… Você é pró-feminista!”

“Quase todas”? Então sou mais “pró-feminista” que o próprio autor, pois se alguém discordar de sequer um item da lista, seja qual for, considerarei se tratar de um óbvio inimigo das mulheres.

“Sinto afirmar”? O autor pressentia, não sem razão, que muitos leitores antipatizariam com o rótulo “feminismo” mesmo que concordassem com os dez itens da lista. E deveriam mesmo: definições teóricas à parte, na prática o feminismo está intimamente associado com dois erros crassos: o moralismo estridente de sua abordagem e as vagas teorias infundadas sobre cultura (“patriarcado”, “machismo”, “cultura do estupro”) e natureza humana (diferenças de gênero ou padrões de beleza vistos como fruto de “socialização”). Fora do Brasil (e timidamente surgindo por aqui também) há vertentes do feminismo que se desligaram de ambos os erros. Esse tipo de feminismo é filosoficamente consciente, ou ao menos tenta ser, e tem todo o meu entusiasmo (mesmo se não tiver toda a minha concordância). Mas não é de admirar que tanto seus defensores quanto seus críticos tenham reticências sobre chamá-lo de “feminismo”: o rótulo está tão associado a protestos exóticos, casuística seletiva, abusos de estatística e teorias frágeis, para não falar de sexismo contra homens (somado à patética tese de que este é impossível na sociedade atual), que adotá-lo para posições ponderadas já parece inevitavelmente promover confusão.

Antiutopia: Diferenças entre os Sexos ● Hartwig Hanse (2005)

P. S.: o feminismo é apenas o exemplo mais destacado de uma tendência geral; o que vale para o feminismo tende a valer, como já sugeri, para formas análogas de antirracismo, combate à homofobia e ativismos similares.

 

Relativismo

O relativismo, a surreal ideia de que não há verdade objetiva, de que “cada um tem sua verdade”, é em geral uma tentativa desastrada de atingir a igualdade intelectual (utopicamente) por decreto filosófico. Contra ele basta repetir as palavras do físico Alan Sokal, coautor do conhecido Imposturas Intelectuais:

Como uma pessoa de esquerda, eu julgava ser completamente autodestrutivo para a esquerda norte-americana ter em mente uma filosofia relativista. Me parece que temos que fazer afirmações a propósito do funcionamento da sociedade, fazer propostas. E temos que afirmar que nossa análise é melhor que as outras. Não basta dizer “minha teoria feminista é tão boa como tua teoria machista”, é necessário dizer que é melhor e explicar por que.

Entrevista com Alan Sokal, 1998, Revista de Antropologia, USP

Sim, por favor!

Quando uma visão de mundo sente necessidade do relativismo, já assinou um atestado de desespero intelectual — caso, por exemplo, dos nazistas.

 

Conjuntismo

Há 150 anos, na senda de Georg Cantor e Richard Dedekind, a matemática está sob o dogma férreo de que a Teoria dos Conjuntos (TC) é um fundamento filosoficamente adequado para os números. Se é, por que a gritante atitude dogmática? O fato é que a TC leva ao que parece ser uma concepção metafisicamente mágica do infinito, basicamente permitindo que objetos abstratos surjam do nada: onde há um livro, por exemplo, há automaticamente um objeto distinto e abstrato: o “conjunto unitário” do livro. Graças a  isso a TC se torna, como ocorreria com qualquer magia que fosse levada a sério, uma fonte de objeções à razão pura, que obviamente “falha em compreender” a suposta (e bizarra) verdade matemática. Os especialistas tendem a considerar a TC indiscutível, claro, pois ela está na base de um século de florescimento teórico sem precedentes. E o ar de utopia não passou despercebido aos matemáticos: “Ninguém nos expulsará do Paraíso que Cantor criou” — a frase de David Hilbert seria repetida e acalentada incansavelmente século XX adentro. Mas provavelmente o florescimento teórico seja devido à técnica formal em si, simplesmente, e não às exóticas especificidades da Teoria dos Conjuntos. Penso que a inércia conjuntista da comunidade matemática cedo ou tarde (bem, tarde) chegará ao fim.

Relacionado: Matemática vs. Filosofia (ou: Por Que Detesto a Teoria dos Conjuntos)

Formalismo

Há essa estranha ideia, extremamente difundida (sobretudo em manuais de lógica), de que a verdade ou validade lógica é “uma questão de forma”; de que, por exemplo, a verdade de “chove ou não chove”, ou então a validade do argumento “chove / se chove, molha / logo: molha”, depende apenas da forma lógica das expressões envolvidas — a saber, que qualquer sentença da forma ‘P ou não P’ é automaticamente verdadeira, e qualquer argumento da forma ‘P / se P, então Q / logo, Q’ é automaticamente válido, onde “automaticamente” significa “independentemente de como o mundo é”. A ideia é que, de algum modo, o mero significado dos termos lógicos (‘ou’, ‘não’, ‘se’, ‘logo’, etc.) seja capaz de garantir a verdade ou validade de certas fórmulas ou conjuntos de fórmulas, “com independência do mundo”. Essa ideia é amplamente considerada um fato filosófico profundo que “explica” nosso conhecimento de verdades necessárias. Estas, nos dizem, são nossas próprias convenções linguísticas: verdades “insubstanciais” desconectadas da realidade! A lógica é então um mero jogo formal sob nosso controle, como o xadrez, e o entendimento da razão sobre a estrutura necessária da realidade é algo tanto dispensável quanto impossível. Voilà: utopia empirista, utopia positivista. Mas toda essa confusão conceitual passa por cima do fato banal de que, se o mundo fosse tal que chovesse e não chovesse, isto é, se pudesse abrigar tal cenário inconsistente, então “chove ou não chove” seria falsa — e não “automaticamente verdadeira”. As verdades lógicas, tanto quanto quaisquer verdades, dependem de como o mundo é.

Relacionado: Não Existe Lógica: Uma Provocação Racionalista

Determinismo Linguístico

Ou “whorfianismo”: por esse termo me refiro ao que Pinker, agora convocado na qualidade de linguista, descreve como “a famosa hipótese Sapir-Whorf do determinismo linguístico, segundo a qual os pensamentos das pessoas são determinados pelas categorias que a língua deles torna possíveis”(O Instinto da Linguagem: 61-62). Tal hipótese é extremamente desejada pelos utópicos, pois implica que o modo como percebemos a realidade é determinado pela cultura e, portanto, pode ser alterado — e o que mais, alterado de modo bastante simples: para produzir determinado efeito social, controle o modo de falar das pessoas! Isso, diz Pinker, “talvez explique a eterna atração que a hipótese exerce sobre as sensibilidades com pouca formação acadêmica. Mas isso é falso, completamente falso”. E para entender o porquê, você pode ler na íntegra a passagem relevante de O Instinto da Linguagem publicada aqui…

Antiutopia: A Linguagem Molda o Pensamento? ● Steven Pinker (1994)

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AO MEU LEITOR

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Bons dentes e bom estômago —
Eis o que lhe desejo!
Se der conta de meu livro,
Certamente se dará comigo!

Nietzsche, 1882: A Gaia Ciência • Prelúdio §54

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